Quarta-feira, Julho 11, 2007

NÚMERO NOVE

Editorial

O Homem, a Esperança e o seu ter de ser

Temos uma talentosa e estrutural capacidade, enquanto espécie, para desviar atenções do que nos inquieta, pegar no objecto e amassá-lo, moldá-lo, mudá-lo de posição, pousá-lo deste lado onde a luz não é tão forte, ou daquele onde ressalta à vista um pormenor particularmente mais interessante. Pormenor de pormenores vários menos pertinentes que assim ao longe até são um mero e normal relevo. O criar, o acto da escrita enquanto concretização – ou tentativa - do criar é disso exemplo. Porque desejo criar? Eu, espécie humana, crio porque sou testemunha do criado, do animal – que não é testemunha e por isso não quer criar -, desta terra, de mim e de ti, de mim hoje porque ontem criado, de mim hoje porque hoje criado, porque amanhã criado, porque em tudo, para sempre, criado… Desejo criar por saber que nunca o fiz verdadeiramente, desejo de uma vez para sempre criar um objecto que de todo em todo seja minha total criação. Total? Parcial? Faz sentido questionar totalidade ou parcialidade em questões que tem que ver com o novo, com o nunca antes ocorrido? Um novo que não é todo novo não é novo. “Há (…) uma separabilidade total entre o ente e o real”, disse-se aqui numa anterior edição. Ora, isto faria sentido se considerássemos o real como reais parciais. Se ao conceito de real não está colado o conceito de totalidade, não é de real que falamos, mas de perspectivas deste. A demarcação de um ente particular relativamente ao real é um modo de ser do real e de longe por este observado, não pode haver separabilidade, o real é os entes, todos os entes, mesmo os que já não existem. Aliás, o real de agora é esses entes, em última instância.
“Intuitivamente não imagino como pode a necessidade ter lugar, seja no futuro ou no passado, pois não há previdência no mundo que sustente a impossibilidade”… Da minha parte, não imagino como pode a contingência ter lugar, a impossibilidade é uma consequência inevitável de um mundo que está em andamento. Quando um ente cria um trecho musical será o fruto de uma de várias possibilidades ou será a possibilidade única, inevitável? Quando todo um passado cósmico, terrestre, humano, pessoal, se funde e origina “aquele” ente, com aquelas circunstâncias de vida, com aqueles características idiossincráticas, com aquelas características físicas, mentais, espirituais, com aquelas ocorrências de há 5 minutos atrás, aquelas visões, audições, toques do último passeio pelo jardim, etc… Quando tudo isto se junta será da autoria da criatividade a composição do trecho musical? E será de minha autoria isto que digo ou será de minha – tudo o que não eu – autoria?
“Esta espécie de holismo não só aniquila a separabilidade como permite que as grandes Revoluções da Humanidade tenham origem em actos aparentemente triviais.
Nada escapa à Ordem”. Não só todas as revoluções tiveram origem nesses actos como este acto de esticar a perna marcará para sempre o rumo do mundo. No imediato isto é irrelevante, mas produzirá cada vez mais efeitos transformadores à medida que o tempo passe. Aquela coisa semelhante a um humano que, em 3509, cuspirá para o chão, não o faria naquelas condições espaço-temporais, naquele preciso momento, naquele preciso sítio, não tivesse eu esticado a perna. Porquê? Nada será igual para mim, o meu corpo mexeu-se, tornou-se diferente, criou-me uma memória, esta memória ressurgirá no futuro e irá torná-lo diferente, a mim, por consequência ao que me rodeia e por consequência ao que rodeia o que me rodeia, numa lógica sem fim e em crescendo. O que ocorrerá em 3509 é o acto de uma potência, não de uma possibilidade, mas da potência que é a única possibilidade. “O Nada estará votado à impotência”. Não será essa a condição natural do Nada, ser impossível? O nada é um termo, tal com o infinito, ambos inconcretizáveis, ambos impossíveis. Trágico é o nada ser impossível e essa é a angústia humana, o algo nunca dar lugar ao nada.
Mesmo o fogo que parece recriar-se ao arder arde do seu particular modo que é efeito de uma causa. O meu espírito criativo que pensou fazer emergir a novidade quando criou teve os impulsos que teve, imateriais até, porque a isso foi impelido. A arte enquanto criação não existe, existe apenas como interpretação. O artista é um intérprete, vive e emociona-se com a arte, sente-se vibrar, mas é esse o seu fado, mais nenhum.


André Faia

Poesia

Colagens falsas

É nas ruas despidas de razão
Que me sento à espera do dia que comece
Mas o dia não começa
Porque nas ruas despidas de razão
É sempre noite.

Olho em volta sem olhar para nada
Tenho os sentimentos pendurados ao peito
Como medalhas que não mereci
E me deram na guerra por declarar
Na qual não lutei
A não ser todos os dias da minha vida
A todas as horas
Sem descanso.

Um gigante de pedra desce a rua sem razão
E pergunta-me as horas
Eu respondo que não sei de que me fala
E peço-lhe misericórdia de joelhos
Antes de acordar estendido no passeio molhado
Da estrada de éter que percorre
Aos zigue-zagues embriagados de sentir
As ruas sem razão.

Fujo para longe para não sair do sítio
Percorro para trás um caminho trilhado
Com pedras e espinhos que leva
A lado nenhum
Nas ruas sem razão
Não se vai a lado nenhum
Só se fica lá
Com os sentimentos pendurados ao pescoço
À espera que caiam duma vez
Para não ter de se ficar curvado com o seu peso
Até tocar com o nariz nos joelhos.

Liberdade duma vez
Para quê, mesmo?
Ah, pois, que interessa?
Venha a noite moribunda colher os frutos podres
Da razão asfixiante –
Não quero saber

Na noite fracturada gemem as consortes nupciais
Nos passeios desertos milhares de desperdícios acotovelam-se
No meu peito ferido infinitos sentimentos me queimam
E me condenam ao degredo ignóbil
De deambular perdido e sem sentido
Pelas ruas desprovidas de razão
Para sempre...

...ou enquanto os deuses se divertirem...

Contagens fartas

Foste tu, Infância, que fizeste de mim um menino?
Foste tu que me lançaste perdido no mundo
Do quero fingir que faço de conta
Que é a brincar que imagino?
Foste tu que me puseste a querer ser
O que queria ser quando já não fosse menino?
Foste tu que me fizeste pensar
Que ia ser o que quer que fosse que eu ia ser?

Traidora...

Porque acordo eu então, longe de ti, Infância
A querer ainda ser o que não sou ainda,
A sonhar para fora o que vivo para dentro,
A imaginar lá longe, no porvir,
Que vou ser o que ainda vou ser?

Mentirosa...

Foste-te embora
Deixaste-me entregue nos braços crus da realidade
No abraço frio da existência
E não me deixaste ser o que eu seria lá longe, no porvir
Mas o porvir chegou e eu não sou o que seria
Eu não sou o que fingi que fazia de conta
Que brincava que imaginava que seria

Foste embora...

E deixaste-me órfão de ti
Preso nas tuas sobras...


João Tavares

Poesia

Ecmnésia e Vertigem

O cansaço capitulou os nossos desejos,
O reflexo do sonho errando nas esquinas,
A solidão do arauto do mundo.

Fora destes versos,
Quem revela a máscara ao sorriso?
Quem traça as pontes aos viajantes
Sem destino?


Reis Neutel

Ensaio

SEBASTIANISMO E TEMPO

Passado e Saudade

No dia 20 de Janeiro de 1554, dia de S. Sebastião, as procissões e orações pelo nascimento do herdeiro do reino de Portugal multiplicavam-se em todo o país, particularmente em Lisboa. Sampaio Bruno, no Encoberto, recorrendo ao testemunho de Frei Bernardo da Cruz, adita os motivos da expectativa lusitana: o desassossego do povo português diante da ameaça castelhana no que à sucessão ao trono concernia. D. Sebastião nasce entre presságios e ânsias nacionais de independência; mas não só; diante de um país imerso na crise, ferido no seu orgulho pela perda de praças em África, incluso num novo contexto económico como no-lo adianta Francisco Sales Loureiro em D. Sebastião e Alcácer Quibir, ao príncipe afluíam todas as aspirações e esperanças lusitanas. Não é pois por mero acaso que António Quadros avança com a ideia de um Sebastianismo anterior ao próprio D. Sebastião, um movimento nacional reflectido não apenas no ânimo do povo mas similarmente no pensamento das elites:
«… o Bandarra teria morrido, segundo tudo o indica, no ano de 1545, isto é, nove anos antes do nascimento de D. Sebastião. Mas em algumas das suas trovas surge profetizada a vinda de um soberano, de um Encoberto, qual aquele que é sonhado depois de Alcácer Quibir, o regenerador messiânico de um Portugal não apenas restaurado na sua glória, mas cabeça desse império iluminado de cristandade, de verdade e de paz, que seria o Quinto Império (…) Eis porque D. Sebastião foi o Desejado. O povo, a aristocracia, a elite intelectual e uma boa parte do clero aspiravam ao reencontro político e cultural de Portugal consigo próprio. O jovem príncipe foi investido de toda uma carga de saudade, de esperança e de sonho.»
Em D. Sebastião já Camões antevira a
Maravilha fatal da nossa idade,
Dada ao mundo por Deus, que todo o mande,
Para do mundo a Deus dar parte grande.
antecipando o Sebastianismo e predizendo os caminhos por onde haviam de ser trilhadas as esperanças nacionais. Na génese do Sebastianismo está já presente a síntese de uma saudade que anela um futuro; uma privação, uma carência, uma fractura que evoca a esperança e a fé, depositadas, no caso, num Príncipe Salvador, em absoluto entendido como o Desejado. No indivíduo se projecta o colectivo, num homem se preanunciam os desejos do Povo Português. Para Sampaio Bruno, o sebastianismo coincide com o filosofismo na medida em que o mito sebastianista não é D. Sebastião, nem sequer o Português, mas o Homem expressando a ânsia de ascender do erro para a verdade, o Homem purgando os males pelo desejo da Salvação colectiva.
Esta ascensão do erro para a verdade cumprir-se-á sempre no futuro, isto é, restituirá o princípio originário do Paraíso Perdido, da Infância do Homem e da Idade do Ouro que o português pressente, pela saudade, ter vivido e, de qualquer modo, ter igualmente perdido. «O Messias assume – num registo superior, evidentemente, o papel escatológico do Rei-Deus ou do Rei-representante da divindade na Terra, cuja missão fundamental era a de regenerar periodicamente toda a Natureza» . E porque o mito aporta sempre aos arquétipos, indispensável seria que a Vitória futura do Rei fosse preanunciada entre o sofrimento e a desgraça, rememorando o martírio de Cristo, coroa das esperanças portuguesas projectada num «illo tempore futuro e messiânico . Por isso D. Sebastião cai em Alcácer-Quibir, por isso D. Sebastião regressa numa manhã de nevoeiro. Regresso que se não cumpre nunca mas que não cessa de ser anunciado. A figura de D. Sebastião assoma como o enviado do povo português, como a sua “síntese individual” no dizer de Pascoais, que acrescenta: “há momentos em que um só Homem é um povo: Camões” . D. Sebastião reúne as aspirações antigas e sintetiza as esperanças futuras.
Mircea Eliade chama a atenção para o facto de o Messianismo abolir a História; isto é, assim que o Messias cumpre a Salvação, a História deixa de existir. O surgimento do Messias e o cumprimento das Profecias realizam as mais altas esperanças. No caso do Sebastianismo, a transmutação do mito sugere uma outra via que anula o paradoxo, particularmente através da teoria da Metempsicose sugerida por Fernando Pessoa e que consuma a ideia de incompletude do Mito, essencial, não para a sua perpetuidade mas para a sua própria essência enquanto movimento filosófico fundamentado no paradoxo entre a angústia e a esperança. Segundo o poeta de Orpheu, D. Sebastião ressurgiria na História assim que alguém evocasse em si a forma do espírito do Desejado. Por isso D. Sebastião poderia regressar indefinidamente e sob várias formas, pois assim que alguém concebesse algo que rememorasse a substância e matriz espiritual de D. Sebastião, o regresso do Encoberto estaria consumado. Assim, Fernando Pessoa sugere alguns nomes como possíveis regressos do Encoberto tais os do Marquês de Pombal, Sidónio Pais ou o próprio Fernando Pessoa. Estamos não só diante de uma regeneração periódica do tempo mas também sob a premência de uma incompletude indispensável ao traço ontológico do mito. Adianta Fernando Pessoa; «A alma é imortal e, se desaparece, torna a aparecer onde é evocada através da sua forma. Assim, morto D. Sebastião, o corpo, se conseguirmos evocar qualquer coisa em nós que se assemelha à forma do esforço de D. Sebastião, ipso facto o teremos evocado e a alma dela entrará para a forma que evocámos». A teoria da metempsicose encontra semelhanças com a Saudade no sentido da Reminiscência platónica, da evocação de uma forma espiritual, de uma rememoração impessoal e inobjectivável – tal o Sebastianismo invoca, pelo Passado e Futuro, o paraíso perdido, a reminiscência de uma infância ideal que há-de regressar simbolicamente pela coroa desse Quinto Império que é D. Sebastião.
Esta teoria reveste-se de uma importância sem par na nova abordagem do Sebastianismo, pois aproxima o mito a uma filosofia inobjectivável, cujo elemento real se não encontra mas se prefigura numa forma impalpável. Meditando nas seguintes palavras de Mircea Eliade: «Executados pelo homem, todo o ritual ou toda a acção dotada de sentido repetem um arquétipo mítico (…) A repetição implica a abolição do tempo profano e a projecção do homem num tempo mágico-religioso que nada tem que ver com a duração propriamente dita, mas constitui este “eterno presente” do tempo mítico» pode concluir-se da indeterminação do objecto do mito Sebastianista. Esta indeterminação respeita, em última análise, a mesma ausência de objecto que Ramon Piñero anteviu na Saudade, caracterizando-a como um puro sentir desligado do pensamento e da vontade. Não há estranhamento neste remate se concluirmos uma conformidade da vivência Sebástica – confluindo em si a Saudade e a questão temporal - com o existencialismo, mormente na importância da angústia. O pensador galego Celestino de la Vega entendeu que «la saudade es un sentimiento sin objecto, lo mismo que la angustia es un estado de anima sin objecto» . A angústia não cede a coisificação. O Ser, experenciando a finitude, é ser de insatisfação. Em Kierkegaard, a angústia como faculdade humana de captação de sentido, aponta para uma transcendência que não está, contudo, totalmente fora do Homem. Se o momento histórico da morte do Rei aponta uma efectivação material traumática, todo o movimento em torno do seu regresso traduz a complexidade do mito, o paradoxo entre a angústia e a esperança. De alguma forma, a Saudade participa deste mesmo paradoxo, reportando-se às antinomias nacionais, não apenas a uma indeterminação mas também a um apego à vida e à natureza envolvente, a uma «expectação do futuro, com angústia e esperança» .
O momento do paradoxo não é, contudo, claro. Se a abolição do tempo profano sugere a supressão do facto, o paradoxo é inseparável de todos os momentos do tempo mítico. Quer isto dizer que a indeterminação/determinação do mito sugere uma ultrapassagem do vivido que espirala entre a lembrança e a esperança, entre a acção e a sublimação da existência. Se o mito apela à incompletude, o seu ponto de partida sugere sempre um exemplo. O momento histórico é o arquétipo, o modelo das esperanças futuras. Pela Metempsicose regressa periodicamente a forma do Desejado, um regresso que se dá na sua «realidade e presença concreta, posto que não fisicamente pessoal» , um regresso que fecha um ciclo para logo abrir outro.
O que é evocado é o exemplo, o momento a que se aspira é o da Infância do Homem, a Idade do Ouro e a antiga coexistência do humano com o divino. A reminiscência dessa infância, encontramo-la na Saudade, sentimento-síntese, no dizer de Teixeira de Pascoais, que ecoa nas quadras populares:
De Qualquer forma que existas
És a mesma Divindade;
Ventura quando te vejo,
Se não te vejo, Saudade.
e na poesia de Camões:
… a Saudade
Daquela santa cidade
Donde estalma descendeu
Para Pascoais, a Saudade «é já a sombra do Encoberto amanhecida, dissipando o nevoeiro da legendária manhã» . Significa isto que a Saudade não se mantém expectante mas deriva do Idealismo do povo português e da sua liberdade relativamente à Matéria, animada pela Lembrança e pela Esperança. O que importa reter na Saudade não é o seu exclusivismo no temperamento português. Aliás, Carolina Michäelis rejeita a ideia de que outros povos não conheçam esse sentimento. O que é relevante é a sua ascendência na psicologia portuguesa, levando-a a distinguir-se, indubitavelmente, de outros modos de pensar. Desta particularidade resulta a originalidade da literatura portuguesa.
O Sebastianismo, anulando o Tempo e a História no sentido profano, é igualmente interrogação sobre a memória, pois apontando o significado profundo da Saudade, reverte a recordação e o vão desejo em afirmação ontológica do destino do Homem. Inscrevendo o Passado, o acontecimento traumático reverbera no sonho do porvir. Pelo regresso D. Sebastião se afirma como figura simbólica do Quinto Império, rememorando a Idade do Ouro e cumprindo a paixão donde «Vêm-me saudades de ter sido Deus» . Entretanto, há um «…movimento contínuo, já que se não sabe quando começa ou quando acaba. Todos os pontos são começo e fim – o que transcendentaliza cada momento existencial» .
A Saudade é ditada pela sub estrutura psicológica do português, afeito ao sentimento saudoso mas também voltado para a acção e para o movimento prospectivo, encontrando no passado não um momento de paralisação mas uma força para tomar impulso. Não se trata de uma criação nascida da imaginação de predestinados mas da alma de um povo, fazendo menção da sua poética e transcendência. A aspiração ao futuro, não nascendo de geração espontânea, alicerça-se no passado. O Sebastianismo é a Saudade neste sentido, pois se aparece como «prenhe de tempo e de futuro, é justamente porque nele surge uma daquelas imagens que, profundamente ligadas ao que já foi, aparece como suscitadora de crença e de fé na possibilidade de realizar-se o mais alto e o mais difícil a que o homem aspira» . Daqui resulta necessariamente que «…a saudade é uma tradição, mas uma tradição sem fórmulas que a fixem e transmitam, uma tradição sempre difícil de surpreender e de reconstituir» . Não espanta pois que o espírito português deambule entre os momentos de tensão e fractura e os de uma euforia e anseio de acção verdadeiramente ímpares tais os que edificaram a epopeia dos Descobrimentos. Em última análise, o indeterminado sugere a figura paradigmática do funâmbulo de Nietzsche ou mormente da Serpente, tão marcante na cultura simbólica portuguesa, indicando um movimento em espiral. A Serpente «apresenta-se como símbolo do conhecimento global – a serpente enrolada, a boca tocando o rabo denomina simbolicamente o universo do saber, a unidade do ser» . Não há, no Sebastianismo como na Serpente, movimento parcial, pois «Ela (a serpente) liga os contrários verdadeiros, porque ao passo que os caminhos do mundo são, ou da direita ou da esquerda, ou do meio, ela segue um caminho que passa por todos e não é nenhum.»



Leonel Ferreira

Poesia

curvo

O nosso amar, amor,
tem do lúcido das estrelas o estertor
e do marulhar límpido um rio chão


Ruy


ode-te (extracto)

também eu já fui bruto, estúpido, indecente
mudei de direcção, tantas vezes sem água vai,
sem mínima indicação, sem um sinal.
também eu pensei já em prosseguir.
entreti-me no insistir. sentei-me a muro e caí.


também eu nunca foi assim. também tu, sempre mais.


Ruy


Deu-se um sucessivo excesso e
deus num degrau senta-se cingido,
e espera-me das mãos dos bolsos
porque sei que é impossível,
- convexo assobio
sem me acreditar
potável


Ruy


copio as mãos dos mortos.
sei que um morto é algo obtuso, não me pejo em o afirmar.
mas sem dúvida que os perturbo, aos bichos no seu larvar.
tenho as minhas dúvidas, mas lavo as mãos ao me deitar.


Ruy

Citação

“A felicidade, como o ouro, precisa de ser extraída do minério do trabalho quotidiano.”

Merle Shain (1935-1989)

Domingo, Junho 10, 2007

NÚMERO 8

EDITOR 8IT0

“The man who writes about himself and his own time is the only man who writes about all people and all time.”

George Bernard Shaw (1856 - 1950)


Será o escritor uma espécie de predestinado, de um super-homem?
A marcha do tempo é inevitável. O mundo cambia em menos de nada. Somos vigiados pelas câmaras escuras dos nossos governos. Acabou-se há muito a privacidade. Sim, ou talvez não. Num exíguo sótão, o autor desafia o exterior, debate-se com os labirínticos contornos dos seus pensamentos, entorna tinta sobre eles, manipula-os até lhe dar a cor certa. Palavras são pensamentos prévios, sem pensamentos nunca o terem deixado de ser.
Mas tudo parece resvalar na inércia do mundo de olhares vagos. E ele, o centro do mundo, que bem conhece, o farol de turbilhões de pensamentos — pensa se valerá mesmo a pena escrevinhar signos por signos.
O acto de escrita surge da necessidade de uma auto - comiseração do ser-autor. A escrita funde-se nos recônditos dos seus desejos e aversões. Medita com a palma da razão. Porém, o silêncio dá lugar à dor. O peso do mundo abate-se sobre ele. Não há lugar ao regresso a casa, pois não há casa que o acolha mais. Resta-lhe um caminho. Continuar. Ele será a chave da nova criação. Deve, então, continuar, apesar da dor e do cansaço. Só assim, a obra nascerá e com ela a terapia no seu consolo.

Reis Neutel

CITAÇÃO I

“Cada um de nós faria mais coisas, se as julgasse menos impossíveis.”

(La Rochefoucauld)

ENSAIO: SEBASTIANISMO E TEMPO


Introdução

A reflexão sobre o mito não pode fazer-se sem a consciência de que a sua profundidade nos impede um termo. A procura de fundamentação do Sebastianismo afigura-se-nos, pois, impraticável, não apenas porque «o mito precede o discurso racional e sábio»1 mas mormente porque o corpo da crença no absurdo e sua sequente manifestação temporal no passado, presente, futuro e, particularmente, no porvir, nos toldam qualquer tentativa de explicação no sentido moderno, isto é, «…uma boa parte dos mitos (…) revela uma estrutura do real inacessível à apreensão empírico-racionalista»2. Daqui não resulta qualquer embargo para uma meditação sobre o fundo messiânico e histórico do sebastianismo e a sua incontestável influência e até ascendência na cultura portuguesa, pois parece-nos que «a originária sabedoria no mito semelhado ou figurado, precede a cultura»3. O que se pretende que fique mais ou menos claro é a incompletude de qualquer «teorização», «explicitação», ou «explicação» do domínio sebástico.

A estranheza do objecto não pode, entanto, desimpedir o interesse do investigador, eis o pressuposto da fragilidade daquele que se dedica ao estudo do Mito Sebastianista. Em última análise, o texto sobre o Sebastianismo participa da complexificação do mito, alimentando-o, contribuindo - por vezes de forma decisiva - para a sua própria incompletude. Assim o têm ditado a filosofia e a literatura construída em torno da figura do Desejado.

Este pequeno texto tentará erigir um ponto de partida para a indispensabilidade desta incompletude, firmada essencialmente no aspecto temporal do mito e no pressuposto de que com a fractura e tragédia da História de Portugal se abandona um Império material em proveito de um Império que, consciente ou involuntariamente, se «quis» da Existência e do paradoxo entre o Desespero e a Esperança, pois o mito «rememora a separação entre Deus e o Homem, a queda, a dor e a morte, preanuncia o restabelecimento da harmoniosa unidade»4. O Sebastianismo consubstancia, sob a forma histórica, religiosa, estética e filosófica, o sofrimento do povo português. E este paradoxo é decisivo para a compreensão do Sebastianismo, pois é quando aparentemente o Homem perde a esperança, que se renova a fé no absurdo. Não é pois apenas o passado o que está em causa no Mito Sebastianista, mas, e de um modo decisivo, o futuro, porque deste fenómeno esquivo depende «a compreensão do nosso presente, assim como a legitimidade ou a inanidade das esperanças postas no porvir de todos nós»5.

Nos momentos traumáticos, o Sebastianismo renova forças. Preanuncia-se entre a Apagada e vil tristeza de um Portugal estrangeirado e fragilizado pelos fanatismos e pelas intolerâncias inquisitórias dos tempos de D. João III, emana do desastre de Alcácer-Quibir, e regenera-se durante o domínio Filipino. «O Sebastianismo, fruto da Saudade activada, se nasceu à volta da frágil hipótese do regresso de um rei desaparecido sem sucessão, tornou-se o nervo da resistência ao domínio castelhano (…) um verdadeiro mito nacional, o que justifica tomá-lo por nome próprio de um modo de resistência colectiva»6.

Neste ensaio se apresentará um caminho que conduza à possibilidade de o Mito Sebastianista respeitar, não apenas um momento profano ou mítico mas, de um modo decisivo, a tradição espiritual portuguesa relativamente às questões temporais. E manifestando o mito os traços essenciais da cultura portuguesa, concluir-se-á a sua indeterminação, o seu não-objecto, a sua incompletude e renúncia a sistematizar-se, não apenas indiciada pelo seu carácter mitogénico mas principalmente pela sua comunhão com uma tradição cultural, que encontra eco – contemporaneamente, julgámo-lo – em parte do corpo teórico do Existencialismo. Entretanto, apesar de se apontar determinados momentos e correntes filosóficas às categorias que julgamos ser sub-estruturas do Sebastianismo tais a Saudade, o Desespero e a Fé, a sua complexidade impede qualquer tentativa de adequá-lo integral e radicalmente a movimentos e correntes filosóficas.

No Mito Sebastianista, Passado, Presente e Futuro não se estratificam, não são susceptíveis de fixação. A irracionalidade do mito possibilita o movimento gracioso da dança e da poesia, o deambular e o espiralar da Serpente e daí a sua não objectivação, o seu puro indeterminado. Não significa isto que o Sebastianismo se não possa reverter em acção e em prospectiva vontade. O que se pretende fazer notar é que as categorias do mito não se adequam nem à necessidade nem à contingência, não dependem de uma substanciação ou fundamentação, não se resumem a um passo decisivo e revelador. O Sebastianismo “construiu-se” pela Fé, pelo Desespero, pela Esperança, pela Angústia, por tudo isto e por nada. O Mito, disse-o Fernando Pessoa, é o “nada que é tudo”. Por isso o Sebastianismo influiu de modo decisivo na filosofia e na poesia portuguesa. A figura do Desejado despertou a atenção de todos os grandes nomes da cultura nacional, tais os de Luís de Camões, António Vieira, Almeida Garrett, Fernando Pessoa, José Marinho, Sampaio Bruno, António Quadros, Francisco da Cunha Leão, António Nobre, Afonso Lopes Vieira, Teixeira de Pascoais, Jorge de Sena, entre muitos outros poetas e filósofos que, sebastianistas ou anti-sebastianistas, se dedicaram à compreensão de uma verdadeira religião nacional na qual «se juntaram, em partes iguais o messianismo hebraico-português, o cristianismo messiânico-encarnacionista e os velhos arcanos céltico-bretões, como também, e cumulativamente, as aspirações nacionais e populares, quer a um nível onírico quer a um nível sócio-político»7.

O Sebastianismo foi, para alguns, o motivo das esperanças nacionais, para outros a figurativa estagnação da vontade lusitana. De outro modo não poderia ser, e este é o passo primeiro para a compreensão do mito, isto é, o comum acordo entre a vontade de compreensão e a inelutável ânsia de indeterminação inseparável da condição humana. E se o Ser se encarregou da essência do Pensar, tal o afirmou Martin Heidegger, é compreensível que o Sebastianismo, tendo mais a ver com a Existência no sentido em que respeita à indeterminação, ao assombro e à perplexidade, tenha imperado, de modo tão decisivo, na poesia portuguesa, pois «A linguagem é a casa do ser. Nesta habitação mora o homem. Os pensadores e os poetas são os guardas desta habitação. A guarda que exercem é o consumar a manifestação do ser, na medida em que a levam à linguagem e nela a conservam»8. O Sebastianismo afirmou-se não apenas através de categorias existenciais mas aportou ao próprio Ser, no sentido em que se desdobrou, pela filosofia e poesia, ao Pensar Português e ele próprio se constituiu como o reservatório, por excelência, da essência da nossa espiritualidade.

O Sebastianismo não rejeita o Nada, mas tal não justifica que se gere do Nada. Ancorando-se no Passado, vivendo-se no Presente e anelando ao Futuro, o Sebastianismo espirala a Realidade. Aparentemente não se cumpriu ainda o regresso do Desejado. A cada negação, a cada opressão, o mito reforça-se. A figura do Desejado, a Ilha Encoberta, alimenta-se da negação e da ausência, edificando-se em paradoxos e espiralando entre antinomias. Não se tratará, certamente, de eternidade, na medida em que tudo finda, mas pretender-se-á demonstrar que não há escatologia senão um fim para além dum fim.


Leonel Ferreira

POESIA: D. SEBASTIÃO

INVERSÕES DO INCÓGNITO

Alma-Império de mim partiste
Como as lágrimas dos que me sonharam
Cinzas que
Retomam sua sombra
como último destino

Sopro veloz e brando retoma
Agora
O teu fluxo
E dilacera em mim
A tua sentença infernal.


Filipe Monval

CITAÇÃO II


“O prazer é frágil como uma gota de orvalho, morre enquanto ri.”

(R. Tagore)

CONTO

ANITA

(Atenção: este excerto não é indicado aos adoradores do Noddy e do Bob o Construtor)


Episódio 2º - Uma surpresa nunca vem só


— Que seca! — pensava Ricardo, enquanto olhava à sua volta. O disco-bar estava às moscas. A música indiana e o ambiente retro anos oitenta fustigavam-lhe os sentidos. Eram onze horas da noite. Onze horas, apenas! Parecia-lhe ter passado tanto tempo.
— Ei Ricardo, estamos há quinze minutos aqui e ainda não falaste de ti. O Miguel disse-me que trabalhas numa empresa de contabilidade.
Ricardo fitou a rapariga, que se encontrava sentada ao seu lado, mas com algum receio. Parecia custar-lhe olhá-la olhos nos olhos.
— Como é feia — pensava — e aquele buço. Qual buço? Que bigodaça me manda esta.
— Ricardo, Ricardo estás cá?
— Sim, desculpa Miguel. Estava distraído. Cansado. Marta perguntavas-me...
— Oh, o que fazes ao certo?
— Trabalho burocrático. De tudo um pouco — rematou.
— Ah! E isso é duro?
— Sim, muito — respondeu inseguro.
Nesse momento, Miguel levanta-se e toca no ombro do amigo.
— Anda vamos buscar umas bebidas para as nossas convidadas. Só um momento meninas. Vamos trazer-vos duas bebidas bem boas. Anda daí, rapaz — disse novamente ao amigo.
Como que salvo no último segundo de morrer num submarino perdido no fundo do mar, assim se sentia Ricardo. Mais no fundo não podia bater. A sua expressão mudou, era agora alívio que reflectia. Chegaram ao balcão em três ou quatro passos. Passos lentos, mas largos. Miguel fitou o outro friamente, perscrutando-lhe o que lhe ia na alma. Seria o peso da idade? Seria cansaço?
— Conta-me, o que se está a passar? Tens algum problema?
— Não, nada.
— Eu conheço-te, pá. E sei que se passa alguma coisa.
Ricardo observou como os olhos verdes do amigo cintilavam.
— Já sei. Daqui a três dias fazes anos. Sentes-te mais velho, sentes-te frustrado, mas...
— ... estou cansado, rapaz.
— Vá lá conta-me a verdade. As gémeas são umas brasas e tu dizes-me que estás cansado. Vamos divertir-nos. O ambiente é porreiro, a música é...
— ... deprimente?
— Hã? Estás de gozo?
— Nã, esquece.
— Não acredito. Saíste-me cá um esquisito. Para ti nunca está nada bem.
— Vamos lá pedir as bebidas, estas pago-as eu, ok?
— Ei meu, relaxa. Vai tudo correr bem. Aproveita o momento. Vamos fazer uma grande festa com as gémeas na próxima quinta. Que dizes, pá? Para festejarmos, vá lá.
— Não sei. Não estou nos meus dias.
— Não gostas mesmo de nada. O que queres afinal da vida? Este sítio é especial, a Marta é especial e tu aqui a lamentar-te. Olha bem para aquela miúda.
Ricardo moveu desconfortavelmente os olhos na direcção da mesa das raparigas. A Carla, a acompanhante de Ricardo era vistosa. Tinha os olhos bonitos e expressivos, talvez verdes, talvez azuis, a pele lustrosa e alva, uma pequena boca fina mas bem demarcada, umas sardas pequeninas, quase imperceptíveis. Contudo, encontrava mais encanto no cabelo ruivo da rapariga. Desde tenra idade tinha manifestado uma certa inclinação para gostar de ruivas. Porém, havia a sombra da irmã gémea. Sempre a sombra da irmã a pairar por perto, como que eclipsando aquele deslumbramento. Mas deviam ser com certeza gémeas falsas. A Carla, aaaaaaaahhhh, como lhe causava repúdio observar a moça. Era igual à irmã, ruiva, sardenta, olhar meloso, e até aqui tudo bem, mas o bigode estragava tudo. Talvez se não fosse ruiva, se não tivesse a pele tão branca... não desse tanto nas vistas. Mas que caramba, um homem com um certo status tem de ter cuidado com as suas companhias! Lamentou-se da sua falta de sorte.
— Mas o que queres que te diga. Este não é meu sítio. Sinto-me deslocado. O ambiente é... engraçado, mas este não é o meu sítio — voltou a ripostar com Miguel.
— O quê? Agora é... este “não é o meu sítio” — Miguel franziu a testa, cruzou os braços e com um ar sábio suspirou —. O menino quer violinos, vinho francês, pratos de loiça inglesa, pessoas de smoking, Oh très Charmant.
— Esquece, pá. Tu não entendes.
— Claro que entendo. Olha para mim, — puxou-o pelo braço com força —, sabes qual é o teu problema? Sabes? Tens medo de ser feliz, — o amigo de boca aberta olha-o estupefacto —, receias procurar a felicidade. Essa é que é essa. Tens mais a perder do que a ganhar se não arriscares a tua felicidade.
Ricardo pediu duas bebidas, deixando o seu amigo imerso nos seus pensamentos. Miguel durante largos segundos não ousou abrir a boca. Este gajo droga-se — pensou.
— Se queres ir ao teatro ou à ópera, força. Não contes mais comigo. — Bebeu um gole e retirou-se da beira do amigo, rumando em direcção da sua gémea.
Ricardo ficou imóvel, petrificado. Ficou a remoer as palavras do amigo. Aquele mesmo amigo vago e fútil. Nunca o seu amigo em mais de trinta anos de amizade — conhecia-o desde os quatro anos — tinha tido um momento tão iluminado. O que lhe sucedera? Seria a madures, finalmente? — pensou —. Aquele rapaz estava a tornar-se num homem. Procurar a felicidade, era isso. Procurar ser feliz, é o melhor conselho que lhe podiam ter dado e logo vindo da pessoa menos propensa para tal. Voltou-se para a sua gémea e encontrou logo o buço da rapariga.
— Não pode ser, devo estar com alucinações — pensou — não é possível que o bigode seja visível a três metros de distância e com pouca luz. Vou pedir uma bebida mais forte. Um, um não dois shots. E haverá sempre um terceiro à mão — e sorriu. Voltou-se para o barman e pediu dois shots bem fortes. Bebeu-os de penálti, um após o outro. Abanou a cabeça, sentiu como o veneno mergulhava pelas suas entranhas. Imediatamente, ficou enjoado. Respirou fundo, deu duas ou três palmadas em cada face, bateu com os pés no chão e em seguida, uivou desalmadamente. Todo este espectáculo decorria mesmo em frente das gémeas e de Miguel, que permanecia imóvel, medindo cada um dos enérgicos e bizarros gestos do amigo. Teria ele perdido a razão? Nunca o tinha visto beber daquela maneira, muito menos comportar-se como um louco, — Credo! Fiz merda, — magicou para consigo — oh, mãezinha o que fui fazer? — Miguel pôs as mãos sobre a testa, tapando os olhos, sentiu-se perturbado, embaraçado, escandalizado, o que iriam pensar as raparigas? Ousou, nervosamente, alvejar de esguelha as reacções das gémeas.
Mas as gémeas, sobretudo a Marta, deliciavam-se com o desenrolar frenético dos acontecimentos. Agora aplaudiam de pé a gesta do herói sobre o palco, de peito bem aberto pedindo um terceiro shot “El Matador” e de seguida um quarto e pede com valentia o quinto. Com estrondo o copo do shot caí, caprichosamente, ao chão e parte-se em mil e um nacos (PRSHHHHHHHHHHHHHHHHiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiimmmmmmmmmmmm).
— Ups!
Ricardo muito vermelho, mas agora o vermelho da rectidão moral estabelecido na sua face, pois parecia ter recuperado o tino, dirige-se com inefável subserviência e educação ao barman, pedindo mil e uma desculpas. O homem riu-se, o que chateou ainda mais Ricardo. Tinha que resolver rapidamente o imbróglio.
— Bem, dois martinis brancos duplos, se faz favor.
Pegou nos dois copos e devagarinho, para não cair, pois sentia as pernas um pouco bambas, rumou de volta à mesa. Sentia-se ainda mais desconfortável. Que mísero espectáculo tinha proporcionado e ainda por cima a Marta tinha apreciado. Deu as duas bebidas às raparigas e sentou-se sem abrir a boca. O que fazer a seguir. Deveria despachar a rapariga? Não era seu hábito ser descortês. Tinha que pensar em algo, rapidamente. Como sobreviver àquela noite de pesadelo? Fitou Miguel. Este lívido também não ousava abrir a boca. Foram as gémeas que começaram a puxar conversa, manifestando júbilo pela espantoso desempenho do trintão. Ambas falaram pelos dois durante infindáveis horas.
As raparigas além de falarem demasiado, bebiam como bestas. O charme de Carla rapidamente se esmoreceu para Ricardo, mas não para Miguel, que aos poucos e poucos se voltou a animar e começou a beijar o pescoço da rapariga.
Pelas três e meia da manhã, finalmente a Marta começou a dar sinais de fraqueza. Já não completava as frases, ria-se sempre a meio e a irmã ajudava à festa, com gargalhadas monumentais e roncos inumanos, — deplorável a todos os títulos — pensava Ricardo.
Mas a irmã num, agora, raro momento de lucidez levantou o copo de gin tónico, o qual fitou especada e começou a falar de uma estranha alergia de que padecia e do tratamento médico que efectuava diariamente e, principalmente dos seus inestéticos efeitos secundários. Nesse mesmo instante, voltou-se para Ricardo.
— Ricardo, amor! Sabes que eu... se calhar ainda não notaste... tenho alguns pelitos... aqui e acolá — e pousou o dedo indicador sobre o bigode e sobre as faces, junto aos ouvidos — estás a ver? É horrível, não é?
— Sim — balbuciou Ricardo — mas, não se nota, pois não? — atalhou desviando o olhar rapidamente na direcção de Miguel.
Miguel num movimento torpe e inusitado levanta a cabeça e coloca-a mesmo em frente da pobre moça.
— Ei, não posso acreditar. É horroroso. Que pêlos enormes. Que tragédia singular!
Ricardo levou mão à cabeça. O seu amigo estava completamente grogue.
— Não ligues. Ele está sempre a gozar.
— Não estou nada, meu. Tu és mutante? Só podes ser mutante.
Marta começou a chorar, enquanto a irmã a tentava consolar. Alguns momentos depois, a rapariga apavorada e embaraçada pegou na sua carteira à tira colo e saiu a correr. Carla, seguiu-a logo de imediato, sem se despedir dos dois amigos.
— E eu a pensar que estavas no caminho certo.
— Hã?
— És um idiota. Acabou a bebida.
— Hã? O que eu disse de mal?
— Anda pega no casaco. Vou levar-te a casa.
— Eu não preciso de ti.
— Fica aqui vou pagar a conta.
A noite finalmente acabara, sem contudo findar da melhor maneira. Ao chegar ao seu pequeno apartamento, Ricardo estendeu-se na cama e adormeceu.

* * *

O aniversário de Ricardo chegara. Miguel tinha uma surpresa para ele. Uma semana antes, tinham visto numa papelaria um livro de comics da série favorita de ambos, o Super X. Ricardo parecia ter-se entusiasmado, chegando mesmo a comprar o livro, segundo ele para “recordar os bons tempos de adolescência”. O Super X era o melhor de todos os super-heróis. Carismático, versátil, forte, justo e galã. As mulheres não se lhe resistiam. Um exemplo perfeito de virilidade. Fazia tudo sem esforço e não tinha adversários à altura, bem a não ser o malévolo Dr. Ezquizo. Mas o Super X era um espectáculo, uma lenda. Agora Miguel lembrara-se de estampar numa t-shirt o símbolo mítico do herói e oferecer esta ao amigo.
Decidiram almoçar juntos nesse dia. Miguel passou um pouco mais cedo do que combinado pela empresa de Ricardo. Enquanto esperava, espiou as actividades de uma das funcionárias. Ora se debruçava para arranjar as meias, o que fazia rejubilar Miguel, ora levava as mãos aos fartos cabelos negros para os pentear, duma forma que ele considerou muito sexy.
— Deixa a Margarida em paz. Ela não é o para o teu bico.
— Ah, nem te vi. Como que não é para o meu bico?
— Nem para o meu. Já tentei. Vamos embora.
— O que te fez.
— Deu-me com os pés.
— Vamos passar por ela, por favor,.
— Está bem.
Ao passarem pela mulher de fartos cabelos negros e de longas pernas sexys, Ricardo cumprimentou-a. A rapariga sorriu.
— Olá Ricardo.
— Vou almoçar. Xau.
— Xau, até logo. Bom almoço.
— Obrigado, — responderam os dois homens em coro.
Mal se voltaram, deram de caras com Anita e uma amiga desta, que se encontravam à espera do elevador. Ricardo corou. Miguel abriu a boca e nada disse. Foi a rapariga morena que acompanhava Anita que falou:
— Vão para baixo?
— Com certeza! — respondeu prontamente Miguel.
Ricardo observou como Anita nem sequer os olhou. A rapariga parecia ignorá-los. Manteve uma atitude distante e altiva durante o percurso de elevador. Emanava uma fragrância suave. Ricardo sentiu-se nervoso. Ela e amiga saíram sem dizer nada, em passo rápido. Ricardo seguiu-as com o olhar. Ele e Miguel estavam dois passos atrás. Anita estacou à saída do edifício, procurando alguma coisa na carteira, enquanto a amiga abriu a porta. Passados alguns instantes, tirou o telemóvel da carteira. Nesse mesmo momento, Ricardo chegou à porta, Anita com a mão direita não permitiu que a porta se fechasse. Ricardo encontrou os olhos verdes de Anita. Suavemente ela sorriu-lhe. Ele agradeceu-lhe o gesto.
Durante algum tempo Ricardo, inconscientemente, observou-a, enquanto ela se distanciava na calçada da rua, até que a sua silhueta se dissolveu na malha de figuras anónimas.
— É pena, muita pena. Que tragédia singular.
— Ah?
Miguel pôs a mão no ombro do amigo e abanou a cabeça.
— Que mulheres! Que desperdício — e suspirou fundo.
— Desperdício?
— As duas, nós os dois, que raio de mundo. Vamos lá comer, Ricardo, isto já me deu a volta ao estômago e depois tenho que voltar para o jornal.


* * *

A festa de aniversário começou às sete da tarde. Na minúscula sala de estar de Ricardo, os seus pais e o amigo, Miguel começaram por incentivá-lo a colocar um estúpido barrete do “rato Mickey” e a bufar num apito com toda a força. O aniversariante acedeu a ambos os pedidos, todavia com manifesta hesitação.
Logo após, os pais passaram-lhe para as mãos, com muito cuidado um saquinho transparente, no qual se encontravam dois peixinhos dourados virados ao contrário. Ricardo notou, fazendo deslizar os dedos por uma das extremidades do pequeno saco, como o mesmo estava furado. Fitou os pais por uns segundos na ânsia de obter mais informações sobre a proveniência dos peixinhos, mas percebendo que nada iriam dizer, prontamente agradeceu-lhes a oferta.
Os pais ainda tinham uma outra prenda, um livro intitulado: “Como ser feliz em trinta etapas”. A obra era abundantemente ilustrada, o que segundo o papá Horácio tornava as coisas muito mais fáceis para o seu filho.
Por seu turno, Miguel deu-lhe uma edição especial de um livro bestseller, o “Kamasutra ilustrado para iniciantes”. Miguel conseguiu arrancar, apenas do seu amigo, um ligeiro sorriso cínico e uma promessa de que as coisas não iam ficar por aí. No entanto, a mamã Elvira não enxergando bem o que aquela obra, também ela profusamente ilustrada, debatia, teve o seguinte o comentário para o seu marido:
— Era bom que o nosso menino se arrumasse com alguém, não era Horácio?
O homem, coitado, lá teve de assentar com a cabeça.
Por fim, Miguel apresentou-lhe a última das oferendas. Envolta numa caixa preta, com um laço vermelho por cima, encontrava-se a t-shirt com o mítico símbolo do Super X estampado.
Miguel segredou qualquer coisa ao amigo.
— Não estava à espera. Uma camisola do Super X. Original. Obrigado.
— Vá lá, não sejas tão modesto. Não querias vestir a pele de um garanhão — e riu-se selvaticamente.
Ricardo sorriu, desconfiado. Abriu a camisola e pô-la à sua frente. O estampado era perfeito e de certeza que a camisola lhe assentaria bem.
Ricardo sorriu e cumprimentaram-se.
— Quem sabe se não a levo amanhã para o trabalho.
— Ah, isso é que é falar.
— Estou a mangar, pá.
— E qual era o problema de a levares?
— Bem, preciso de arranjar umas meias com ursinhos e veados a condizer.
— Oh, não sejas infantil.

* * *
O jantar decorreu tranquilamente, somente a monotonia era interrompida pelo sorver da comida da mãezinha e a renite do papá, o que bem vistas as coisas, até não era dizer pouco.
Quase duas horas depois, chegara a hora de cantar os parabéns e soprar as velas. Desta vez, o protagonismo foi entregue, na íntegra, a Miguel. O pobre rapaz depois de ter bebido quase uma garrafa e meio de vinho e uma garrafa inteira de champanhe, não conseguia estar de pé, muito menos cantarolar a música ou mesmo decifrar quem era o aniversariante. Por duas vezes tentou beijar o velho Horácio, à terceira foi impedido resolutamente pelo amigo, que envergonhado, o forçou a manter a compostura.
Antes de apagar as velas, Ricardo observou detalhadamente cada um dos presentes, enquanto cada um dos convivas o puxava para soprar com força.
— Pede um desejo, meu filho.
— Sim, pá. Força!
— Ainda não casaste, oxalá casasses, não é Horácio?
— Sim, sim mulher, pois... — ronronou o pai.
— Isso, casa nova — vociferou de rompante o amigo.
Ricardo olhou apavorado para os parentes e para o seu querido amigo, que já trocava os olhos, os olhos lacrimejantes da mãe, a renite alérgica do pai, os olhos tortos do amigo, as choro da mãezinha, os ranhos do papá, o olhar vidrado e desfocado de Miguel, o pranto da mamã Elvira, os moncos do papá Horácio e todos em coro...
— Sopra, sopra, sopra...
Os olhos trocados do amigo, os ranhos da mãe, o choro do pai... O que Ricardo poderia desejar?
— Sopra, sopra, sopra...
Ricardo olhou para os peixinhos dourados mortos, os dois livros ilustrados e finalmente para a t-shirt com o mítico X. A camisola que o seu herói de juventude vestia, o mesmo herói galã, que tudo resolvia sem esforço e era irresistível para as mulheres.
— Vá, sopra, meu!
— Pede um desejo filho, — gritava a mãe.
— Vamos lá campeão, — bafejava o papá.
— Anda lá caramba. Com toda a pujança.
Mais uma vez Miguel estragava a solenidade do momento. Ricardo fitou-o. Voltou a cara para ver cada um dos presentes e depois os olhos disfuncionais do amigo, que agora soprava no apito, como se não houvesse amanhã, os moncos da mãe e do pai. Como que envolvido por uma estranha força fechou os olhos, dois pensamentos vieram-lhe a ideia, num instante sentiu-se como preso no centro de um imenso vórtice, de onde lhe era permitido contemplar um grande X vermelho e os olhos brilhantes de Anita. Imediatamente, como que saído de um embate violento, soprou com toda força as velas, as trinta e cinco velas num desvelo de super herói.
Bateram as palmas e entoaram novamente os parabéns a você.

*

POESIA: ALÉM DAS PALAVRAS DO MUNDO

Poesia I

ODE SINUSOIDAL


Latente contracção de esponjas amarelecidas

Pelo vento, pelo tempo, pelo sustento

Que me lambe as feridas das mãos

Que eu fiz ao saltar os muros com arame farpado

Do sonho de ser mais alto.

Mórbidas insolações de Inverno em dias de chuva

Arrastam carrascas lembranças do futuro

Que nunca tive nem nunca hei-de saber.

Inútil! És um inútil, sonho!

Serves só para não servir para nada!

Banhas com banhas de cobra as cobras que não se banham!

E não passas de um inútil…

Deita-te ao ar de almofadas em punho

A ver se alguma dispara na direcção errada

De voltar para trás indo seja lá para onde for

Sim, seja lá para onde for,

Que ir para qualquer lado

É sempre ir na direcção errada.

Bandeiras olfactivas de peixe podre

E odorizantes matinais perenes

É disso que se queixa a multidão amordaçada?

Soubesse a multidão que é multidão sequer!

E já não se queixavam de mais nada…

Vai-te embora daqui para fora

Ou fica lá longe do outro lado de ti…

Cortei-me outra vez pela primeira vez

Isto está sempre a acontecer

E já nem sei que bolso hei-de usar para pôr lá dentro

Os dentes partidos que me vão cair

Quando me esmurrarem amanhã de manhã

Ou de madrugada

Ou de noite

Ou de comboio

Ou de bicicleta

Desde que não seja com borboletas da Antártida.

É sempre assim que o mundo se diverte

Atira caixas contra a parede do riso

E espera que os vampiros da saudade

Se vão refastelar a seguir

Completamente imundos e a pingar sangue pelas narinas.

Já percebi…

Estou doido…

Não faz mal, assim também não tenho

De estar sempre à espera que me deixem atravessar

A estrada

Fecho os olhos e a estrada já não existe

Assim, já não tenho de a atravessar.

De resto, podia ser pior…

Se ao menos o sonho não fosse um inútil…

Eu não teria de estar preso nas suas malhas!



João Tavares

Poesia II

O LIVRO SEGUNDO DE JUDITE


Se a palavra mata, Judite,

Eu aqui não exorto a tua imagem

Encontrei há tempos uma mensagem

Que me enrubesceu e deixou triste


É que juro, não sou quem disse

As desolações da minha pobre carta

Antes morto, antes visse

Mefistófeles e o raio que o parta


Nem os versos rimam

Nem o coração se alegra

Diante da frouxa feição que de mim tracei

Não sou a rota e ébria criatura que esbocei

Ante o ciúme louco e a paixão cega


Poeta já fui, passado, antiquário

De promessas vãs e falsos perdões

Pudera um pobre escriturário

Apresentar as suas razões


Já acendi velinhas à Senhora

Mas não sei se a prece adita

Que entre rogos e comparações

Lhe disse que eras a mais bonita


E nos serões de Inverno, só,

Lembro sempre minha fraqueza

Escrevo cartas que não envio

E, num relance, parto a braguesa


Mas eis que bebo do cálice

Dois golos de Porto branco

E logo se me ergue num ápice

A graça de ser franco


Judite, meretrizes já muitas o diabo viu

Mas nenhuma como tu e a puta que te pariu


Leonel Ferreira

Poesia III

SENHORA DA MEMÓRIA


Ajaezada e vencida

Depõe a alma pendões ao vento

Naquele alto morro toma acento

A rústica, alva e pobre ermida

Poisa a mão em ajuste divino

O remorso de antanho, doutro vento.

Ruge o mar seu lamento,

Na penha morre um trágico hino.

A última hora na munda serrania,

Lacera o espaço como o fogo aquece

O puro amor que sempre entontece,

Ante longes d’alma e fins d’agonia.

E os passos brandos d’ Agostinho da Cruz

Ecoam salmos de queixume e lembrança

Desse ermo bravio que exulta e amansa

O pungente martírio de Cristo Jesus.


Leonel Ferreira

Poesia IV

CONFISSÃO

Ontem debrucei-me
sobre o manto das árvores
para escutar as passadas incertas das folhas

e por entre a ramagem do fim do dia
em silêncio
meu coração murmurava palavras desconexas

num impulso começou a contar os instantes do mundo
como um louco vagabundo
dormitando na ausência da razão

rasgava o ar com ponta dos dedos
dizia voar no crepúsculo das nuvens
— rumo ao infinito

E de repente

tombou imóvel
Sob os contornos invisíveis daquele demónio
Que apenas posso soletrar
A—M—O—R.


Reis Neutel

Reflexões

“A esperança é um afecto que vive suspirando sempre por ver, vive de não ver e morre com a vida.”

(Padre António Vieira)

Segunda-feira, Maio 07, 2007

NÚMERO SETE



Madredeus - Maio, Maduro Maio

Editorial

Maio Milagre

«Maio maduro Maio quem te pintou?» Assim cantava Zeca Afonso, desconhecendo ainda que Maio viria depois do mês dito da Revolução. E se algo pode ter que ver com algo, algo pode deixar de ter que ver com algo pela simples sugestão ou evocativa analogia – os intentos segundos e terceiros sempre inquinam os seus desígnios. É complexo porque é complicado e o complicado nunca suplicou o complexo; não é rogo de indigente.
Assim, Maio surge porque não tinha que surgir. Assoma, como se uma Aparição refundisse a vida de todos nós. E isto não depende de créditos alheios nem de conformidades materiais e materialistas. É-o porque não sabemos. Desponta; é o Milagre.
E que somos nós em meio de Maio? Talvez Peregrinos caminhando sob o sussurro zombeteiro. Mas tudo isto não é de zombar; quando muito, lastima-se o que se não contempla em beleza.
Maio é mês de mentiras. Não o Abril primeiro mas o Maio último. E Maio não é diverso, pois a mês nenhum se concedeu a graça da pureza e a expurgação dos pecados. Maio é mentira como a vida. E mentirosos somos todos; e eu sou tão mentiroso quanto quem não ousa proclamar esta verdade. Neste sentido, a vida ensina a arte e o seu ensinamento passa inobservado. Não é inobservável porque se consente o fingimento que se aporta a algum lado. No meio disto tudo haverá espaço para a verdade? A resposta é lacónica: há tantas verdades quantos átomos. Há toda a verdade e verdade nenhuma. Por isso proferimos verdades sem nos benzermos, pois se acaso possuísse o Homem a fórmula redentora da humanidade, creio que não proferiria uma única frase da sua doutrina sem lavar o corpo e sem pedir absoluto silêncio e deferência. Mas não se dá o caso, porquanto as vozes da Salvação sempre se ouvem entre o estertor da admiração e/ou o fragor da indignação, e o doutrinário é escravo do amor e do ódio.
Tempo houve em que, um pouco por todo o país, se colocavam as «maias» defronte das casas, nos estábulos, nos carros de lavoura e nos animais, pois, de contrário, a crença popular asseverava que o mês de Maio revolvia em maré de azar. No Minho, em Esposende, as «as maias» eram feitas com giestas, malmequeres e rosas para que o Diabo não entrasse nas casas e para espantar os maus-olhados; em Santa Marta de Portuzelo, a reputação de Maio era a de um tolo, por trazer muito Sol e chuvas abundantes; em Ponte da Barca e Arcos de Valdevez as «maias» afastavam a fome, e em Barcelos afugentavam as bruxas. Maio é, por conseguinte, mês de doença e de males, personificação do demónio – Maio «carrapato», Maio «burro».
Mas Maio não mete mais dó do que Abril. Em Maio se desbravam as giestas, em Maio se acena à Senhora de Fátima com lenços brancos – última recordação das despedidas idas das outras idas caravelas. Maio é mentira como a vida e a vida é mentirosa como a arte e a arte empenha-se a mentir mais do que a vida; trabalho hercúleo e não ao dispor de qualquer trapaceiro. Maio é dos músicos, e à música volve toda a farsa e toda a lenda mais real do que o Real mentiroso menos mentiroso do que a música. E em meio disto tudo, que é tão pouco, ofende o entendimento que o primeiro de Abril seja o dia das mentiras, e o primeiro de Maio o do trabalhador.

Editor maio: Leonel Ferreira

Poesia

meiopoema


o que minto é o que sinto
e o que tento e o sustento
de quem mente é o que atenta
ao assentar.

um poema devagar
que mova o morder do prensar
e o pensar em dispersar
o pensar e arredores
do que tem e não lugar

o meu intento é esperar.


Ruy




heterógrafo

vê só onde o amor nos deixou; é Natal e estamos nisto:
não tenho sido eu própria

] - isto de não ter memória foi
onde a memória nos deixou - [

estamos à porta um do outro, encerramos as despedidas
e as portas que executámos só se acertam de manhã

] – errar, o cálculo, e o separar,
quando onde erramos cem olhar – [

havemos as cartas marcadas, os parceiros enganados
essas moradas por achar, e [escuta],
todos acreditamos nisso, e cem acreditar.


Ruy




cadáver é esquisito
que nos amemos
e nem nos vemos
pelo menos, nem o cremos
nem a mais pelo caminhar
cuja marcha se entontece
e no bolso, acontece, o coração

e ia jurar que te ouvi
hoje
- que respiravas devagar-
neste vago espaço
que alguém pôs no teu lugar

e, depois, talvez não hoje
amanhã me decido a ponderar
nessa morte se suspeitava
que ao lado bocejava
como um gato a uma perna
o enrolar da eternidade

e é sempre esquisito
não deixa sempre de o ser
que hoje o sol o vi nascer
e que o cria eu ainda
já que fosse coisa finda

- lavo os cestos, erro pelas contas
vindimo a solidão -
e desconto ingratos no que conto
os algarismos gastos da pulsação.

Ruy

Poesia

Anexos

Acorda!
Dormir é morrer mas devagar
E eu tenho pressas que se não adiam

Já escolhi o fato
Já comprei a campa
Falta-me viver e abreviar a respiração
Ir em meio de compasso

Mas até lá… gestos…
Factos
Causas e acenos
Oh canseira!
E eu que seguramente não fui o Lidador…

É para aprender que a vida pena
Leonel Ferreira

Prosa

Como um tapete explica a contingência

Andamos pela vida, muitos de nós, distraídos de tudo quanto nos leva ao momento e ao lugar onde estamos. A percepção ininterrupta da causa de todos os nossos efeitos é tão impossível quanto seria, a dar-se o caso, insuportável. No entanto, lá muito de vez em quando, convém meditar sobre o passado; ou melhor, convém contemplar o advir vagaroso que nos sustenta o respirar, admirar o transcorrido de nós para nos espantarmos com o que somos presentemente.
É maravilha incomparável supor o que seríamos não fora aquele golpe que, de sorte, nos desviou da contingência e nos arrastou para a necessidade. Estou a conceder que o presente é necessidade quando ajuizado pelo passado mas absolutamente contingente quando convocado pelo porvir. A admitir a contingência, parece-me inevitável convir um hiato entre o Homem e a Realidade. Chegado a este ponto, afigura-se-me, de igual modo, que o holismo não pode ter lugar. Esta questão não é, evidentemente, nova, nem é intento meu procurar originalidade de pensamento quando o que está em causa é o tédio relativo à necessidade e à contingência. Se todos os nossos actos estão impregnados de necessidade, parece-me necessário consentir que o Homem não escapa à ordem cósmica – nada nele existe que esteja fora do alcance do cosmos e dos planos do demiurgo.
Apelo então à capacidade imaginativa do leitor, pedindo-lhe que visualize um tapete. O seu relevo está ligeiramente inclinado para um lado, de modo que, quando passamos a mão no sentido inverso, sentimos o arrepio da fricção do tecido na pele. Imagine o leitor que está a passar a mão no tapete no sentido da inclinação do seu relevo. Não sentirá, certamente, o referido atrito. Mas se eu lhe pedir que proceda inversamente, tal e qual o seu movimento estivesse registado num vídeo, seremos forçados a conceder que tal é impossível, pois o vídeo regista não apenas o nosso movimento como a alteração que o mesmo provocou no real. Assim, se não houvesse separabilidade entre o ente e o real, seria possível inverter o movimento de tal forma que não sentíssemos a fricção da pele com o tecido, pois, tal como no vídeo, as protuberâncias do tapete precederiam o movimento da mão tal e qual anteriormente efectivado. Há pois, neste sentido, uma separabilidade total entre o ente e o real; separabilidade esta que só pode ser anulada por recurso à gravação de imagem. A revolução das câmaras de filmar e das máquinas fotográficas tem implicações no modo como olhamos a realidade, não apenas na rememoração dos acontecimentos mas ainda nas variações que os entes produzem no real e nas impossibilidades físicas que nos apartam, de modo categórico, da materialidade e do exterior.
Pretendo que todo este lance traduza um algo reabilitador do mistério humano, de uma fracção da existência que permaneça encoberta diante dos olhos de Deus, do Cosmos, do Demiurgo, da Natureza, da Física, do Universo, do Tempo, em suma, da Necessidade. Este algo não é um enigma mas um segredo cósmico. Idealmente, o Homem seria, em parte, o véu que assombra o olhar divino; seria o inconsciente de Deus. Este fraccionamento radical entre o Homem e a Matéria indicia essa incompletude da Razão humana reprimida pelos fados e pelas razões do Tempo como a manifestação mais terrena da Existência, apontando, irremediavelmente, uma outra faceta do Ser apartada de tudo e inscrita no Nada. Este panorama refunde os pressupostos argumentativos e a realidade tal e qual a Razão apreende, isto é, um equilíbrio entre a necessidade e a contingência. Intuitivamente não imagino como pode a necessidade ter lugar, seja no futuro ou no passado, pois não há previdência no mundo que sustente a impossibilidade; não estamos plena e inteiramente preparados para o que quer que seja.
O que o tapete indicia é que o Real, agindo sobre o Homem e exprimindo-se por movimentos que são, aparentemente e a posteriori, necessários, possui igualmente um reverso, isto é, revela uma acção humana que nunca se consegue sistematizar e efectivar de modo absoluto sobre esse mesmo real.
Pode parecer mera banalidade aferir a separabilidade entre os entes e a exterioridade, mas não podemos permitir que a nossa atenção se disperse na aceitação imediata dos dados da experiência. Se o fogo queima e deixa de queimar é porque não estou integralmente unido ao real. Mas se é possível que o fogo queime e deixe de queimar, essa possibilidade pode ser resultado de um encadeamento de movimentos, isto é, de uma união material que se efectiva pela relação de causa e efeito. Se a minha conduta e os meus movimentos mais pueris do quotidiano podem influir na vida de um ente que está do outro lado do mundo ou até nos satélites vagueando pelo espaço, encontramos aí os indícios de um elo não apenas material mas metafísico. Cada acto e cada movimento do Universo se perpetuarão pelo infinito, alimentando-se do Real e perdendo-se numa hierarquia de corpos que se aniquila indefinidamente, a qual nos confunde acerca da importância real dos nossos actos. Esta espécie de holismo não só aniquila a separabilidade como permite que as grandes Revoluções da Humanidade tenham origem em actos aparentemente triviais.
Nada escapa à Ordem; eis a sentença mais imediata que podemos idear. Se criarmos cópias fiéis de um determinado cérebro e as espalharmos por lugares distintos do planeta, esses cérebros expandir-se-ão em personalidades verdadeiramente diversas, isto é, adequadas à circunstância espaço-tempo. E no entanto é-nos impossível repetir uma inversão de movimentos registada num vídeo.
O que a necessidade e o holismo impossibilitam é o Nada. E o facto de impossibilitarem é, por si só, suficiente para se duvidar da sua possibilidade. O Nada solicita a fractura, o hiato e a interrupção espaço-temporal. Se houver um Universo de elos infinitos, onde tudo sucede necessariamente e no qual tudo procede uma causa, o Nada estará votado à impotência. E este Nada impotente não pode caber num mundo de necessidades e sem interstícios onde caibam as sombras do Homem e das suas criações. A contingência consome-se no Nada e o Homem é impelido a ser devorado pelo Nada. É esta inclinação humana pela Angústia que está em causa na impossibilidade registada numa sucessão de imagens inscritas no tempo, isto é, no Passado. O Homem invoca o Nada não apenas através da História e das suas manifestações e lugares onde retumbam as impossibilidades, mas sobretudo no inconsciente, na fractura, no temor, na angústia. Impossibilidade, Nada e Angústia possibilitam, outrossim, a Liberdade e a evasão da Necessidade e do «Olhar de Deus». E este Nada que nos consola é o Inconsciente de Deus, sempre atormentando os sonhos cósmicos, sempre refluindo pelo Universo inteiro.
Seremos então o rebanho tresmalhado de Deus? E se o somos, como poderá um homem sabê-lo? Sabê-lo-á fingindo que o sabe e não o sabendo categoricamente. A Razão é pois Irracional e o Irracional é o retiro do Homem, perdido em meio de Nada, por ele descoberto e incógnito senão no Mistério. E se um tapete o comprovar, o que haverá a lamentar em tudo isto? É ilógico, é imundo, é inconsciente e é o Mistério que finjo nem Deus conceber.
Leonel Ferreira

Prosa


Trágico é o seu devir. Trágico…
O devir de não ser o que se quer, de ser a ininterrupta condição sem solo. Sem!...Solo!... Sem raiz.
Sem chão.
Sem um chão! que lhe parta a sua incondicionada condição. O devir que a percorre é uma tragédia, nada a faz crer que sim, que sim verdade essa feia e triste!, nem que não por simplesmente isso não ver, nada a faz crer no que quer que seja que diante dos seus olhos não esteja. Olhos… Mas olhos que os mesmos sejam no contacto e na finalidade da visão não são olhos, são ver sem perspectiva, sem planos ou perfis, nem pálpebras sempre obstrutivas. São olhos e ouvidos, e toques sem sentidos porque todos os sentidos neles existem, nessas coisas que aqui chamei de olhos. Querer ver deste canto espreitando e não poder, ou pior, não poder nunca querer tal coisa por nada lhe ser permitido desejar é trágico… Ela não acha, nem conseguiria porque simplesmente de si não brotam volições, mas isto é trágico.
Sim, tudo isto é aflitivamente trágico!...
Não ter pontas, esquinas, limites. Não ter nada disso e ser em acto o devir, o eterno retorno a tudo aquilo que se foi, sem se ter sido nada de distinto do que se é ou vai ser. Vir a ser tudo o que foi ou nunca ser no futuro o que no passado não foi. Passado? Futuro? Conjugar tal verbo em tão dilacerante contexto é devaneio.
Não há pontas, esquinas, limites…
Não há qualquer ponto diferenciável dos outros. Se esses não existem não há aqui, ali, agora, antes ou depois, não há tempo, há devir sem tempo. Um devir, por natureza, sem tempo. Isto, raios o partam, é trágico.
Sim, tudo isto é aflitivamente trágico!...
Viver - sem existir - num perpétuo compasso marcado ao ritmo do não-tempo, do eterno, não um eterno positivo, mas um eterno carregado de perpetuidade ainda que não factual. Ser por condição incondicionada um passo em frente e em concomitância um passo atrás.
Ser todas as direcções sem se dirigir para sítio algum!,
Caminhar em todos os sentidos sem sair do sítio!,
Estar sempre no mesmo ponto sem imobilizar!,
Sem alguma vez parar, sem… avançar.

Que trágica ideia és tu!
André Faia

Prosa

Anita

(dedico este excerto a todas as "namoradas" que - inexplicavelmente - desapareceram da minha vida )

Episódio 1º - A Fixação Extra-Forte

Anita, Anita, Oh… Anita! Serena como a primavera, linda como uma delicada flor perdida no manto da natureza. Meu coração palpita por ela, sonho com ela, penso nela a todo momento. Anita a correr pelos os montes, a nadar numa límpida cachoeira, Anita ensaiando a dança do ventre, Anita ensinando-me a surfar num mar gelado, cheio de tubarões. Enfim, sempre graciosa e prestável. Nunca me cansarei dela. Já cheguei a vestir-me como ela em frente ao espelho, o que só me deu mais vontade de ama-la. Ai, Anita… Bem, mas quem é Anita? Será que estou a exagerar na descrição que dela faço? Se perguntarmos a todos os seus colegas da empresa Silva e Carvalho Contabilidade, Gestão e Auditoria S. A., as respostas vão, indubitavelmente, ao encontro do que eu digo sobre ela.
— Ela é tão boa, resmunga o Patrício entre dentes. E finda a frase com uma ruidosa gargalhada, seguida de um inusitado ronco. Mas nem isso o embaraça.
— É muito feminina e queriducha, afirma o Alvarinho da secção três de auditoria.
O Gomes da recepção confessa-me ao ouvido:
— Catano, é boa como as perdizes...
Felizmente, nem todos têm uma visão tão prosaica. O Carneiro elege-a como a mulher mais bela dos escritórios e quem sabe da cidade.
— Tem aquele ar inocente e pueril, mas não é como todas as outras. Não senhor, é tão boa que nem parece de carne e osso, — segundo o Mário Gonçalves das sandes.
Ok, admito, é um interessante comentário.
Mas a Anita é muito mais que uma donzela de olhar frágil e doce, de lábios sensuais, de quadris arqueados e bem definidos, de cortar o fôlego a qualquer um ou mesmo a qualquer uma. Não acreditam? Então notem o que as colegas de Anita dizem dela.
— Ah, a Anita é muito bonita e elegante. Sei lá? É muito sexy, como dizem hoje. Já me chegava metade da sua sensualidade e da sua inteligência.
Espera lá, mas quem é que disse tal barbaridade? Ah, claro a Guilhermina da Contabilidade, a solteirona do piso dois. Por favor, senhora, modere a sua estupidez. Atenção agora, vejam o que a Dra. Margarida diz.
— Ah, ela é um vulcão em actividade.
Lindo, não acham?
Mas afinal de contas, quem é para ti a Anita?

* * *

— Ufa. Que chatice nunca mais são horas de sair e não mais pára de chover, — pensava Ricardo.
— Dr. Martins tem uma chamada.
Ricardo virou a cabeça e acenou com a cabeça. Quem seria?
Ricardo Martins, era o adjunto do director comercial da Silva e Carvalho Contabilidade, Gestão e Auditoria S. A.. O trabalhador modelo, o filho que todas as mães gostariam de ter tido. Todavia, frustrado e solteiro era como ele preferia auto-apelidar-se.
— Só espero que não seja a chata da minha mãe. Filho não te esqueças disto, filho já fizeste aquilo, que seca. Filho agasalha-te, és o filho da...
Enquanto Ricardo se dirige para o telefone atravessando um comprido corredor, vai fazendo caretas e falando alto para com os seus botões. Porém, não desconfia que está a ser observado por vários colegas, que o olham com estupefacção e gozo. Finalmente, pega no telefone. Do outro lado, uma voz em êxtase guincha desenfreadamente:
— Ricardo?! Ricardo, és tu? Até que enfim, pá. Estou a ver que a Feijoada à Brasileira ainda está a resultar.
— Cala-te! Poupa-me, Miguel. Quantas vezes já te disse para não me telefonares para a empresa? Vá diz-me lá o que foi agora?
— Hmm, estamos mal humorados hoje...
— Sim, — respondeu secamente.
— Vá, deixa-te disso, amigo. Olha só uma coisa...
— Sim estou a olhar, cretino, e não vejo muita coisa, — a sua voz denotava agitação e perturbação, — O que foi desta vez? Espera estragaste-me o fato, não foi? — Falava agora muito alto. — Admite palerma... não palerma sou eu por to ter emprestado, que grande burro que eu sou. — Nesse mesmo instante leva a mão esquerda com força à testa, esfregando-a com violência até ficar vermelha. — Razão tinha a Fátima e o Jaime. Mas não... ainda tenho bom coração e vou ouvindo o que tu... — Repentinamente, a sua expressão muda. Desesperado coça a cabeça, repetidamente.
— Tu o quê?
— Vamos eu, tu e as gémeas, aquelas morenas altas e... Calma amigo, eu desconto-te os elogios pelo empréstimo do fato. Não... não te exaltes, espera. Desligou. Mas o que é que eu disse de mal?
Após ter desligado o telefone, Ricardo observou como alguns colegas o fitavam. Envergonhado, mordeu os lábios e disse em alta voz, dirigindo-se para os colegas:
— Queriam impingir-me um ... uma viagem às Bahamas. Estes gajos dos inquéritos. Que chatos.
E voltou para o trabalho.

* * *

Passados dois dias Ricardo é surpreendido no seu gabinete pela visita do amigo de infância, o Miguel.
— Ei, posso entrar?
— Sim, podes. Entra, — respondeu secamente o outro, enquanto organizava uma pilha de documentos.
— Já não estás chateado comigo, certo?
— Não, já passou. Mas o que queres? — respondeu-lhe sem sequer olhar para ele.
— Venho propor-te um almoço, que dizes?
— Um almoço! Ganhaste a lotaria? Espera, não me digas... estragaste-me o fato. Confessa.
— Não, era como moeda de troca. E já decidiste sobre a tal saída com as gémeas? Estás carente, meu. Eu consigo topar isso. Vá lá, vai ser curtido.
— Ok, escolhe lá a data. É-me indiferente. Só te peço que escolhas bem o sítio. Nada de bares gays desta vez, está bem?
— Tudo bem. Mas até que um bar daqueles seria o local perfeito para expor as gémeas, não concordas, pá?
Ricardo observa-o com estupefacção e responde friamente com um rotundo não.
— Vá mas pega nas tuas coisas, está na tua hora de fazeres stop.
— Sim, tens razão, — responde olhando para o relógio.
Ricardo arrumou uma vez mais o montão de papéis da sua secretária. De seguida, pegou na sua gabardina e no guarda-chuva, com prontidão e dirigiu-se com o amigo para a saída do piso, Miguel deu uma olhadela à sua volta e deu de caras com uma rapariga de longos cabelos loiros e olhos verdes. É encantadora, pensou Miguel. Tenho que saber quem é? Fazendo-se de surpreendido, perguntou ao amigo:
— Uau quem é a boazona?
— Ah?
— Quem é ela?
Ricardo vira-se para ver de quem se trata.
— Sê mais discreto. Lembra-te que eu trabalho aqui. Não te molestes em ir atrás dela, ok? Ok?
— Porquê? Ela não é diferente das outras. Tem tudo que as outras têm, ou não? Por acaso olhando com mais atenção até tem muito mais. Ena pá. Apresenta-ma, vá lá. Sou eu o Miguel, o teu amigo de infância. Vá lá.
— Nem, penses. Ela é diferente das outras.
— Força, meu. Sou eu que to peço.
— Claro. Vais usar o teu charme de macho latino. Ela não passa cartão a ninguém. Anda embora.
— Please, please.
— Não, esquece. Ela é mesmo diferente.
— Pois é, por isso mesmo. Ouve para a semana é o teu aniversário. Podíamos sei lá...
— Sei lá? Esquece, meu. Ela é especial, compreendes?
Fixando o olhar hipnótico do amigo, percebeu que ele de facto não percebia o que lhe tentava dizer, qualquer esforço era vão e como quem conforta um menino que acabou de deixar cair ao mar um chupa-chupa ou o brinquedo favorito disse-lhe:
— Ela é... ela é, — sussurrando aos ouvidos do outro — bem dizem que é bi.
— Bi! Bissexual! — ripostou o outro muito alto, o que fez com que todas as pessoas que por ali passavam os observassem com espanto. Mas pior do que a vergonha, era admirar o olhar alucinado com que Miguel tinha ficado, pensara Ricardo. Nesse momento arrependeu-se do que tinha dito, pois teve o efeito contrário ao esperado. Miguel agarrou violentamente os seus braços, como se fosse um louco que tinha medo de ser internado num manicómio. Então, gritando bem alto, disse:
— O que... ela é?... Não acredito. Como se chama? O que faz? Diz-me qualquer coisa, pá. O nome, já, — agarrando-o ainda com mais força, — despacha-te. O nome, eu quero o nooooooooooooome.
Ups, só havia uma maneira de sair dessa encrenca. E Ricardo conhecia-a bem. Devolver o chupa-chupa ao menino. Respirando fundo, disse timidamente:
— Chama-se Anita. É a secretária do Dr. Vilar. E é só um boato, rapaz. Talvez não seja bi. Tem calma.
— Caraças olha-me bem para ela.
Suspiram os dois encantados com a imagem da rapariga.
Ricardo, com alívio tinha recuperado os braços.
— Oh, ela é perfeita.
— Se é, Miguel. Que anjo na terra.
— Como?
— Esquece, vamos lá comer. Conseguiste envergonhar-me. Bem vamos lá almoçar? Chama o elevador, tenho que ir à casa de banho.
— A que horas sai?
— Saio às 18 horas.
— Tu não, palhaço. Ela, a ... como é que se chama?
— Anita. Não sei. Vamos lá, palerma, — observando o relógio — se não te despachas já não tenho tempo para almoçar. Vou rapidamente à casa de banho.
Dois minutos depois, Ricardo retorna e observa como o seu colega se aproxima da sensual secretária do Dr Vilar. Também ela à espera do elevador.
— Oh, por favor. Era só o que me faltava, — pensou.
— Então trabalha aqui? — perguntou Miguel à rapariga, colocando um tom mais viril à sua voz.
A rapariga sorriu embaraçada.
— Sim, — foi a resposta breve que obteve.
— Chamo-me Miguel, muito prazer, — estendeu-lhe a mão.
Ela hesitou um pouco. Felizmente, para ela é salva pela chegada do elevador.
— Vamos lá, — sorri nervosamente à secretária.
Entram os três. A rapariga não tira os olhos da porta do elevador. Ricardo alterna o olhar entre o relógio e o guarda-chuva. Miguel, por seu lado, coloca-se ao lado da rapariga e respira fundo tentando aspirar o perfume da rapariga.
— Chanel Nº 5, — pensa, — foge, é perfeita. Que corpo. Vou convidá-la para sair, para beber um copo. Esta não me pode escapar. E ainda por cima é bi. Uau, — mede-lhe durante largos segundos as medidas. A rapariga começa a ficar nervosa e farta de levar com a respiração do outro.
— Então logo vamos ao teatro com as gémeas, certo? — perguntou Ricardo?
Miguel cora.
— Que gémeas? Estás sempre no gozo comigo, não é? Bem sabes que eu sou descomprometido, pá. Nem sei de que gémeas estás a falar.
Ricardo observa-o estupefacto. O outro pisca-lhe o olho e manda-o calar. Ricardo notou como a voz do amigo já não era tão máscula.
Finalmente, o elevador pára. Saem os três. Miguel continua a olhar para Anita. Ambos desejam-lhe boa tarde, ela agradece e retribui a boa tarde. Fitaram-na por mais alguns segundos.
— Serena luz que nos enfeitiça, amigo. Mas ela não é para o teu bico.
— Cala-te! Estragaste tudo. Grande amigo me saíste. Amigo da onça. Só a queres para ti, não é? Raios para as gémeas.
— Ah, claro! Olha bem para mim. Achas mesmo que tenho alguma chance com ela. Estás caidinho. Eu não. Estavas em cima dela a fungar. Deves ter tido oportunidade de reparar que tipo de laca ela usa, tarado.
— Extra-forte, não natural.
— Desculpa?
— Ela usa laca de fixação extra-forte.

*

Prosa

Restless Seeker

(I address you, my loyal friend, lend me your senses and judge for yourself)


Could the sky go darker and empty our souls, my dear dreamer? Did you see the madmen turning wise? Did you see how the seers became blind? Did you hear the children shouting under the bomb’s glow? Did you hear how their parents were slayed?
Why do They paint the sky with the blood of the innocent?
You must keep vigilant. Don’t let Them catch you. Don’t let Them know what you know. Don’t answer them back. Keep blind, watch just with the eyes of the shadow; keep deaf, hear only when the wind pulls down its trigger; keep dumb until the sun rises on the horizon and your mouth becomes unveiled.


When is the comet coming back?
Spelling the breathing written in
Dreams of hope:
A trail to the stars.

My roots your senses, my branches and trunk your life, my sap your vision
And when my seed become yours, you’ll get the strenght to reveal yourself.
But until then,
The dreamer gives up his vision.

To you I sign this letter,

Reis Neutel

Prosa

¼ de Peru

Ah, que belo dia para se ir fazer umas comprinhas para o lar, doce lar. É sábado de manhã, o céu está azul pintalgado de uma ou outra primaveril e discreta nuvem passageira, o sol brilha com uma intensidade alegremente anti--depressiva, uma levíssima brisa ondula os cabelos de quem os tem, os passarinhos fazem descontraidamente as suas necessidades em cima das estátuas das figuras maiores do burgo e as lojas de comércio tradicional na baixa do município estão abertas e povoadas por gente de gestos e palavras familiares e acolhedores, muitas vezes tratando a freguesia pelo nome e perguntando se há novidades daquele familiar que tão desgraçadamente cumpre pena por se ter deixado apanhar a desviar uns fundozitos aos quais até tinha direito e que não iam fazer falta nenhuma ao IRS. E foi assim, neste ambiente de bucólica felicidade da média-baixa Burguesia citadina que a Dona Gertrudes foi fazer umas comprinhas para o seu tão bem arranjadinho domicílio. Um dos primeiros destinos da sua romaria foi o talho do senhor Nicolau, um senhor de meia-idade muito simpático e prestativo.
“Bom dia, Dona Gertrudes.”
“Bom dia, senhor Nicolau. Que lindo dia está hoje, não lhe parece?”
“Realmente... mas diga-me lá, o que a traz aqui pelo meu modesto estabelecimento?”
“Olhe, eu hoje estava à procura de alguma coisa especial para o almoço. Sabe, é que os meus rapazes foram à pesca e só voltam lá para o fim da tarde. E como só ficamos eu e o meu homem...”
“Sim, sim, estou a ver. E o que é que tem em mente?”
“Eu estava a pensar assim numa carninha tenrinha que se desfiasse bem, mas que também não fosse de se desfazer logo ao chegar ao forno. Está a ver?”
“Ora bem, não sei se isto lhe interessa... veja aqui, chegou ontem um carregamento de vitela bem fresquinho...”
“Hum... não, acho que não me apetece muito vitela. Além disso, é capaz de não me ficar muito em conta.”
“Bom, se lhe interessa uma coisa que fique mais em conta, talvez eu tenha aqui o que lhe interessa.”
“Ah sim? E de que se trata?”
“É uma promoção que começámos a fazer ontem e que tem tido muita saída.”
“Sim...?”
“Por metade do preço pode levar ¼ de Peru inteirinho!”
“¼ de Peru? Por metade do preço?”
“Sim, sim, e olhe que ainda pode escolher a parte do Peru que quiser.”
“Ah, mas isso é mesmo muito bom! Mas olhe que eu não tenho assim muito jeito para escolher Peru... será que me podia ajudar a escolher uma parte assim mais jeitosinha, ó senhor Nicolau?”
“Com certeza, Dona, com certeza. Olhe, aqui para cima tem o ¼ tropical, que apanha as fronteiras com o Equador e com a Colômbia, zona riquíssima em minério e onde o Amazonas nasce; mais para este lado tem a zona Sudeste, na qual os Andes ocupam extensa área, incluindo o tesouro de Macchu Picchu.”
“É só isso?”
“Não, não! Pode ainda escolher a zona Oeste, na qual se encontra a capital, Lima, riquíssima em legado histórico e arquitectónico colonial, bem como praias lindíssimas.”
“Pronto, olhe, acho que levo ¼ de Norte do Peru. Sempre podem fazer jeito uns quantos jazigos de minério, não é verdade? Vá-se lá saber o que é o dia de amanhã...”
“Pois sim senhora, muito bem, aqui está ¼ de Peru da região Norte. Quer que embrulhe, ou vai assim no saquinho?”
“Faça o favor de embrulhar, senão ainda me seca o Amazonas com este solzinho que faz...”
“Pronto, então aqui tem. Muito bom dia e obrigado.”
“Bom dia.”


João Tavares

Prosa

A doença psiquiátrica

Fugiu. Depois de anos e anos injustamente encarcerada num lugar onde não pertencia, aproveitou um momento de menor atenção dos guardas e saltou os muros, rumo à liberdade. Uma vez do lado de fora daquela autêntica prisão, correu a toda a velocidade, sem saber muito bem para onde, apenas sabendo que era para longe, para bem longe, para muito, muito longe daquele lugar horrível onde passara tanto e tanto tempo. Percorreu centenas de quilómetros, sempre em busca de um refúgio, de um santuário, de um esconderijo onde nunca mais a encontrassem. Mas sabia muito bem que isso seria muito difícil. Mais tarde ou mais cedo alguém acabava por reconhecê-la e lá tinha ela de se fazer novamente ao caminho, sempre perseguida, sempre acossada, sempre caçada, como se de uma besta selvagem e brutal se tratasse. Os seus dias eram uma constante partida de gato e de rato com os seus algozes, mas também ela tinha de sobreviver, pelo que também ela caçava. E ela caçava muito bem. Tinha excelentes qualidades que lhe permitiam caçar de emboscada, passando totalmente despercebida diante da sua presa até já ser demasiado tarde. E mesmo assim, na maior parte das vezes a vítima jamais se apercebia de que havia sido apanhada, tal era a intensidade furtiva do ataque. Ah, mas a sua necessidade de caçar era imensa, não se podia contentar apenas com uma presa de vez em quando, tinha de apanhar muito mais do que isso; e foi em face dessa necessidade que ela acabou por desenvolver uma estratégia de caça eficaz: começou a identificar as suas presas e a perseguir elementos que a elas estivessem ligados por laços de sangue. Não haja qualquer dúvida que, desta forma, o seu índice de sucesso na caça subiu enormemente. Mas – ah, pois, tinha de haver um “mas”! – ao optar por dizimar famílias inteiras, em vez de atacar vítimas isoladas, acabou por chamar a atenção dos seus perseguidores, pelo que eles hoje estão muito, mas muito perto de lhe pôr de novo as mãos em cima e de a internar de novo no Hospital para Doenças do Foro Psiquiátrico. Pois é, Esquizofrenia, não tarda estás de novo entre paredes almofadadas e em camisa de forças...

João Tavares

Pensamento do Mês

“O pessimista queixa-se do vento, o optimista espera que ele mude e o realista ajusta as velas.”

William George Ward

Sexta-feira, Abril 13, 2007

Número Seis

Editorial

Ecos de natureza(s)
Quando eu era pequenino, já no século passado, uma vez contaram-me a história do escorpião e da rã. Nessa história, o escorpião pede boleia à rã para atravessar o rio sem se afogar. A rã confronta-o com o facto de saber que ele a pode picar a meio da travessia, condenando-a à morte, ao que o escorpião contrapõe que isso seria um perfeito absurdo, uma vez que estaria a condenar-se a si próprio. Mediante esta explicação, a rã deu-se por satisfeita e ofereceu-se para transportar o escorpião. Quando estavam a meio da travessia, a rã sentiu uma dolorosa picada e apercebeu-se que o escorpião lhe havia desferido um golpe mortal com o ferrão. “Idiota, que fizeste tu? Não vez que assim acabaste de nos matar aos dois? Porque o fizeste?” – disse a rã em nítido desespero, ao que o escorpião respondeu: “Não sei porque o fiz, simplesmente tinha de o fazer. Está na minha natureza, não o pude evitar.”

Muita gente pensa que pode furtar-se a ser quem é, ou mesmo o que é. Muitas pessoas pensam que basta convencer-se a si mesmas de que são o que pretendem ser para que o sejam de verdade; pensam que basta usar argumentos mais ou menos lógicos para que as outras pessoas as vejam numa natureza que não é a sua. Mas mais tarde ou mais cedo, invariavelmente, toda a gente encontra a sua verdadeira natureza. É impossível escapar-lhe, é impossível uma pessoa suprimir totalmente quem ela realmente é; é impossível fazer uma operação plástica ao cerne da pessoalidade individual.

Sim, é verdade que, segundo estas palavras, até parece que eu estou a afirmar que a mudança é impossível, que o destino é uma fatalidade inalterável, que a personalidade é total e hermeticamente fechada e impossível de mudar... oh, quantos de vós, potenciais leitores, já não havereis testemunhado em terceira, segunda ou mesmo primeira mão histórias de verdadeiras metamorfoses kafkianas pelas quais passaram os espíritos, as disposições, as vontades ou as vivências de dezenas, centenas e até milhares de seres humanos... quantos de vós não estareis já a condenar em auto-de-fé flamejante estas minhas palavras de aparente absoluta descrença no género humano e ulterior misantropia da espécie... ah, meus caros, mas é aqui que vos devo fazer notar o seguinte: eu estou a falar de natureza, não de evolução! É óbvio até à tontura que a evolução permite alterar tudo e mais alguma coisa! À luz da evolução praticamente – e em potência – rigorosamente nada fica como era no princípio (amén). Eu aceito a mudança através da evolução; eu acredito da mudança através da evolução. Acredito, por exemplo, que o escorpião pudesse ter atravessado o rio às cavalitas da rã sem a ter picado, se eventualmente esperasse meia dúzia de milhões de anos que lhe proporcionassem uma mudança (evolução) nesse sentido. Já a sua natureza, essa, estaria sempre refém daquilo que a evolução lhe permitisse. O mesmo se passa com a espécie humana: a evolução trouxe-nos até este ponto, o da monarquia absoluta sobre a convicção de que somos Senhores da Criação. O que a evolução ainda não nos permitiu fazer foi mudar a natureza de cada um ou uma de nós, de modo a sermos o que nunca fomos nem nunca seremos. Ninguém, rigorosamente ninguém me consegue convencer que é possível mudar a natureza das pessoas.

Desta forma, os textos que aqui aparecem são o produto imediato da natureza de cada um dos seus autores. Não esperem ver aqui publicado o que nenhum dos autores em sua natureza alguma vez criaria. A evolução de estilos e de tons faz-se dentro da natureza individual de cada criador – esperar outrossim é absurdo.

Dito isto, concordem se quiserem, discordem por favor, façam o que acharem melhor, ou nem por isso. Afinal de contas, o que importa é que nada disto importa verdadeiramente – a menos que o jantar esteja delicioso.

Já agora, não se esqueçam de fechar bem as persianas.
João Tavares - Editor Outra Vez

Conto

A noite é boa conselheira
O Imperador estava cansado, dir-se-ia até que estava quase exausto, mas não dava quaisquer mostras de querer dormir. No entanto, ele sabia que era muito importante descansar convenientemente esta noite, de modo a estar perfeitamente fresco e na posse de todas as suas capacidades para a hercúlea tarefa que se impunha levar a bom termo na manhã seguinte. Sim, teria de levar a muito bom termo aquilo a que se propunha, pois dela dependia muita coisa – e nada, mas mesmo nada, deveria perturbar o seu bom discernimento, nem mesmo um permanente sentimento de tensão e angústia expectante que lhe roubava toda e qualquer réstea do tão abençoado sono reparador. Voltas e mais voltas deu o Imperador no seu amplo e imponente leito de lençóis de seda a almofadas de penas de faisão; voltas e mais voltas deu ao redor do seu imponente quarto em cujas paredes as suas próprias armas o perscrutavam impiedosamente aguardando o desenlace da questão; vezes sem conta se dirigiu o poderoso soberano à janela a fim de pedir à Lua ou às estrelas que se compadecessem dele e que lhe enviassem um arauto de Morfeu, ajudando-o assim a adiar por mais umas horas o confronto decisivo que teria lugar logo na manhã seguinte. Por fim, cansado de esperar e quase a desesperar, optou por decidir fazer uma coisa que, de certeza absoluta, iria ajudá-lo a adormecer como um bebé: assim, ordenou que trouxessem à sua presença a primeira mulher que encontrassem. Dito e feito, apenas um breve momento volvido desde a sua ordem e já o chefe da guarda pessoal lhe anunciava a chegada aos seus aposentos de uma jovem mulher. Esta bateu levemente à porta e, perante a imperial autorização, entrou.

Uma vez dentro do quarto, a jovem ficou de pé a dois ou três passos da porta, não avançando mais e nem ousando olhar o Imperador nos olhos. Este, que estava sentado num largo divã, dirigiu as boas-noites à sua visitante. Esta respondeu com uma vénia e um “boa noite, Vossa Imperial Majestade” proferido em voz muito baixinha e denotando óbvio constrangimento.

“Como te chamas?”, indagou o monarca.

“Alina, Vossa Majestade...”

“Bom, Alina, muito prazer em conhecer-te. Por favor, olha para mim. Vá, não tenhas medo...”

Quando ela levantou os olhos, o Imperador pôde constatar que se tratava, de facto, de uma jovem. Perguntou-lhe de imediato a idade, ao que ela prontamente respondeu, não sem algumas tremuras na voz:

“Dezassete anos, Majestade...”

“Dezassete?! Bom, não admira nada que estejas tão nervosa.”

“Perdoai, Majestade, se vos incomoda a minha disposição reticente...”

“Enfim, deixa lá, não faz mal. Quer dizer, quando eu pedi que me enviassem uma mulher, estava à espera que me enviassem alguém mais madura, mais conhecedora, com mais experiência de vida...”

“Quereis então que me retire e peça outra companhia para Vossa Imperial Majestade?” – respondeu a jovem com alguma expectativa incontida.
“Hm... não, não, deixa estar. Não é preciso. Já que estás aqui, podes ficar. Não te importas, pois não?”

Esta era uma daquelas perguntas que Alina achava serem tão retoricamente estúpidas como cruelmente desnecessárias – ousaria ela contradizer o Imperador e arriscar ficar sem a cabeça? Antes ficar sem outra coisa qualquer...

“Não, Majestade, é claro que não! Terei o maior gosto em... fazer companhia a... a Vossa Majestade esta noite...” – titubeou a jovem.

“Diz-me Alina, que fazes tu aqui no castelo do Duque? És casada? Comprometida?”

Maldição! – pensou Alina – se ao menos já fosse casada, talvez lhe doesse menos fazer companhia ao Imperador! Assim...

“Não, Vossa Majestade... – hesitou a jovem – não sou casada nem tampouco comprometida. Contudo... – disse ela, depois do que hesitou e ficou em silêncio, quase arrependida de o ter dito.”

“Contudo...?”

“Contudo... meu coração bate por alguém!” – disse ela, ainda algo a medo.

“Ah, sim? E por quem, pode saber-se?”

“Ahm... duvido que Vossa Majestade conheça... bom, quer dizer, trata-se de um simples... bem, simples mas valente... hã... é um escudeiro do Duque...”

“Sim, tens razão não devo conhecer.”

Uuf! – pensou a jovem.

O Imperador, vendo que Alina ainda estava de pé junto à porta, pediu-lhe para ela se aproximar e se sentar junto a ele, no divã. Com passinhos pequeninos e bem medidos, ela foi até junto do monarca e sentou-se.

“És muito formosa! Tenho a certeza que o teu simples mas valente escudeiro te deve ter também em muito alta estima.”

“Se Vossa Majestade o diz...” – disse, corando.

E assim continuaram numa conversa de perfeita xaxa, que não atava nem desatava para lado nenhum, até que o Imperador, que para grande surpresa e alívio de Alina não lhe tocara nem uma única vez, acabou por adormecer ao cabo de uma meia hora, ali mesmo no divã. Muito lentamente, e com reverente respeito à mistura – mais por temor a quebrar o feitiço do sono do que por carinho ou afecto – ela levantou-se e cobriu o Imperador com uma manta. Dirigiu-se então à porta e disse, muito baixinho:

“Boas noites, Vossa Majestade. Se não levantais objecção, dirigir-me-ei agora aos meus aposentos ...” – ao dizer isto susteve a respiração durante três ou quatro segundos, que lhe pareceram uma eternidade. Ao cabo desse tempo, como o Imperador lhe não respondesse, isto é, como não objectasse a que ela se retirasse, ela fez uma profunda vénia e muito lentamente saiu do quarto, deixando o monarca a ressonar levemente.

No dia seguinte, bem cedo pela manhã, o Imperador levantou-se e preparou-se para a difícil tarefa de negociar a paz com o Duque rebelde em cujo castelo a sua imperial comitiva pernoitou. Dirigiu-se à sala de conferências e ouviu as trombetas anunciar a chegada da embaixada do Duque, que viera do seu esconderijo nas montanhas até ao seu próprio castelo, perdido durante a guerra, tentar um acordo para pôr fim às hostilidades que se arrastavam havia já vários anos. Para grande surpresa do monarca, a embaixada era liderada pelo próprio Duque rebelde. Este, uma vez frente a frente com o Imperador, disse:

“Majestade, pela forma como respeitastes a honra e a integridade da minha filha, estou disposto a acreditar na vossa promessa de perdão e de reconciliação. Como pai, agradeço-vos do fundo do coração a preservação de Alina. Como líder do exército rebelde, estou disposto a depor imediatamente as armas e a negociar os termos da paz.”

Respeitar a honra e a integridade da filha do Duque? – pensou o Imperador – Mas se ele nem sequer sabia que a Alina era a filha do Duque que ficara para trás quando o pai fugira para as montanhas... além disso, de que forma poderia a jovem ter perdido a preservação? Pois se ele já desde pequenino que recorrera à avó, depois à mãe, às irmãs, às primas e até mesmo às criadas para lhe falarem de coisas banais e triviais sem interesse nenhum, de modo a aborrecê-lo tremendamente e a fazê-lo cair de sono...
João Tavares

Prosa

Portugal e Existência
Já o sabia Kierkegaard, «sistema e fechado são idênticas coisas tão afastadas quanto possível da existência e da vida»[1]. Quanto a mim, os meus afectos não mais concedem senão a edificação da possibilidade. Ainda a repetição é o recolhimento do em aberto, ainda o mundo hasteia sofregamente o futuro. O movimento está ancorado no passado – está ancorado. E se o mundo é possibilidade, o mundo é paradoxo. Ainda bem que assim o é, pois, pelo meu lado, e ainda que o não tenha experimentado, não me contentaria desconhecer o nada. A vida é nada ou a vida participa do nada por esta mesma possibilidade. Possível e não necessário. Quero, entanto, que me concedam que não morrerei, como quero que me concedam que não serei coisa alguma senão todo o possível.
Hoje a ordem mudou. Acordamos noutro lugar. Não nesta ordem mas numa outra que não sabemos. E a ordem mudou de tal modo que não sabemos nada ainda que cumpramos todas as possibilidades. Seremos espanto amanhã para além do espanto que somos hoje. Esta é a consolação. Consolai-vos com a possibilidade de um mundo em que tudo é absoluto desentendimento. Estamos, aparentemente, perdidos no meio de nada – essa é a nossa consolação. Os nossos medos, as nossas angústias, os nossos paradoxos, tudo isto é consolação e, portanto, tudo isto deixa de ser medo e angústia. Só o paradoxo resiste. Desabrigamo-nos da existência, peregrinamos pelo incerto, mas o paradoxo não está suspenso, pois tal como a serpente, não há nele parcialidade ou linearidade. Há caminho do meio, da direita e da esquerda. Serpenteando a realidade, sempre entre tudo e nada, sem anjos, sem mediadores. Sós, largados no espaço e no tempo. Sós.
Quero a angústia. Posso querer a angústia? Posso ter medo da felicidade e das eudemonologias? Posso negar-me a rir e a sorrir? Não sei. «Nem sequer sei que não sei nada; conjecturo, porém, que nem eu nem os outros.»[2], mas não posso resistir ao dinamismo do paradoxo, não posso negá-lo, pela mesma possibilidade de o não poder afirmar. Aquilo que supostamente destruiria o paradoxo logo o restaura com novas energias. Não há restrição a analogias ou a alegorias; o paradoxo é, sobretudo, aplicabilidade. É-o porém de forma inclusiva, porque tudo sorve e ressuma sobre si próprio. Posso, por isso, negar-me a qualquer coisa mas não posso nunca repelir o paradoxo. Todo o sistema, toda a rotura, todo o círculo e toda a espiral aflui ao paradoxo.
A existência é – não estou seguro que o seja – decisão. E porque talvez seja decisão, será participação do nada mas também de contradição. Existir pressuporá a escolha, o exercício – livre ou não – da opção e da preferência. Existir é, mais do que pensar, escolher. Quando decido já pensei (?), mas quando penso já existi. Este atraso do pensamento em relação à existência é contradição decisiva que nos deixa num impasse relativamente à temporalidade da escolha e do pensar. Pouco sabemos do pensar e ainda menos sabemos da escolha; pelo menos eu ainda não sei se escolho porque penso ou se penso porque escolho. Não sei sequer se a escolha escapou alguma vez ao tempo e à inteligência; parece-me, entretanto, que há uma anterioridade qualquer – que não sei qual – que excede o próprio pensamento. Sei que me dirijo a alguém que está habituado a pensar apenas com o pensamento. Contudo, o estabelecimento da possibilidade da ordem ser uma ordem outra não foi inocente. Antecipemo-nos, ainda que o não possamos, ao pensamento. Tenhamos a coragem da negação e o espírito bélico; a vida pede que combatamos. Não nos bastarão os moinhos de vento como não nos bastarão as ideias efémeras. Nada nos bastará. E ainda que um dia nos sintamos saciados, havemos de negá-lo obstinadamente, porque as forças contra as quais lutamos são as do impenetrável círculo das certezas.
Esta introdução é tão absurdamente grotesca quanto os propósitos nadificadores nos toldam a discursividade. Fizemo-nos assim; a nós e ao mundo.

Os impérios construíram-se, até aos nossos dias, sob o conhecimento. Construamos o Império da Paixão - o Quinto. O ensinamento luso não tem que ver com máquinas. O que Portugal tem para oferecer ao mundo é a Existência, e esta fatalidade explica, em parte, a nossa incompetência para a Economia e Ciência, apesar dos Descobrimentos, que encontraram as suas fundações, contudo, no Divino Espírito Santo. Diante da cultura portuguesa, Heidegger é tardio – edificante mas tardio. A nossa dimensão oriental, a ocidental praia lusitana, nada poderá desejar que possua o rastro das engenharias.

Ouvimos os motores, mas por sobre os autómatos cantamos melodias de antigamente.

As trombetas anunciam o ressurgimento da Atlântida. O Quinto Império, mais do que um Império da Cultura, será o Império da Existência, firmada esta ideia no absurdo de o Existir preceder o Pensamento, visto ser esta a salvação do paradoxo e visto ser este a salvação da Existência. Não há pois mediação possível, ao modo hegeliano, entre o Existir e a Realidade. Não há cultura, não há saber, não há conhecimento. Há Amor, há Paixão. E havendo Amor e Paixão não pode haver unidade nem universalidade no sentido estrito e rigoroso dos sistemas que libertam erigindo barreiras.
Não implica tudo isto que a Razão seja abandonada. Se o nosso pensamento for holístico, então estaremos condenados aos círculos e admito que a exegese possa ser conduzida pelos caprichos do desonesto. Não me elevo às sentenças, mas o que verbalizo não põe de parte a hipótese da contradição com aquele espaço concedido ao leitor para que crie. Nada é definitivo.
Nem sequer complexo, nem sequer erudição do real. Não pode o Português ater-se ao Estruturalismo porque o português sabe que as suas estruturas se não lêem, e o mesmo é dizer que o paradoxo se não sistematiza. O que sobeja então ao espírito despojado do racionalismo iluminista? Sobeja-lhe a Razão e este esforço absurdo em racionalizar o vórtice da existência. Este é, talvez, o vestígio primeiro e último da nossa comunhão com o Paradoxo - tentar explicar que se não explica o inexplicável.

[1] Kierkegaard, Temor e Tremor
[2] Francisco Sanches, Que Nada se Sabe
Leonel Ferreira

Pensamentos

Oblívio

Temes a morte com a lucidez ténue da vida que te escapa entre os dedos. A bobina arranca despertando os teus pesadelos de imagens feitas de presenças ausentes e ilusões reais. Na tela Deus é outro — e o teu olhar um farol oblívio no vazio recortado.

Reis Neutel
Citação do mês:

“A paz da consciência é o maior de todos os dons. Uma pessoa com a consciência limpa não tem motivo para temer os espectros.”
Lin Yutang

Poema

à distância do pensamento

quando é que tudo terminou?
quem silenciou a pólvora da madrugada?
quando fiz do meu sangue cinzas em chama?
quem procurava no limiar da sombra,
na fachada do espelho, no degrau das horas?
quem descrevia a angústia da solidão?
quem eras tu que sombreavas o meu coração em pedaços?
há razão para não ter medo de morrer,
de suspirar por um outro desfecho para lá do horizonte da imaginação?

Reis Neutel

Poema

A aranha e a teia
Na teia da aranha
Onde ela apanha
O almoço e o jantar
O vento sopra forte
Sem ter a boa sorte
De a teia estragar

Na teia da aranha
Não há nenhuma manha
Que a consiga enganar
Seja mosca ou mosquito
Não dá p’ra ser esquisito
Chegando é p’ra ficar

Na teia da aranha
Que ela desenha
Como se fosse um andar
A dispensa é duradoura
Desde que a vassoura
Não a vá lá desmanchar

A aranha na teia
Faz o seu pé de meia
Para ter o que comer
O que vai sobrando guarda
Embora não use farda
Nem use sequer talher

A aranha na teia
Às vezes vai de boleia
Ao sabor do vendaval
Faz balão da teia sua
Que parece a meia-lua
Pregada num avental

A aranha na teia
Vê tudo o que a rodeia
Qual centro dum enredo
Mas nada pode fazer
Quando as crianças a tremer
A esmagam com o dedo.
João Tavares

Sexta-feira, Março 09, 2007

NÚMERO V

CINCO CINCO CINCO CINCO CINCO CINCO CINCO CINCO CINCO CINCO

Editorial

O tempo perguntou ao tempo quanto tempo o tempo tem.


Escrevo isto tarde e a más horas. talvez não de forma extemporânea, certamente não atemporal, e por certo de maneira alguma intemporal. neste tempo, como naquele, nada é atempado, em nenhum dos sentidos que seria possível atribuir. se alguma vez o quiséssemos. é tempo do tempo que temos, é temporal, com vento forte ou tempo forte ou nem por isso, temperado, bastante impreciso.

voltemos atrás. ao isto. voltemos ao isto que não é o isto que referimos em primeiro lugar, nem em segundo, nem agora porque agora já não é agora, o agora já foi, e voltará a ter sido.

Isto. estou certo do que aponto. não preciso de um nome, de nenhum, próprio ou impróprio, plebeu ou comum, unívoco ou equívoco. estar na vez de é não só estar no lugar de, mas no tempo de. é uma invasão. aponto, sei de mim, sei do que falo, de onde e quando, e no entanto é porque o falo que já o não nomeio, que já o perdi, que o firo de morte quando o digo, o escrevo, o leio, o penso. inscrever, e escrever, é perder o nome. o nome que nunca se teve, e que por não se ter dá espaço e dá vez à nomeação, ou pronomeação. o nome que diz e aponta já algo outro e vário e nomeadamente aponta para si. por isso não se pode ter, não se pode nomear, não se pode. naquele tempo como neste, não.

Se escrevo isto é porque o isto já não existe. Já passou a sua vez. É extemporâneo. era uma vez.

O tempo perguntou ao tempo quanto tempo o tempo tem. o tempo respondeu que o tempo tem o tempo que o tempo tem.

não há contemporâneos, não há temporários, não há temporais.
escrevo tarde e a más horas. nem o tempo temos. nem isto. um pouco, um bocadinho, um texto.
nisto perdemos tempo, o tempo que não temos. não há tempo para isto. não tenho tempo para isto [eu?]. isto não é deste tempo. nem deste, nem daquele. há não haver tempo, temos não ter tempo e isto é mais um isto que já não é isto, nem isto, nem aquilo, nem coisa nenhuma porque é algo.
peço desculpa, como seria de esperar. por anacronismos e pela perda de tempo. por isto tudo. por perder tempo que não se pode perder. por variados motivos. é uma vez, foi uma vez.
Eu.
Isto.

Aponto e o que aponto não existo. Ser tarde e a más horas é o que explica tudo isto. Insisto nisto. E persisto.


deus ajuda quem cedo madruga, e a orgânica.

ed isto r - Ruy

Poesia

Na escuridão, os obstáculos não se vêem

1 – A Verdade está lá em cima, na prateleira, ao pé das bolachas

E afinal a Poesia não existe
A Poesia foi Satanás
Que se disfarçou de musa
E apareceu vestido de Havaiana
A Petrarca e a Camões

Mas o grande problema
De Satanás-poesia
Foi que ele se esqueceu
De rapar as pernas
Antes de aparecer a Oscar Wilde

Já Milton e Homero
Ficaram à espera da Luz
Que nunca chegou
Ou se chegou não a viram
Porque Satanás lhes apagou as velas
(Enganou-se – pensava que faziam anos
Mas não! Ficaram cegos…)

Pois é, a Poesia não existe
É o Rei das Diabruras que decide fazer mossa
E lá vem ele todo lampeiro
Convencer este ou aquele incauto
Que está a ter Inspiração
(Bons tempos em que o Santo Ofício
Sabia a Verdade – a Esquizofrenia é como os impostos:
É tudo psicológico!)

E no meio disto tudo onde ficam os Realistas?
A que pincel se agarram os Neo-classicistas?
Em que galho se pendura o Paradigma Aristotélico?
Não ficam. Escorregam. Cai podre.
É tudo treta – no contrato está bem claro
Que podem dizer o que quiserem:
Mas no fim todos sabem bem
Que é o Chifrudo quem redige os seus Delírios
(ou julgam que Platão estava a brincar
Quando disse que o Poeta-Aedo
Mais não é que uma arrastadeira espiritual?
Pois, pois, uma entidade divina…
Vocês são tão crentes…)





2 – Deslarga-me!

Deslarga-me do braço!
Não me prendas
Com as tuas asneiras!

Destroca-me dinheiro!
Não me obrigues a andar
Com moedas estrangeiras!

Destroce essa manobra!
Aprende a virar a regueifa
Com boas maneiras!

Desmata as saudades!
Elas são um perigo
Se forem verdadeiras!

Descome porcarias!
Doce é o fruto
Das deliciosas palmeiras!

Despaga o bilhete!
Não tens de ir
Recolher mangueiras!

Destira a mão!
Não te metas
Com meninas Tripeiras!

Desfunga o nariz!
Essas coisas
São tão foleiras!

Desmete o passe!
Tu queres é ir
Para o interior das Beiras!

Desvai-te embora!
Não peças informações
Às simpáticas rameiras!

Destem juízo!
Não é na cabeça
Que se metem as perneiras!

Desacaba com isto!
Alista-te duma vez
E foge das fileiras!



3 – Neo-Velharias Último Modelo no Passado Recente da Antiguidade Moderna

No outro dia, aí por volta das mais ou menos, quando olhei para o mostrador do relógio avariado que tinha ficado em cima do frigorífico na casa-de-banho do terceiro andar térreo, passou por mim o Retro-modernismo. Então eu perguntei, “Eh, ó Retro-modernismo, que tal vai isso, pá? Tudo bem?”, mas o desgraçado só me respondeu “Mete-te mas é na tua vida, ó palhaço!”. E eu assim fiz, tirei a minha vida do bolso e meti-te dentro dela. Foi então que uma luz me atingiu a cabeça, quando me levantei e acertei em cheio no candeeiro da rua. Mas lembrei-me que o Retro-modernismo me tinha dito também que eu era palhaço. Raios, pela primeira vez em mais de quarenta e sete segundos senti todo o sentido da vida esvair-se-me por entre os dedos da mão esquerda como se fosse farinha de trigo acabada de levedar com vinagre para fazer uma sobremesa chilena daquelas que os aventureiros de extrema-esquerda – ou extremo-centro, que isto dá para tudo – gostam tanto de deglutir imaginativamente, em especial quando estão há mais de trinta dias perdidos no cimo dum monte coberto de neve nos Andes (ou talvez não seja nos Andes e sim nos Pares, que senão eles saíam dali) e já estão fartos de bracinho rechonchudinho de co-piloto fricassé mas tipo sushi, que é para não perturbar as aves migratórias com os confusos focos de fogo aqui e ali. Ah, senti uma angústia tão perene, tão daquelas que parece que foram lá parar e tinham fita adesiva das fortes! Ah, como era possível que eu não tivesse ali à mão nenhum narizinho vermelho de borracha, nem uma peruca encaracolada com metro e meio de diâmetro, nem um lápis de cor para sarapintar a minha face palhacescamente? Porquê? Que mal não fiz eu às térmitas que me devoraram o serrim das bolachas? Porque me chama o Retro-modernismo de palhaço sabendo que eu não tenho qualquer tipo de adereço que me permita sê-lo? Andar na rua é tão injusto… E foi por isso que resolvi ir para casa e escrever uma carta ao Retro-modernismo. Mas acho que ele não a vai ler, até porque ele não existe.


João Tavares

Poesia

Porto d’Abrigo (e um distante ermo de Saudade)


Soam clarins e tubas de doer
O adeus sem o choro da abalada,
O sem-aceno, o gesto de não crer
Na lembrança sombria e apagada.

Alados rodopios, amiúde,
Sopram a aura nas velas d’ adejar.
Roça a vaga rubra do alaúde
Que aos impérios d’ontem fui tocar.

Veleiro de promessa, d’oiro mar,
Pesa o coração desancorado,
Aportam ao cais urnas de cismar.

Cidade branca, cidade oriental,
Estrangeiro e exangue de saudade,
Sangue do meu sangue luz em espiral.


Leonel Ferreira




O Livro de Judite

Não adianta, filha!
Os alvos linhos já não me atêm,
As nossas ficções não me entretêm,
Agora só cachimbos e raros vinhos.

O que queres que te diga?
Hoje e amanhã não são o mesmo dia
E até a Última Ceia cai aos pedaços.
Já não me afagam os regaços,
Não mais promessas, não mais desvarios.

Não me comovem achaques
Todo eu sou fumo e carambola
Sou a algazarra rústica dos taberneiros
E adeus, Judite, nunca mais!
O que queres que te faça?
Não fui eu quem plantou sempiternas,
Quem jurou e desfez os votos.
Agora, quando me quiseres falar,
Aparece lá para o meio da tarde,
A ver se és mais do que aguardente,
A ver se não me agoniam teus olores de Paris.

Chora
Que as lamentações só lembram gaita-de-foles
E o rufar do tambor dos Zés Pereiras.
Hoje vou sorver o mundo,
Pregar doutrinas dissolutas,
Cantar melopeias pelo amor.
Hoje só os cálices amornam.
Hoje só absintos e talvez ardor.

Antes a campaniça, antes a braguesa,
Antes os caretos, as folias e os festins.
Mais-quero meretrizes e claros sins,
Bater violento as cartas sobre a mesa.

Lembras os versos que te dediquei?
…«Manhãs d’oiro», «luas d’ alabastro»?..
Actos de contrição…
Singelezas desfeitas pelas auras da lucidez,
Hálitos que pressinto desprezos,
Rusgas nos teus meneios abonados
Que antigamente me embalavam quixotescos.


Leonel Ferreira

Poesia

SAUDADE!

Raios de sol rasgam o céu
Como rupturas de saudade
Em meu coração teu!

Todas as nuvens de cinza pinceladas
São estripadas
Em ravinas de ar puro
Pela chuva que se sente!

Rasga-se o céu!

Rasga-se meu peito de ti... de saudade!

Rasga-se a terra em deslocações sem entendimento!

Oh saudade!
Perfuras a obediência cega
De quem não quer ser teu seguidor!
Cega!!!

Por que rasgas em mim
Um não deturpado sentimento
Que é meu Amor
Pela minha Estrela!?

Não rasgues!
Faz antes como o céu,
Que se abre em flechas de neblinas
E sorri após a tempestade
De perigos - (quando esta passou por mim)!
Por mim, que quase transparente fico
De tanta...
SAUDADE!

Martins Ferreira



O rio

O fascínio dos olhos
De uma criança
Em deleitar suas fantasias
Num pobre rio sujo,
Fazem-me sentir saudades
Do ludismo à beira-rio!

(Debruça-se loucamente
Sobre a ponte,
Atira pedras à água
E
Acha-se feliz!)

Se eu pudesse correr
De margem a margem,
Olhar para o rio
E sentir seu fluir
Sem preocupações de tempo!

Correm, correm e não param
As águas de meu rio...
(Não param!)!

Mas a vida também se estagna!!!

Se eu fosse criança,
Acredita,
Não me martirizava
A pensar em tudo isto!

Martins Ferreira



Felicidade Destinada!

As lembranças penetram
Meu pensar...

Meus olhos
Mostram o que tenho e o que não tenho...
Pareço um cadáver ambulante,
Que passando por pessoas normais (?),
Estas fogem com as mãos nos ouvidos...

Não falo...
Gemo e uivo...

A dor e a tristeza que me invadiram
Trazem-me memórias tão...
Lindas...

Sinto tua falta...
Sinto sede de teu beijo...
Sinto fome de tuas palavras...

Não me sinto!!!

O que me mantém andante e pensante
É tua palavra esculpida e cravada
Em meus ouvidos e alma:
«Amo-te!».

Choro... Choro... Choro...
Deixo um rasto de sofrimento,
Mas quase ninguém nota!

O Destino,
Com suas águas
Em movimentos seculares,
Fez-nos deitar sobre seu manto de menino,
E a nós reservou algo...
Puro,
Doce,
E ternamente eterno...
... A Felicidade!

Martins Ferreira

Poesia

A Bullet to the Brain


Between the tiny drops of rain
Hides a sweety face
And a treausery smile
Longing for my eyes.

There’s pain and solitude
Plunged on her lips,
Emptiness and discomfort
On my naked soul.


Reis Neutel

Poesia

Ah, um soneto, passo e lembro
e devagar. um soneto nesta montra
em que passamos e nos queimamos
mesmo do jogo a esconder as cartas
numa batota à emoção.

]Ai, o dia não deu em nada
o dia não deu em ninguém
e passo por este dia errado
como um passo morto nascido além[

e graças a deus que as memórias
como conterrâneas da carne,
de umas e outras apodrecem no bucho.
graças a deus que não há deus
- um copo de água por favor-
que de suas cãs comande
o coreto do lembrar.

e meu deus, a barriga, meu deus
é um dia que passa,
- uma nata quente, um enjoo-
e só não passa esta que não sei
[tristeza não será...]
com um gosto de cinza e sobras
esse fim tão claro de um cigarro
em mais um dia a desfilar.

e um dia acaba-se,
e um dia só se morre,
e um dia não dá em mais nada,
nem se levante o tapete da alma
em busca duma chave por recriar.

E eu, para que quero eu isso?
eu mesmo ter que me levantar,
e viver só amanhã
e depois sempre e depois
e um café curto p’ra despertar.

Não sei, não sei de nada,
Talvez só não me lembre,
E depois? E então?
Recusei o jornal com enfado,
puxei dos bolsos trocos do coração.

]levo nos meus passos a ideia vaga de um querer
chuva e de um soneto e do mar
a que limpo os pés sem chão.[

Et tu, a quem a memória é curta,
mas a vergonha não,
não te ocorra olvidar-se-te o talão.


Ruy





lembro-me de por vezes da imortalidade
e de deus em pequenino,
e de como de unguento um feixe
de nervo fluindo-se marcheta-me indestino.

e queria que este instante para sempre acabasse
da minha vida em cada momento

e queria que este de sempre ficasse
de mim constante onde acabar movimento


Ruy




noto que me engano. será normal.
porventura algo que o não seja
será isso também natural. que ponto
sem nós nos quilómetros, o meu porto é uma onda
- espuma antecipando-se invisível -
ao furor da excitação.
luz e não há sol.


Implausível fortaleza
- sinto-me eu mas não parte de mim,
não estou.
talvez fechado demais tempo
o meu cérebro exercita-se,
excita-se - impensável solidão de espuma,
o tempo foi parado [ferido em ser eu]


o que se há-de fazer?
e é assim que sigo, confuso, fluindo,
na aparente interestelar solidão do asfalto,
sísifo embalado na condição de objecto,
abjecta vastidão do circular. – Talvez

seja este o meu início
(e que é que há que se possa?)
já nem sei se ouço ou digo
ou consigo dizer o que sei ouvir,
talvez eu, num eu final. ponto.
É o abrir do pano mas a peça foi lembrada.


ponto afinal venho-me impoluto impensável
da orgânica do impossível.
Levanto-me pela gola,, pronto, talvez agora um cigarro,
- apesar de nunca nem um sequer -
agora que se foi o interesse no fatal,
no desfecho inconclusivo e vulgar.

e podia tudo começar agora
sem que houvesse esta importência
- e sem espuma uma vénus inclemente
começasse do início,
e inicio um começo
ponto


Ruy



O nosso amar, amor,
tem do lúcido das estrelas o estertor
e o marulhar límpido de um rio de chão


Ruy




Hoje não me apetece
não me apeteceu
sei lá,
porque sei que se
me apetecer
então já não há.

Hoje não, não, não.
Não me apetece, já o sei
porque o sei hoje,
e se me apetece
amanhã não há haver


Ruy




Requerimento prescrito de um coronel antigo à melhor amiga da neta querida


tu que és boa, bonita e boa
e eu que sou bêbado só e bêbado
e que já me tenho encontrado
na posição de dar pela falta de alguns dentes
(embora ainda de pêlo sedoso
e basculagem engrenada);

eu, que me parece que me sai uma
borboleta do peito se te vejo como aqui
sem tu reparares,
eu, que já vi muito mais do que verei
e eu que nunca vi nada assim,
quando tu, bonita e boa me pontapeias o coração,
ergo o pálio e segue a procissão;
por mim acima um cravo sem abril na solidão

que ele há-as muitas por aí
mas eu só te quero a ti,
uma companhia, um encosto só,
alguém a quem esfregar as costas,
alguém p’ra me sacudir o pó;
quando, de repente, se me esquece
a idade e a dor e te pergunto,
por entre os óculos e as barbas
e as rumas e demais trabalhos,
se não queres, por favor, ponderar em fazer amor.

Transmitido por Ruy

Poesia

A Sentença


O homem em cima da duna
Olha em silêncio o mar
Aguarda uma resposta
Que sabe nunca chegar

O homem de rosto ao vento
Escuta o marulhar da maré
Vê as ondas a recuar
E a levarem-lhe a fé

O homem ali parado
Não tem lágrimas para chorar
Choram por ele as nuvens
Que se desfazem no ar

O homem ali quieto
Tem o rosto molhado
É do crivo impiedoso
Do chuvisco salgado

O homem de esperança desnudo
Sente os cabelos voar
Parece que não têm medo
Da tempestade a chegar

O homem que já foi menino
Costumava brincar na areia
Agora vê tudo cinzento
Duma tonalidade feia

O homem que já foi rapaz
Recorda uma velha canção
Dissera-lhe o Pai – Essa moça
Vai ser a tua perdição!

O homem que já foi marido
Costumava sorrir e gostar
Quando a esposa lhe dizia
Que sempre o iria amar

O homem que acordou ontem
Toda a vida o abandonou
Quando leu a carta breve
Da mulher que o deixou

O homem ali na praia
Ouvia muito o avô falar
Um dia o avô disse-lhe
- Ao morrermos vamos para o mar.

O homem que de despede
Mais que nunca acredita
Que o seu velho avô
Tinha ciência infinita

O homem que agora se afoga
Admite com perfeita indiferença
- Vamos para o mar ao morrermos...
E cumpre-se a sua sentença.


João Tavares





As palavras


As palavras são segredos

São sons mágicos que alguém se lembrou de inventar
São poder para quem as souber usar

São ilusões de sentidos nunca tidos
São vontades de acabados significados
São rumores de conspirações comunicadas
São queixas em mil doses replicadas
São dogmas do saber e da razão
São bálsamos para o enamorado coração

As palavras são tudo e mais alguma coisa

Elas são pronúncia e entoação
Elas são mentira e traição
Elas são ataque e investida
Elas são vergonha incontida
Elas são medo e terror
Elas são arrepios de calor

Mas afinal o que são as palavras?

As peças funcionais de um sistema
As partes constituintes do lexema
As somas deste e daquele fonema
As vitórias em cadeia do morfema

O cheiro que não cheira da alfazema

O registo em pormenor do impossível
O pôr-do-sol que nunca se viu
A neve contada aos nativos da Nigéria
A dor de parto que nenhum homem sentiu

As palavras são o fogo do Olimpo
E o tesouro perdido dos Templários
E a arma secreta dos Atlantes
E a estratégia preferida dos salafrários

As palavras são o doce sabor do mel
E o amor que se jura e se promete
E os nomes que se dão a quem se quer
E as desculpas quando se apanha um frete

Em resumo
As palavras são...

...não tenho palavras.


João Tavares

Citação

“A medida do amor é amar sem medida.”

Santo Agostinho

Prosa

A fé da ausência


Durante anos fui como um livro ausente na estante, junto aos outros livros. Pensava que teria de reescrever as linhas em branco com tons suaves da imaginação. Mas deparei por mim sem saber sonhando que não mais sonhava. Entre o esquecimento e um copo de tinto tudo se esvazia, até mesmo uma vida e talvez a própria morada das palavras.


um pouco de tudo e muito de nada
Quando a angústia estiver reduzida a apenas uma ponte estanque entre cidades e vales que se espraiem nas declinações dos olhares vagabundos. Aí sim, teremos as dunas para viajar pelo horizonte das nossas certezas e um falso sopro no corpo fendendo as ondas geradas numa melodia fraterna. Segui a noite como um traço da sua descendência. Os nossos olhos não tinham fronteiras. Todas as visões foram já percorridas além das horas de sono e de um amor sem antecedentes que não conheço e trago preso às correias do espírito.

*

O compasso do relógio bate sempre certo. Mas às vezes no termino do sono, há um bater de asas adormecendo no crepúsculo dos sonhos e aí relembro a alteridade de mim. Na dispersão do labirinto encontro-me a sós com a vertigem do teu olhar e permito à alma abraçar a tua sombra. A sede que perturba os lábios de não cessar de amar. Misturo as cores do desejo. Beijas-me num longo suspiro. A tua boca suspende o pulsar da minha. Segregas-me ao ouvido, como era bom não teres morrido.

*

Ainda repousas, é claro!
Que despedidas dilatam as lágrimas que escolhemos para assassinar o coração?
Desprendem-se os sulcos das fecundas avenidas. Tudo não passa da razão que marcha ao sabor dos dias, ocultando o silêncio matiz, descrição daqueles que riem sem demora. Pobres que habitam o objecto do seu esquecimento. Já não sei sonhar! Já não sei matar! Já não sei morrer se não num palco agraciado por um candelabro, um quadro, intersecção de um outro movimento incompreendido, de uma chávena estilhaçada (já não me serve de nada), de um relógio que apenas dita as horas em consonância com a luz ao fim do cárcere. O mundo escondido num sótão, em qualquer página onde possa reclamar para mim os instantes em que enveredo em meu próprio nome na loucura de todos os outros. O sótão, sempre o sótão, perdido na minha indiscreta presença ausência. O sótão onde posso divagar as chamas a confluírem nos ângulos da comédia humana. Se fosse um corredor trespassado por múltiplos sorrisos, lágrimas, tristezas agitando os passos dos transeuntes, a realidade debruçando-se no prisma da minha consciência, um novo rosto para expressar todos os sentimentos sem gesto, a negação das margens sem carimbo das histórias da infância. Talvez pudesse representar os semblantes dos retratados no vão do pensamento, mas não sei o que representam. Talvez projectem a sua própria alienação de existir. Não penso! Deixo isso para a inconsequente sombra da vida. Sou tão vazio, que me limito a pedir à Noite um percalço rápido ou um desembarque nos subúrbios suplícios abandonados da ferida do coração ao som do desespero que o caminho aperta contra mim. Como se tudo bastasse, até o deslizar de uma porta rente ao acaso de uma paisagem desfigurada.


Clarão
No sótão das memórias lá estava ele rasgando a vertigem dos dias, ou o desfolhar das horas sobre a mesma avenida de cetim.
Teclando no mais macio das tempestades. Falhaste o assalto de ti mesmo. Contas as feridas às nuvens de ácido, somente, elas te escutam no intervalo da ausência, talvez, te respondam — Sim. Só estás à espera que o mundo acabe, bem depressa para poderes voltar para o nó dos teus sentidos e daí abarcar o ocidente conserto dos nossos receios. Não é nenhum segredo apelares para te ouvirem dizer que o horário da meditação termina onde o mar começa, onde a noite frígida interrompe com estalidos a ceia de todos os prazeres. Sim, eu sei que ele foge do atrito inadiável dos ?’s que correm ao amanhecer da primavera sobre os lábios atordoados da emoção. Roçam a eternidade, negam a realidade
A cura, morte, a dor que vai gemendo ao acaso nos degraus de quartzo.

Tu só vives dentro de mim na fachada de meus sonhos.
Os teus lábios são poesia,
São consolo na dormência dos sentidos,
São silêncio vertigem, quando as palavras se calam, Setembros adiados não pronunciados.
Talvez,
(Eu vivo em ti e somente tu podes viver assim).


Reis Neutel

Prosa

A Lírica dos Caminhos-de-Ferro


Ouves este som arrastado e violento? Ouves os interstícios entre as casas, aquelas vedações gradeadas respirando o ar quente dos motores; as amplas clareiras que se estendem até aquele amontoado de juncos na base do monte? Ali. Olha. Ouves as águas do rio fluindo ante a velocidade orquestrada e metálica sobre os carris? Ouço um túnel. Sim, ouve-lo porque o túnel ganha vida assim que por ele irrompemos aos assobios e arranhões de ferro. É um arrastar pesado que sorve tudo em sua volta. E este abrandamento? Há-de levar-nos ao apeadeiro de Nossa Senhora das Dores. E depois? E depois até à volta. Não mais a colisão serpenteante do som e da matéria entre a ondulação dos pinheirais. Só eu e os meus passos inofensivos, sem o desvendamento dos prédios, dos seus estendais, das suas cortinas rendilhadas, das nódoas escuras nas fachadas. Só eu e uns míseros sapatos que hei-de deitá-los ao lixo não sei se tarda muito, assim que receber uns trocados para gastar noutra coisa que não no som da locomotiva a rasgar, a alancear, a refender, a decepar a paisagem e a levar-me ao apeadeiro de Nossa Senhora das Dores e, por uma vez ou outra, a Travagem – a voz vítrea destilando o destino «Próxima paragem: Travagem» - o que me levou em tempos a rir e hoje a sorrir, mas já muito frouxamente, desta paragem: Travagem. Ouves? Sim. Ouves esta voz feminina, nunca obrigada a gritar para que parem o comboio, para que esperem, para que se demorem e meneiem, assim, de um momento para o outro, o destino de não sei quantos passageiros.
Então nem só de som vive a máquina? Não, evidentemente que não. Vês aquele velho com uma mão agarrada ao arrimo da entrada do comboio e outra pousada na anca? Há-de sentar-se ao nosso lado, há-de roçar a manga do seu casaco nos nossos. E então? E então sacode os braços, inspira o ar todo duma vez – um buraco negro a sugar a matéria, a sugar os passageiros, a sugar o comboio, a sugar as linhas, a sugar as vedações gradeadas e aquele armazém de blocos de cimento – para depois deixar escapar tudo isto contra os nossos narizes. E nós sustemos a respiração… sim… Sustemos como se a nossa vida disso dependesse; como se estivéssemos debaixo de água, no tanque do Sr. Américo, nos dias de verão, a mostrar às cachopas o fôlego dos pulmões, a ver se as convencíamos a mostrarem-nos o seu debaixo dos lençóis – mas não adianta, que o velho há-de expirar o ar estaremos nós ainda a inspirar sofregamente, diante da impotência pulmonar. Mau presságio. Mas é só? É o começo. Depois, o cheiro a formol a entranhar-se-nos na pele, o perfume – frascos gigantescos, banheiras e saunas de perfume importado dum país onde só crescem ciprestes – um cheiro a círios a enfaixar-se nos sobretudos, polvilhos de laca ressequida a esvoaçarem por sobre as nossas cabeças, germes e micróbios ricocheteando nos vidros já turvos da respiração monstruosa daqueles pulmões que não acabam nunca. Bom… não era tão mau como me dizia, mas é realmente mau. Mudemos então de assunto. Esqueci-me do guarda-chuva e está-me a parecer que hoje vai chover.

Leonel Ferreira

Prosa

Pequenos Porquês

O que é isto?... O que é isto que não sei porque nem como é?... Porque não diz nada?... Porque não diz nada... Porquê?... Que coisa é essa que não sabe que é, que sabe sem conhecer porque procuro saber dela meu ser? Porque sabe ela o que tão-pouco julga conhecer, de mim, deste sofrer e da alegria desalegre de morrer?... Quem a pariu?... De que canto do mundo emerge essa vida que tudo de todas sabe, no antes e no acto, no futuro que a cauda do passado toca sem que lhe mesmo toque como eu queria? Queria? Assim o podia ter feito naquele acto que foi futuro antes de passado passar a ser, queria?... Que vida és, tu que todas as coisas perpassas sem ferires o que é por natureza ferido, na razão de não sentir que o libertam do jugo de ser livre, de em ninguém nunca poder delegar a razão do que se é? Que liberdade me dás se toda a que tenho é a leviandade de julgar que decido de mim quando afinal me decidem essas coisas que delas nada decidem, que, delas, nada decidem, que, por sua vez, delas nada decidem, que, por fim (ou início?) elas mesmas, são uma decisão? Cais-me aos pés húmida e provocadoramente ao ritmo do meu questionar-te. Respondes-me com véus, dás-me um estranho ser com a máscara das subjugadas coisas do mundo, não me dás o que não posso nomear pela razão de não mo teres dado. Porque agora me é dado tão pouco, se tanto antes recebi e se menos me faria mais não ter querido, por mais que este menos não ter conhecido?... Porquê?... Porque o digo desejando não o poder fazer? Porque olho e movo uma energia que não quero mover, mesmo que só do meu querer, do meu escrever dependa? Porquê?...

André Faia

Prosa

Revés

Amanhã adormeci e levantei-me. Despi o pijama e fui para o quarto, após o que puxei o autoclismo, sorri de satisfação e reavi os meus detritos liquefeitos. Fechei a torneira do lavatório e devolvi toda a pasta de dentes ao tubo, imediatamente antes de ter fechado a tampa o tempo suficiente para a espuma se começar a deformar na minha boca. Foi então que acabei de jantar, o que não demorou muito tempo, pois nem quinze minutos antes já tinha começado. É claro que fui logo a correr tirar a lasanha do microondas, porque pouco tempo antes tive de a meter lá dentro para cozer. Ah, e pensar que mal tive tempo para tirar o casaco, fechar a porta e chegar a casa... é que lá no trabalho as coisas estavam a acabar tão bem antes de ter voltado para cima, para o escritório, e ter-me despedido de toda a gente... depois, o costume: inspirei de novo todo o fumo dos meus mais de vinte cigarros do dia e vi como cada um deles se refazia na minha boca, lentamente, à medida que o fumo etéreo se materializava e condensava para se agarrar e reconstruir o cilindro branco incandescente, até começar – sim, eu bem sei, cada vez que chego ao princípio de mais um cigarro estou um bocadinho mais saudável... fazer o quê? Por este andar, há dez anos atrás comecei a fumar. Mas aonde irei eu? Ah, pois, o escritório... aí por volta das 16h37 – lembro-me tão bem a que horas isto vai acontecer – chateei-me com o gerente da loja. E não é que antes disso o tipo vai e faz asneira? É verdade, nem dava para ele deixar de a fazer, já que eu estava chateado e estava... bom, mas do mal menos, uma vez que imediatamente antes ele não percebeu o que lhe tinha pedido porque se enganou a fazê-lo, pelo que eu lhe pedi para ele fazer uma coisa lá na loja. Enfim, vá a gente esperar que elas apareçam feitas e antes disso querer as coisas bem feitas... não foi sem algum alívio que me senti frustrado e dei por terminado o almoço, o que até nem foi mau, pois haviam de ver a vontade com que eu devolvi todo aquele frango semi-cru para o prato, bem lentamente. Dei graças aos Céus quando comecei, é claro. Já devem estar a adivinhar como foi a manhã... uma pasmaceira do fim até ao princípio, que nem sequer me livrou chegar quase cinco minutos atrasado, pelo que tive de sair do carro a correr para ir para casa pela via-rápida que, como é mais que óbvio, estava congestionadíssima. Mas lá consegui sair de casa, desfazer todas aquelas coisas que os comuns dos mortais desfazem antes de começar o dia e lá acordei, meio sobressaltado, antes de voltar para o sono profundo no qual havia caído inapelavelmente logo à noite. Bom, agora espero sinceramente que o dia de ontem me tenha corrido melhor. A ver fui...

João Tavares

Quinta-feira, Fevereiro 08, 2007

Número Quatro

Editorial


Um Deus Menino

No auge da Técnica, uma das últimas disposições humanas diz respeito ao gosto pela parcialidade. De actos criativos emergem instrumentos notáveis que parcializam actividades ordinárias, facilitando-as. Ainda bem para o homem e para uma urgente necessidade de esgotar o tempo diário dispendido com elas. A obsessão pelo método científico do especialismo desenfreado é, todavia, tanta, que o método varre mentalidades de áreas que sendo únicas, único modo de viver deveriam ter. O especialismo científico está a transformar-nos naquilo que estudamos. Que estudamos precisamente por nos julgarmos capazes de generalizações avaliadoras. Generalizações avaliadoras que fazemos por sermos mais do que aquilo que estudamos. Não gosto deste carrossel, é feio e tem bicho.
Um prato serve para comer, uma faca para cortar, uma caneta para escrever, uma cadeira para sentar, um bolo para comer e o homem não parece descansar enquanto não etiquetar exclusivos serviços e capacidades como estas nas pessoas.
O especialismo doentio a que hoje assistimos em tudo quanto cheira a humanidade, inclusivamente nas letras, mais não é do que sinónimo de um leviano desejo de incompletude. Não aceitação, nem admissão ou resignação, mas desejo. É a recusa do renascimento, do homem multifacetado, múltiplo. Destrói-se a totalidade que nos é intrínseca, com que partimos quando nascemos. Hoje quer-se não um ser que cria, mas um ser que realize particulares serviços com a mesma eficácia com que o Excel realiza aquilo para que estava programado. Eu sou o Excel e sou realizado pessoalmente, troque-se Excel por um humano nome e é para isto que aponta o dedo do progresso. A evolução da involução. Corro para trás pensando que corro para a frente, sonho atingir um topo que é topo porque o vejo de cabeça para baixo, vejo um topo que afinal é abismo. Urge redireccionar consciências. Não sendo uma máquina, o homem procura agir como tal, o mesmo sucede inversamente, ainda que por razões diferentes. A este desejo de cientificidade da vida lhe respondo de soslaio, a vitalidade tende a evaporar, a vida sentida com verdade é rejeitada por um dos seus filhos maiores.
Entre ser tudo de todas as maneiras ou ser um algo de uma só forma o Progresso acolhe o último. No dia em que o homem fechar as portas ao poeta inteiramente à solta, morre. Isso tenta o mundo hoje, isso tentaram filosofias europeias encerrando sentidos numa qualquer vesga perspectiva, baseada num qualquer vesgo método. A tradição especulativa portuguesa pode aí ensinar, pode ensinar a querer aprender. Pode porque se libertou das etiquetas, porque especula poeticamente, porque num nietzscheano movimento é poeta e filósofo, vivendo paradoxos ao ritmo de um verso. Pode porque não totaliza o que é parcial. Pode porque o seu Deus é menino! e é terra! e é espírito! e é sangue! e tudo quanto não exista!
O seu Deus, o Deus do poeta-filósofo, é tudo e é nada, e tudo não quer nem sabe não ser, sabendo que tudo nem ele é.
André Faia

Prosa

Máximo Expoente: a partida

A música é a suprema arte, a arte pela qual rezo todos os meus dias.

O palco. Olhamos uns para os outros. Fitamos o público. Sinto-me nervoso. Respiro fundo na ânsia de um alívio, nem que efémero seja. Nem uma única cadeira vazia contemplo. O burburinho… trocamos olhares e rimos ao ritmo da afinação das cordas. Estou pronto. O que sinto? Meu estômago aperta-me na clausura da minha condição. O auditório cala-se. O maestro dá sinal.

— “Nunca serás ninguém!”

— “O que procuras tanto no mar, filho?”
— “O mar impressiona-me, mamã. Às vezes, enquanto dormito dialogo com as ondas e silencio a minha dor da partida.”

O que é para ti o mar ? O que nele vês? “O Mar de Debussy”, alegre e sinfónico ou, o desespero melódico de Chopin, ou será antes a nostalgia de Mahler que te trespassa? Flecti as cordas com os dedos hirtos, pesados, alheado do mundo em volta. Era eu, somente eu que girava os contornos do mundo, a partir do meu violino. Ao mesmo tempo era palco e auditório da minha própria agitação interior. Fazia deslizar a crina do arco suavemente. Com pressa por não deixar exaurir a recordação. Não só as cordas vibram, mas também meu corpo, meu pensamento.
— “Meu filho! Assusta-me a ideia de poderes seguir a vida do teu pai. Não quero que vás para o mar. Promete-me.”
Não podia prometer, o que não podia controlar, o que já nascera comigo.
O mar viu-me nascer. O mar era tudo para mim. Nas suas águas desdobrei meus sonhos e meus desânimos. Agora a melodia vibra nas cordas do meu violino. A música palpita-me no coração. O mar da tranquilidade, a música do contentamento unem-se no meu coração soltando um grito mudo em uníssono.
Ofereceste-me aquele primeiro violino, singelo e doce. Debrucei-me sobre ele como se de um bicho magoado se tratasse. Como o faria funcionar? Teria uns oito anos. Não tardei muito a desafiar a firmeza das cordas, a testar a minha ignorância, perante tal artefacto enigmático. Mal sabia eu no que haveria de acontecer. Querias que ele fosse o ponto de partida para uma nova existência. De certo modo, aquilatavas a esperança de um afastamento do mar. O novo brinquedo rugia feroz. Exasperava-me. Mas não desisti. Acreditavas convictamente que eu não seguisse os passos de meu pai. Lembro-me que cada vez que tentava soletrar o meu mundo, através do brinquedo, ele me ordenava para estar quieto. “São horas do noticiário! Pára com essa mariquice, se não... Irra não tem jeito para nada.”
Meu pai... . Em mim não há indiferença. Nunca fui indiferente à vida, sobretudo à minha.
— “Não serves para nada. Nunca serás nada porque és inútil, és indiferente. Jamais vingarás, jamais.”
Eu cerrava os olhos para não chorar. Queria manter-me forte, mas era um fraco. E fraco fui até muito tarde.
Quando era criança perdia as horas esboçando as ondas nas íris dos olhos. Debruçava-me sobre os penhascos e abraçava complacentemente o mar. Fingia mergulhar até ao derradeiro e silencioso sepulcro das marés. De repente, viria à tona, rompendo com estrondo as ondas de cristal. Enchia as palmas de areia escorregadiça e contava cada grão até me esquecer do número em que ia. Lembro-me de permanecer mudo esperando o por do sol. Imaginava histórias para os meus sótãos escuros. Esperava ansioso o regresso do meu pai. Ele era pescador, pescador como poucos. Todos os dias às cinco e meia da manhã adentrava-se na escuridão com o seu pequeno bote, na companhia de cinco amigos.
Mas um dia fartei-me de esperar, a minha sombra vazia foi acordada pelo passos rápidos e sôfregos do meu irmão. Pegou-me pela mão e levou-me para casa, sem palavras. Observei-o durante o caminho. Manteve-se calado o tempo inteiro. Não trocou nenhum olhar comigo. Estivera a chorar? Pressenti que algo não estava bem.
A nossa casinha parecia iluminada por uma áurea de tristeza. O meu irmão bateu ao de leve na porta. Ouvimos passos lentos e pesados. Algum burburinho, uma cadeira caiu. Finalmente a porta abriu-se, pude exalar um cheiro forte a rosas e tulipas. Entrei primeiro. A minha avó Maria desviou a face, um momento. Não quis olhar para mim. Era o fim. Lá olhou para mim, enquanto me apertava com força as mãos, ainda ásperas da areia e do sal. Levou-me para a sala, sem delongas. Virei a face ao encontro do meu irmão, que se mantivera agarrado ao fecho da porta. Vi lágrimas nos seus olhos. Na sala vislumbrei um grupo de pessoas que não conhecia. Alguns vizinhos. E lá estava a minha mãe, segurando ao colo os meus dois irmãos mais novos. Tinha estampado no rosto a cor do desespero. Desatou a chorar logo que me viu. Abraçamo-nos durante muito tempo. Não era necessário dizer o que acontecera. Os minutos tinham passado, o alento perdera-se. Sabia que o papá não voltaria.Regresso, agora, muitos anos mais tarde a um limiar da minha própria essência. Toda a minha infância atravessa-se à minha frente, perante o olhar de desconhecidos. O grande Vivaldi, reveza os “Caprichos de Paganini”, sou a alma do maestro, primeiro violino, e a chuva inunda o mar e eu reteso as cordas para pronunciar a água que volve do céu. Todavia, estas são as lágrimas impronunciáveis que velo por minha mãe.
Reis Neutel

Prosa

A “NUBE”

Os motores rompem o ar em reviravoltas trémulas e fazem-na subir ao ponto mais alto da aldeia, aos altos onde ninguém põe a vista, à excepção daquele ditosa semana em que por ali se apeia a máquina dos céus. Os motores são o orgulho daquele homem que passeia olhando o alto, sempre enfadado com as cores azuis do altíssimo, sempre dulcificado pela alegria dos seus clientes ao romper a atmosfera nos anis dos céus; no sopro multicolor que engelha os cabelos das adolescentes, lhes levanta as saias, lhes destapa as barrigas; o mesmo hálito da tarde que descompõe o cabelo dos homens de idade, que faz lacrimejar os olhos dos pequeninos; o mesmo turvo éter como se fracturado aos pedaços e aros de cristal.
Os miúdos juntam os tostões ao cobro das pastilhas elásticas que não mascaram semanas a fio, roendo as unhas durante a décima quarta jornada, a décima quinta jornada, a décima sexta jornada, a décima sétima jornada – entorpecidos pelo folar dos padrinhos, acorrem à maquina astral, de mãos estendidas para a bilheteira e afirmam que foram os primeiros a chegar, que dinheiro não é coisa que lhes falta, ameaçam que não ousem porem-lhes as patas em cima, caso contrário não respondem pelos seus actos, pela autoridade do folar. Já se imaginam no escritório do advogado da cidade, com o folar dos padrinhos sobre a secretária, puxando dum cigarro pago com o mesmo capital, demandando a justiça, a razão, a equidade, a igualdade, a máquina etérea rompendo as nuvens dum final de tarde.
Os motores continuam a fustigar o ar em polvilhos sonoros que se estendem asperamente, numa zoada aguda que se expande em espectros e espirais voláteis dançando pelo ar, pousando nos sentidos dos transeuntes. Só os miúdos dos folares dos padrinhos sobre a secretária do advogado da cidade observam a engrenagem do aparelhamento, pensando que há-de chegar o dia em que serão donos de algum automóvel sussurrando safanões mecânicos pelos trilhos da aldeia. Talvez nem fosse má ideia saltar da máquina etérea e exigir o reembolso do folar, poupá-lo durante as trinta e duas jornadas da próxima época e juntá-lo aos folares que aí virão, no intuito de comprar um automóvel usado e abusado, daqueles que o Carlos leva para as corridas de ferro-velhos e sucatas, excitando a voz das meninas mais crescidas. O Carlos haveria de ver quem conduz melhor. O Carlos arrepender-se-ia daquele ar pimpão a levantar a taça patrocinada pelo salão de cabeleireiros da freguesia. O Carlos baixaria a bola nas conversas de tasca; já não apoiaria um cotovelo no balcão, não mais esquecido da cerveja na mão esquerda, não mais levantando o indicador da mão direita, não mais arranhando propositadamente a voz, não mais balindo ao imitar a voz do segundo classificado, não mais as pausas no discurso para emborcar um gole de cerveja e molhar a garganta até os olhos se lhe gotejarem numa vermelhidão ébria.
Os miúdos dos folares dos padrinhos sobre a secretária do advogado da cidade esquecem as corridas dos ferros-velhos, sucatas e chapas quando atingem o cume da aldeia, acima do sino da torre da Igreja, e lhes é dado ver o deslumbramento mecânico que se espraia numa fila interminável de automóveis; a uns oitocentos passos diz um, a uns oitocentos e dois passos diz outro, a uns seiscentos e trinta e quatro passos diz ainda um terceiro. Quando o maquinismo desce, apertam todos a barriga, puxam e repuxam o rosto, adivinhando as rugas que hão-de vir, se Deus quiser. E ao atingir de novo o topo do mundo, apontam para aquela muralha de chapa viva, de chapa ardente. Não lhes sai palavra alguma num momento, falam todos ao mesmo tempo num outro. Primeiro a face de espanto, depois o rosto retorcido que leva as mãos à barriga – parece que o estômago fica alojado na garganta ou vai alternando de lugar com o esófago. O cheiro das folhas das árvores infunda-se pelos narizes no momento da descida, emaranhando-se no polvilho desprendido pelo sapatear estrepitoso da multidão.
Chamam-lhe «a Nube». Uma nuvem que desenha círculos no ar, esboçando aros etéreos. É uma das atracções da feira, embora se não possa dizer que é a «grande atracção», pois, tradicionalmente, os Carrinhos de Choque conquistam os cuidados da grande parte dos foliões. Não quer isto dizer que, num ou noutro ano, as coisas se não acomodem de tal forma que uma outra distracção seja considerada a mais popular, devendo-se essa reputação a causas desconhecidas e, quem sabe, fruto da contingência. Mas «a Nube» é, desde há alguns anos, uma inquestionável atracção da feira.

***

Enquanto aquele ponto negro, desenhado no Sol, ameaça vir na sua direcção, traceja o rosto assustado e une as mãos para se proteger não sabe se da luz se da possibilidade do embate. Ouve-se depois o tinir dos ferros no chão e a réplica estusiástica da plateia.
«Ao poste!»
Surpreendido com os caprichos da Física, limpa o suor que não tem na testa e bate com as mãos em sinal de protesto. O ritual, herdou-o nas tardes de domingo, a apertar as mangas do casaco do pai para não se perder no meio da multidão e a ouvir-lhe a voz grave, gravíssima, a entoar contra as mesas, cadeiras e guarda-sóis das esplanadas por onde passava:
«Não, não, o Gomes sim, o Gomes é que era!»
O Gomes poderia ter sido, mas quem o levava ao estádio era aquele guarda-redes a bater com as mãos, a esfregá-las e a cuspir-lhes, como o avô, quando dava uso à gadanha. Aliás, o som da bola a ferir as redes lembrava-lhe o desbastar das ervas sob a inclemência da lâmina; e quando estava com o avô, impunham-se, sempre, no espírito, duas possibilidades: a gadanha ferir, num impacto súbito, um qualquer animal escondido no resguardo das ervas; e o cheiro do campo de futebol ser uma reprodução muito aproximada daquele que se instilava no corpo e que levava para casa no verdete denunciador dos joelhos das calças.
A baliza da escola, essa, não tinha rede, de modo que cada equipa mantinha sempre um rapazola, metade espião metade instigador, a vigiar os alvos. Isto apesar de a utilidade destes fiscais ser mínima, visto a equipa contrária desconfiar sempre dos seus cálculos e intuitos quando gritavam:
«Entrou, entrou que eu vi!»
No caso, toda a gente viu e ouviu o lance. Bola no poste, pontapé de baliza.

Na papelaria não havia cliente mais criteriosa do que a Joaninha. Os papéizinhos amarelos e enfeitados com aqueles ursinhos grudados a um balão que nunca estoirava; as folhas balsâmicas cujo fundo camuflado desvendava, timidamente, uma menina com uma saia um pouco acima do joelho, levando o pai a exclamar sigilosamente: «Ah caralho!»; esferográficas concorrendo com a impetuosidade de bombardas napoleónicas, reunindo variadas cores emanando um odor que se lhe entranhava nos dedos; pisa-papéis cinzelados, esculpidos, esgravatados, imitando o sorriso obscuro de uma meia-lua; tesouras cujas pegas plagiavam olhos agigantados, embuçados por pestanas ameninadas e maquilhadas; anões risonhos escondendo um afia lápis cujo orifício, não se sabe se por virtudes caprichosas do destino se por lascivos intentos fabricadores, substituía o rabo em falta, levando os rapazes a rirem sempre que a Joaninha introduzia o lápis no anão sorridente; lupas com pálpebras pintadas à mão; porta-lápis desvendando complexos proscénios campestres; mil lápis de cores cuja existência o pai ignorava; marcadores, compassos, réguas, esquadros, lápis de minas e respectivos porta lápis de minas e porta minas, agrafadores, fita-cola, encadernações cintilantes e um mundo de objectos que transformavam o quarto da Joaninha num recanto florido, rivalizando, pelo menos na sua opinião, com os mais sumptuosos aposentos das mais excelsas rainhas.
E foi neste ingénuo éden-creche que a Joaninha escreveu a sua primeira carta de amor.
A importância da carta não se encontrava no ideal do amor, pois nem sequer passara ainda pela cabeça da Joaninha o esboço do primeiro beijo; nem tão-pouco o conteúdo reflexivo da carta preocupava o seu ainda cândido entendimento. A essência da carta, mais do que a ontologia, era o grafismo propriamente dito. A caligrafia, o perfume e o desenho da folha figuravam a grande inquietação da Joaninha. O texto, em si, era curto e incisivo; uma única frase desvendando todo um coração
«Gosto de ti»
E depois, evidentemente, a hipótese de concordância ou refutação. Uma simples questão:
«E tu, gostas de mim?»
Seguida de dois quadradinhos meticulosa e pormenorizadamente desenhados, sobre um dos quais o seu herói teria que assinalar a sua sentença «Sim/Não»

Sob o ressoar exaltado da multidão, bate no ombro do seu defesa central
«Bamo’ lá, caralho!»
E o professor de Educação Física olha-o de esguelha, leva o apito à boca e assinala grande penalidade.
Multidão indignada com o juízo do desajuizado juiz sem contudo expelir palavrões, que o Director Executivo tem por hábito desafivelar as calças para flagelar as carnes pudibundas dos alunos.
«O que é que eu fiz?» pergunta um
«Foi casual!» afirma logo outro
«Disseste um palavrão» retorque peremptoriamente o árbitro
«Vai buscá-la ao fundo da rede» já exclamam reflexiva e reflexamente os oponentes.
«Quem é que disse o palavrão?» perguntam todos em uníssono ainda que não métrica e matematicamente uniformes.
«O Eduardo» aponta o dedo acusador do árbitro.
«O que é que eu disse?» questiona esganiçadamente o Eduardo.
«Aquilo que acaba em alho» avança o pudor lustroso do árbitro.
E todos riem timidamente da sílaba, subitamente arguida num julgamento que lhe é insensível.
«Querem matar a nossa equipa!» ecoa numa voz aflautada e longínqua.
«Disseste “caralho”?» pergunta o Manuel
«Tino!» adverte o árbitro enquanto faz a sinalética ameaçando o cartão amarelo.
E o Eduardo, de braços pendendo já sem o vigor do herói e semideus do Estádio cheirando à erva desbastada pela gadanha, tomba diante da culpa
«Disse-o inconscientemente e sem pecado…»
E gera-se um silêncio de absurdo a palmilhar a consciência de todos quantos assistiam ao jogo. O árbitro deixa escapar o apito da boca, olha entre dúvidas o rosto magoado do Eduardo e toma a última resolução
«É pontapé de baliza»
E a multidão responde com o rumor habitual de uma plateia de raparigas e rapazes envaidecidos com as suas equipas, como se nada tivesse acontecido, como se a voz da Joaninha não tivesse silenciado ante a sentença abrupta e despropositada do juiz de jogo.
A Joaninha grita por cima dos ombros das amigas e o Eduardo responde com uma cuspidela meticulosa sobre as luvas de guarda-redes profissional; a Joaninha suspira a cada defesa do seu herói e o Eduardo limpa o nariz à manga da camisola com o patrocínio dum Stand de automóveis; a Joaninha vibra a cada remate e não adivinha a determinação com que o Eduardo há-de desenhar a cruz na opção «Não», sem sequer ter cheirado o perfume, sem ter contemplado o desenho do ursinho e as cores garridas da carta, apressado que estava em participar num simples jogo de dois contra dois, constantemente interrompido pelos passar apressado dos automóveis na rua, mas onde podia bradar a pulmões cheios
«Bamo’ lá, caralho!»

***

A toalha sobre a mesa
o prato, os talheres, os copos, o jarro da água, a cestinha do pão, o pão de centeio, os guardanapos
uma nota de dez euros sobre um pires
eu sem apetite
a dar estalinhos no copo, a ver a água revolvendo em pequenos afluxos serpenteantes
eu sem apetite
a atirar as migalhas do pão contra o jarro da água
as migalhas do pão ricocheteando para o chão, pisadas por mil pés no frenesim da festa

aquela frase ressoando nos meus sentidos:
«Tem cara de pobre»

Eu sem apetite
A não ver os rostos dos outros anos, a não malquerer a estupidez humana, a não responder a pergunta alguma, sem dar indicações, sem responder a comentários sobre a corrida de cavalos.

«Mas também há que admitir, são as que melhor se ajeitam na cama»

A Joaninha,
de mãos agarradas às correntes do baloiço nas tardes sem aulas. O seu laço vermelho, ainda o não sabia, era a curvatura do universo, a cúpula do céu, o meu primeiro pequeno sinal de pequena consciência cósmica. Não a vi ler a carta que sofregamente escrevi sobre o balcão da carpintaria do meu pai. As lascas de madeira a enfiarem-se pelo envelope, o cheiro a serrim a enfaixar-se nas cartas e a caneta que tirei da orelha do meu pai a esborratar o papel com a tinta azul que me sujava a ponta dos dedos.

O empregado da tasca leva a nota de dez euros sem perguntar se estou satisfeito. Leva o prato ainda com o bife, ainda com as batatas fritas pintadas pelo sangue esparrinhado com o garfo, ainda com o ovo na borda, desfeito, esfrangalhado, ainda com folhas de alface esparsas, secas, com montículos de sal cumulados na brincadeira do ócio. A multidão que passa sem que eu a oiça. A multidão que sei que passa por me repetir todos os anos, por estar nesta mesma mesa, a repetir a minha história, a fracturar o meu tempo, a suspender o hálito e as pulsações da vida. Se não a mesma camisa, uma camisa muito parecida; se não as mesmas calças, umas calças muito parecidas; os mesmos sapatos com toda a certeza; o mesmo gel porque receio que os outros não sejam melhor. Sou arquétipo de mim mesmo.

E era como se o empregado me estivesse a dizer, a jurar
«Tem cara de pobre»
E era como se o empregado me estivesse a dizer, a jurar
«Mas também há que admitir: são as que melhor se ajeitam na cama»

A Joaninha, de livros debaixo do braço, óculos de haste prateada sobre o nariz delgado, o sorriso da resposta pronta nos exames, os dedos maculados pelo giz que mexia sem o meu nervosismo, e eu sem conseguir dizer-lhe que não comia por sua causa, que não dormia pelos seus cabelos, que não estudava pelos seus olhos, que me mantinha estático, deitado no sofá, de auscultadores nas orelhas a imaginar que me queria e que me não queria, a gostar que me não quisesse, a desejar que me quisesse. As férias do natal a aproximarem-se e eu sem conseguir dizer-lhe
«Tenho reparado em ti»

e a ouvir músicas que nem digo

vivendo duas semanas na aflição, contando os dias e achando-lhes eternidades em todos os instantes e pontos do espaço. Aqueles dias distendidos pelo universo, e outra vez um pequeno sinal duma pequena consciência cósmica, um sorvedouro entre mim e o tempo, sem escolha, o eleito, o ungido, o homem fracturando o tempo.
Enquanto todos carpiam pelo regresso das aulas, ali estava eu, no corredor, encostado ao cacifo, rindo dos professores, rindo do giz misturando-se com o suor da minha mão, rindo das matemáticas,
e sem coragem para lhe dizer que não dormia
a escrever cartas e a soprar-lhes para tirar as lascas de madeira, a atirá-las para o cesto de papéis, a arquitectar uma forma de o dizer, cheio de coragem, cheio de mim mesmo, e no dia seguinte
encostado ao cacifo, com vontade de vomitar, as mãos suando sem giz, a voz tremendo sem os números da matemática no quadro
era como se eu já pressentisse
«Tem cara de pobre»
era como se estivesse a ouvir o twist às voltas, os carrinhos de choque que nunca repetem um percurso na sua longa marcha restrita

O empregado da tasca está à porta
de braços cruzados,
e é como se tivesse giz na ponta dos dedos
como se tivesse tinta azul na ponta dos dedos
como se fosse ele a escrever as cartas
como se fosse ele a tirar a caneta da orelha do meu pai
como se ele fosse eu
como se eu, sendo ele, lembrasse ao arrumar a loiça:
«Tem cara de pobre, não achas, Eduardo? Aquilo não engana. Quenga até à medula. Diz que é a “biciclete” do bairro. Não sei. O que dizes?»
e é como se o empregado não tivesse conseguido dizer
«Tenho reparado nela»
e é como se o empregado não tivesse conseguido dizer
«Tens razão, tem cara de pobre»
e é como se o empregado lembrasse o silêncio quebrado pela voz do Paiva
«Mas também há que admitir, são as que melhor se ajeitam na cama»

Oiço motores de automóvel incorporando o polvilho da tarde, como de resto sempre acontece à excepção do ano em que, garante o empregado da tasca, o Augusto pertenceu à Comissão de Festas.
«Isso é que foi um bom ano! Bófia à porta de casa, sinais de sentido proibido pelas ruas, calmeirões passeando pela festa de walkie-talkie na mão. Categoria! Mas este ano não, cada um faz o que lhe apetece e aí está o resultado: pandemónio.»
Três buzinas entre o ajuntamento de automóveis, depois quatro, depois três e finalmente a indefinição. Eu sou o número de buzinas ressoando agora pela rua.

«Vais para a corrida de cavalos? É que diz que não aceitam inscrições de burros»

Irei à festa porque sei que ela está lá. Como quando ia à festa procurar a Joaninha; os carrinhos de choque vazios, sem a Joaninha aos encontrões, as cadeirinhas voadoras sem a Joaninha, arremessadas contra o vento de Abril, os vagões do «Twist» sem a Joaninha, os carrosséis apinhados de meninas que eu conhecia, de rapazes que me mostravam o polegar apontado para o alto, e eu sem conseguir discernir a Joaninha, a esticar o pescoço por cima da multidão, os sapatos agarrados ao alcatrão derretido sob o Sol que não me acalorava
as músicas que nem conto a martelarem-me a cabeça
e que me faziam associar a Joaninha aos nomes mais estranhos das mais extravagantes celebridades dos arraiais
o rebate dos carrinhos de choque
as faúlhas dos carrinhos de choque
a voz aciganada a apregoar as voltas ao mundo
e no poço da morte esvoaçavam dois motociclistas, agarrados ao meu coração e arrebatados à minha dor de a não ter
porque a festa é o meu arrependimento e a «nube» é o refúgio absurdo que não encontro na vida
não se volta ao mesmo lugar
não há solução
não se volta atrás
não se anda em círculos

e para além disso

absurdamente

não há mistério

não há círculo
mas também não há mistério

não há
na vida
mistério

só na nube

só na nuvem…
Leonel Ferreira

Conto

Atitude

A vida passava e passava, e ele nada podia fazer para impedir que a vida passasse e passasse. A vida ia passando ao de leve por ele e ele nada fazia que fosse digno de nota perante a fugacidade da vida. A vida ia tomando o seu curso e ele não tomava curso nenhum na vida. Ele chamava-se Asdrúbal Maciel e não era propriamente o tipo de pessoa que se mexe muito para o que quer que seja – normalmente o ponto alto da sua movimentação ao longo de um longo dia alapado num sofá ou num cadeirão, era o totalmente involuntário Movimento Rápido de Olhos que tem lugar durante o sono. Dizem que ele é um inútil. Dizem que ele não serve para nada. Dizem que ele é um mandrião, um preguiçoso, um passivo, um vegetal, um burro. Dizem-lhe muitas coisas, quase todas elas com o intuito de o fazer reagir, revoltar-se, mexer-se, levantar-se, explodir, arrancar, viver, sair por aí fora, mundo fora, vida fora, e fazer da sua vida algo que seja digno de se chamar vida. Outras vezes dizem-lhe isso só para o insultar. Mas quê, ele limita-se a fingir que não é nada com ele e fica-se na soleira da quietude impávida e serena do seu sedentarismo militante. Dia após dia, noite após noite, lá está o Asdrúbal Maciel muito entretido a fingir que a vida não é nada com ele, que o facto de ele estar vivo mais não é que um mero acidente de percurso do Universo. Ele dorme, e dorme, e dorme, e depois, quando já está cansado de dormir, vira-se para o lado e descansa um bocadinho. “Ah”, pensa ele, quando está suficientemente desperto como para articular pensamentos, “que fadiga esta de ir sendo enquanto se vai sendo qualquer coisa na existência”… A fadiga é, provavelmente, a companhia mais certa que Asdrúbal Maciel vai tendo desde o dia em que teve aquela trabalheira toda para vir ao mundo. Pfui! Só de se pensar nisso, até já escorre em catadupa uma fiozada de suor pela cara abaixo. E depois, é claro, lá tem ele de se virar para o lado e dormitar mais um ou dois dias seguidos para se recompor do choque.
No outro dia, no entanto, o senhor Aristides Telles, farto de ver o Asdrúbal Maciel a desperdiçar toda a vida alapado no sofá sem fazer rigorosamente nada de proveitoso nem de útil, disse-lhe uma coisa que lhe ficou a ecoar na cabeça durante muitas e muitas horas de torpor e de sono: “Asdrúbal Maciel, meu rapaz, não podes continuar a desperdiçar assim a tua vida. Tens de te levantar daí e fazer algo por ti. Tens de tomar uma atitude!” As palavras não lhe saíam da cabeça. Pensou nelas, sonhou com elas, teve pesadelos com elas, viu-as a voar à roda da sua cabeça, sentiu-as impregnar-lhe os sentidos, viu como elas se lhe apoderaram do seu ser, como tomaram conta de todas as horas da sua existência. E foi assim, num belo dia de manhã bem cedinho – aí pelas 14h45 – que Asdrúbal Maciel resolveu operar a maior revolução de toda a sua vida: decidiu que iria tomar uma atitude! Assim, ainda um pouco aos tropeções, levantou-se do sofá e arrastou-se até à porta, junto da qual descansou – mas sem adormecer!!! – uns trinta minutinhos. Mas estava decidido a não desistir, iria tomar uma atitude, a primeira da sua vida. Nada o faria desistir do seu propósito. Depois de se recompor do titânico esforço de chegar à porta da rua, abriu-a e saiu. Foi com um estoicismo sem igual em toda a sua experiência de vida que calcorreou os mais de vinte e cinco metros que o separavam da porta do café da Dona Bertilde Alecrim, no qual entrou, ofegante, encharcado em suor, o seu corpo a gritar por cada poro da sua pele que parasse, que desistisse, que se deixasse cair onde quer que fosse e dormisse umas vinte ou trinta horas para recuperar do esforço sobre-humano a que o sujeitara, ao passo que na sua mente um único pensamento, firme e inabalável, o impelia a avançar sempre mais um bocadinho, pé ante pé, um passo a seguir ao outro, sem vacilar, sem desistir, contra tudo e contra todos, ele está decidido a tomar uma atitude na sua vida e é isso mesmo que vai fazer aqui e agora, tomar uma atitude! Assim, quando a Dona Bertilde Alecrim vê o moço sentar-se na primeira cadeira que encontra, com o corpo completamente ensopado em suor, os olhos cercados dumas olheiras do tamanho de bolas de ténis, as mãos trémulas e a língua dependurada até ao queixo, vai ter com ele e pergunta-lhe:
“Então, Asdrúbal Maciel, vais querer tomar alguma coisa?”
“Vou, sim. Era uma atitude, se faz favor…”

João Tavares

Prosa

Turbo

Escrevo nadas que se materializam em palavras. Deixam de ser nadas para passarem a ser banalidades. E o que me fere o entendimento é que estas banalidades, como todas as outras, são reais. Isto não devia ser assim. Na verdade, nem sequer é.
Recomecemos…
É que eu já falei em verdade, e esse é o primeiro passo para se chegar à conclusão de que se está a mentir.
Por outro lado, falar na mentira é falar da verdade negativa, porque a mentira é também um termo. Recomecei mal porque me dirigi para o oposto da verdade. E isso é nada. Bom… talvez não seja nada, porque se o fosse não estaria materializado. É já alguma coisa. É uma banalidade. Recomeçamos?

Mas como se recomeça nada? Ou melhor, como se recomeça a impossibilidade do nada? A impossibilidade arrasta-me para a verdade ou para a mentira, e o que eu quero é permanecer num meio-termo que seja nada. Esta é a impossibilidade. Porque o meio-termo é já alguma coisa. Quererei o paradoxo? É possível.
Este recomeço é preferível, pois recomecei no possível. O possível é alguma coisa, é todas as coisas simultaneamente. O possível, sendo todas as coisas, é diametralmente oposto ao impossível que é, aparentemente, coisa nenhuma. O que finjo que me enfastia é este facto de o impossível ser mais categórico do que o possível. O impossível é finito, extenso, paradoxalmente inteligível. O possível é, senão infinito, pelo menos superador. Mas se o impossível é coisa nenhuma e até paradoxal – embora apenas aparentemente – então convém aos intuitos do autor desta banalidade.
Convém, mas ainda assim, é alguma coisa. O impossível é-me conveniente, mas eu quero, teimosamente, o possível. Se quero o possível é porque me é conveniente, porque só queremos aquilo que nos é vantajoso. Eu não sei se é possível desejar a dor, porque se desejamos, é provável que essa dor a seja apenas para os outros e que nós estejamos, apenas e afinal, a dar provas concretas à ideia do Espectro Invertido de John Locke, que coloca a possibilidade de usarmos o mesmo conceito para coisas que vemos de modo diverso uns dos outros. Portanto, desejo algo, e isto é alguma coisa e não uma mera banalidade. Aquilo que desejamos pode ser uma banalidade. O acto de desejar, em si, não pode ser uma banalidade, pelo menos em termos consensuais, porque o mundo é, afinal, “apenas” isso, uma questão de consensos. Convém, neste momento, recomeçar esta banalidade, pois temo ter deixado de sê-la para intentar passar a falar de verdades. E eu não quero verdades. Também não quero impossibilidades. Quero o possível. Quero a possibilidade do paradoxo.

Ocorreu-me há instantes que a melhor forma de encontrar a possibilidade é escrever uma banalidade. Não encontramos neste texto nenhuma impossibilidade. Admito que encontrar um sentido a este texto seja muito pouco provável. Ainda assim, respeito o princípio de Heisenberg que me diz ser apenas muito pouco provável que alguém encontre um sentido neste texto. Não há, portanto, impossibilidade. Por outro lado, este mesmo princípio de Heisenberg impede-me de ter como certa a impossibilidade de haver impossíveis. Portanto, é possível que este texto seja impossível de compreender. Mas notem, é apenas possível…
Leonel Ferreira

Poesia

Retro-modernismo
(Ou – Dói-me a Cabeça)

1 – Sim…?

Retro-modernismo é acordar num dia normal, igual a tantos outros, dar uma volta pela cidade com a mesma abstracção côncava e desanimada de sempre, um pé atrás do outro só pela mera acepção mecânica de não cair para a frente – ou para trás – ao proceder ao movimento que permite locomoção física por meio de duas extremidades posteriores, é ir parar aos bairros suburbanos da mente onde as paredes estão grafitadas com slogans de paz e amor entre os elefantes e os ratos, é ver com os olhos fechados os giroflés que crescem como caveiras desbotadas por sobre a camada oleosa de desinteresse que ponteia o dever patriótico a rigorosamente nada dos semáforos, é virar para a esquerda e ir em frente numa ruela que não tem esquerda nem frente, é passar por uma cena de obscenidade gratuita protagonizada por uma loirinha licenciada em direito que prostitui com uma verborreia exaurida pela força jurídica os seus moribundos ideais de justiça e gelados de chocolate em prol dum dia mais sorridente do que este – mas se o dia lhe sorri mais do que este, os dentes vão aparecer todos manchados de gelado de chocolate – e um professor de educação física com óculos e um catálogo de apitos debaixo do braço, é meter as mãos nos bolsos e ficar na mesma com elas ao frio e à chuva apesar de não estar frio nem estar a chover, é ir parar a um beco que, apesar de ser beco, não tem saída, é passar pelos caixotes do lixo do beco e ver lá um cadáver abandonado a apodrecer mas vestido de azul escuro e verde mediterrânico, é não saber a diferença entre o sol que se esconde numa caixa de oleados e uma bolacha de canela torrada. O Retro-modernismo é isto tudo e não é nada disto, pelo simples facto de o Retro-modernismo não ser coisa alguma.


2 – Lenço de papel reciclado

O lenço é feito a partir de papel reciclado
Ou
O lenço de papel é que foi reciclado?


3 – E se eu fosse

E se eu fosse
Um deus que ninguém adora
Um poder sobrenatural
Que se perdeu mundo fora
O antigo clamor da oração
Que prece alguma recorda
A visão que visita em sonhos
Quem a esquece quando acorda

E se eu fosse
Um capitão sem navio
Um sábio velho comandante
Que adormeceu ao relento frio
O último a abandonar
A embarcação afundada
Uma lembrança de névoas difusas
Que padece afogada

E se eu fosse
Uma bala sem pistola
Um jogo de futebol
Que decorre sem a bola
E se eu aqui
Não fosse quem eu sou
E fosse apenas as sobras
Do sonho que se esfumou?


4 – Não

Não

Não é assim

Não é assim que se faz

Que mais querem que vos diga?

Não é assim que se faz

Não é assim

Não


5 – Em Sangue

Leque em sangue!
O sangue está vivo!
E escorre pelas ruas desertas do desespero!
O sangue…
Vivo…
Anjos com túnicas brancas
Erguem o leque em suas asas
E levam-no para o Paraíso…
O sangue…
Vivo…
Uma quadriga de Deus
Leva o leque vivo
De sangue
Para os corredores do Paraíso…
Tanta luz!
Tantos anjos!
Tanto sangue…
Vivo…
Vivo?
Vivo??!!!
Leque sem sangue!
O sangue já não está vivo!
Jaz seco nos corredores de entrada para o Paraíso
O sangue…
Lavado pelas senhoras da limpeza do Hospital…


João Tavares

Poesia

A voz de dois homens encostados ao vago resplendor do abismo

Agora
Todos os dias tentamos iludir a morte,
Marcar o nosso próprio reflexo,
O teu
O meu
Compasso cingido ao instante de Deus
(Não existe o Outro dia).

Deus o ourives do tempo
Pelos seu dedos correm as linhas
Perpétuas do infinito
E do outrora jamais reescrito
No virar dos gestos
Ou na sombra de pensamentos e palavras.

Não existe outro dia,
Somente
este
Delírio de não acabar.

Violamos a vida para escapar à morte
Cruzamos o desejo e retomamos o cigarro,
A ponte cálida por entre os dedos
Por entre a esfinge do movimento.
Salvé irmão — orador da Utopia
Deleita-nos com a tua poesia.




A certeza ou a polifonia da minha querida vida
Cala.
Nada paira a Ocidente desta minha loucura
Fosse eu antes um cadáver apodrecendo
Na companhia de uma guilhotina.

Se eu soubesse o que era a morte
Juro
Ter-te-ia matado há muito.

As palavras passam pelo crivo do pensamento
Tal como eu me aniquilo
Nas noites longas de plenilúnio.

Arranco os estandartes das fogueiras,
Irmãs de vaidade,
Lugar onde pernoitam os corruptos
De ventre roxo
Expostos à minha ira bestial.

Serás um deles certamente.
Tempo fere-me na memória dos compromissos que declinei.

O homem permanece onde fica,
O homem já não vai onde queria
Os seus vestígios desaparecem para ele, com ele.

Deus ex-machina
Salvé
Os instantes polimétricos
Onde o corpo se extingue
Na mira de um caleidoscópio

E na incerteza de hoje, ontem ou amanhã —
Pereces.


Filipe Monval

Poesia

da morte não acreditamos alguns.
eu acredito. eu. sei o que a morte traz
por entre as bandeiras no espaço
contido do estourar de foguetes . ou
entre os passos das crianças, entre o pousar
e o voo das aves de tanta certeza.
eu sei do que a morte existe
eu sei no que ela insiste

[tenho traído os ideais todos, vendi as pratas, a honra e a paixão, sou estrangeiro num país por desenhar]

talvez te incomode com a certeza,
mas de outra coisa não disponho
e pelo parque, à hora absurda em
que as pessoas estão felizes,
faz-me falta sentir o que devia,
estou indisposto,
acredita que não o queria, nem o cria tampouco

[acreditei em deus nas dobras do tempo, na vida nos outros e em mim, em coisas e ideias, mitos e razões]

vive um homem tantos anos,
e nos anos todos o mundo corre,
nem que parado pois que o mundo se move.
e de tudo isso, de tanta coisa, só morre.
Eu sei eu sei e que sei e que se há-de fazer é a vida

[faço que me esqueço e olvido-me que não me recordo, e um dia, quando eu morrer, não digas a ninguém que te amei]

tenho colhido as flores.
agora já não acredito em jardins
e ao longe pressinto: nunca caminhei
por onde não podia e por isso nunca por onde devia
já que ao cabo é para morrer.
branco ou tinto, é para morrer.

Rui Gonçalves Miranda



do que eu te queria ter dito e não consigo

nada de real nada tem
é postiço este sofrer
e não é real sequer
o que hoje aconteceu

adio a palavra, travo,
o mundo, acredito,
e insisto nisto porque sei
que só pode ser postiço.


eu sei que não é verdade
[como pode? quem o pode?]
que nunca mais, sem mais,
que o irreal a si se descobre.

Rui Gonçalves Miranda



por entre o esplendor da luz perpétua

Entre ambos fingimos
que o mundo não acabou
e no intervalo de um café
saboreamos o torrar do nulo

de horas e partidas
de deuses fados e vontades
nestas mãos porque respiram
sentimos ainda os cravos

como calha. Pertenço
Pretenso à mentira dos capazes.
Talvez durma, viver cansa
sempre e nesta dança

calho de olhar para ti
levante-se esta mesa final.
Para de onde daqui? Desreal

]-e crocodilos de capô escamoso aspiram a ser
cobra engolindo os latejantes-[

entre nós ambos o fim

Rui Gonçalves Miranda



Quem trará, de entre
os passos que se avizinham
insuspeitos [mas onde estão?]
as ofertas da lembrança?
- Os deuses nos roubaram
em crianças, para um mundo
no qual se não deve acreditar-
. Descortina-se nesta peça
que alguém se esqueceu de fazer
de Deus, numa história que um
de nós ficou por contar

Alvoreasse em mim o desejo
de um voltear. Alvíssoras,
Terra à vista, capitão!
- E é tudo tão mentira
um sentir de papelão-
. Perdemos as ilhas todas dos amores
aumentámos a imensidão
e do que procurámos encontrámos
só o ficar por encontrar

Trouxemos do mar o impossível
baptizámos o inenarrável
- e calámos, por entre os interstícios
da carne, nossos demónios.



mas já não há quem nos aguarde

Rui Gonçalves Miranda



sem fim

não tenho garantia, estou, sem o estar
(como poderia?) vazio.
mas não é isso, acontece
estar do lado de fora do curso das coisas
[não oblíquo, de lado]
eu [que quando digo eu, digo eu]
predigo porque o vou sentir
que o pião gira deslocado
estou de lado
nem num lado nem noutro
corda sem brinquedo
talvez rio sem leito
onde me sento? onde me canto
agora que me desfasei?
quem me conserta,
caveira breve sem fim?

Rui Gonçalves Miranda



sopro


eu, que quando digo eu,
digo eu. não quero dizer
coisa outra. não digo outra coisa.
Eu. E eu sou eu e nem
tudo é eu nem eu tudo
nem eu me projecto em tudo
nem tudo está em mim
nem sou nada, coisa nenhuma,
não me lembra de onde vim
não me interessa para onde vou.

Eu digo eu. Plena justificação
da existência de cada estrela
por si e no conjunto porque
sei que sou eu porque
não quando nem porque
nem se nem ao. Digo eu.

Digo

eu, que não nasci nem
de deuses nem de diabos
nem de puta que os parisse
que não pertenço a nada ou ninguém
nem a todos e a toda a gente,
eu, este eu, coração de bufar.

nem princípio nem fim
nem intermédio ou pilar
nem nação nem o outro
nem outro nem perdido
nem fodido, fora de mim ou
despreocupado e sem compromisso

plena pulsão vital de dizer
eu
instinta distinta força. eu
que nem sequer sou,
mais, além, aquém,
demais, a menos,
talvez, porém, e tu
também?


Minha voz não é uma voz
minha não é. Eu

Rui Gonçalves Miranda

Poesia

Nas Outras margens de mim
Existe o breve rumor do caminho por traçar
Cinzas e pó que a memória não mais poderá conceber
O projecto consumado desconhecido nas pregas de um destino.
E
Nós, apenas, julgamos estar a olvidar a silhueta do olhar.

Reis Neutel

Citação

“Aquele que não consegue perdoar aos outros, destrói a ponte por onde irá passar.”

Francis Bacon

Poesia

Pedaços

Rasguei minhas palavras
E pensamentos…
Lancei-os ao Vento
E ele, em galopantes suspiros,
Os levou com magistral gosto!!!

Perdendo-os em minha vida,
Senti faltarem-se pedaços de mim!
Que miséria!

Arrependi-me…

Corri, corri, corri para os alcançar…
… Saturei!!!...

Subi umas escadas
Cujo fim era inalcançável…

Aaaaaaahhhhhhh!
Que queda triunfal!!!

Caí em local deserto,
Na infinidade…
Meus pensamentos e palavras
Lá estavam como virgens tocáveis…

Peguei neles e o Vento, (sempre tu!),
Levou-me para minha moradia,

Onde penso…
Onde sonho…
Onde escrevinho…
Con-correntes dores!


Os Deuses nada fazem…

Boiando entre meus lençóis,
O frio que estrangula,
Entra sem licença!

Quero escrever versos vertiginosos,
Cuja virgindade será explorada quando lidos…
Contudo, a inspiração falta-me e foge-me como
A lua da luz solar…

Febo e sua luz evaporam-se por entre as árvores
De nuvens feitas!
Erato, não inspira minha poesia
Jamais lírica ou amorosa!

Oh Deuses e Divindades,
Ajudem este ser para quem
Cada segundo é uma hora
E uma hora é dia esgotável em trabalhos mentais!

Camenas, socorre-me!
Minha poesia de macambúzia,
Que em terras movediças se perde,
Não solfeja…
Logo eu, que tanto gosto de cantarolar…

Bóreas, meu prezado amigo,
O mais célebre dos Ventos,
Vai buscar outra ajuda… um deus cego…
O Destino… porque não?
Tem debaixo de seus pés
O globo terráqueo e nas mãos
A urna fatal que encerra
A sorte dos mortais como eu… ou como tu!

Aaah! A força esvai-se de minha seca mão…
Oh, Noite, tu que és mãe do Destino, do Sono
E da Morte, esposa de Caos,
Leva-me a ver Platão, rei infernal
E dos mortos… talvez ele me aceite por suas terras!!!

Sou jovem… pareço ser…
Mas Hebe quis esculpir minha essência
Com paralelepípedos pisados pela dor e pela idade…

Será que me mereço esta (in) justiça?

Foi Eaco que me condenou… ele que é tão justo!


A inspiração desfaz-se
Como ondas de diamantes
Sem cor transparente…

Oh Minerva, dá-me um sopro
De tua mui lograda sabedoria!

Oh Lino, tuas poesia e música
Podiam querer invadir minha mente…

Oh Proteu, oh Orco… deuses do mar
Findável em meu olhar nublado,
Trazei minha poesia!

Por que não me ajudais?
Por que não nasci da espuma do mar
Como Vénus, bela e amada?

Rendo-me
A Hapócrates,
Silêncio de alma e corpo sentencioso…
A Mepómene e sua vivência de tragédia…
A Vesta que minha inspiração queimou…
…Para sempre!!!


Saudação a Martins Ferreira

Malabarista de poucas palavras,
Aponta dentro de si todos os
Rastilhos de solidão pouco querida!
Tem o «dom» de escrever por
Íntimas linhas, que
Nada parecem despertar em
Seres menos atentos, sensíveis!

Fere seu pensar com
Encontros fantasmagóricos feitos de pesadelos!
Rende-se à solidão limitadora e castradora que
Rasteia sua vida!
É um poeta?...
Integrando-se em viveres de alegria,
Rendilha seu ego de ânimos
Anormais e peculiares de sentimento!

Martins Ferreira

Domingo, Janeiro 07, 2007

Número Três

Editorial

O recomeço do cosmos

O princípio é o caminho para algo. Todos nós caminhamos com o intuito de chegarmos a algum lado. Todos os anos voltamos à página da nossa existência e projectamos a loucura dos nossos anseios no degrau aparente de um mundo insano, governado por instintos — qual deles o mais selvagem?
Chegamos, sem nunca termos partido, sem muitas vezes nos termos apercebido do que deixámos para trás. Voltamos, então, atrás, procurando encontrar o nosso lugar abandonado no banco do jardim. Todavia, não é um banco qualquer, é o banco no qual permanecemos quietos, mudos, entretidos a ler o mundo com os nosso olhos peregrinos. Deliciamo-nos, entristecemo-nos e somos indiferentes às folhas manuseadas de um mundo por descobrir.
Chegámos, mas nunca partimos. Pensamos: — é este o momento de começar do zero e decifrar tudo aquilo que nos rodeia. É um novo recomeço do fluxo inexorável do tempo, ávido por nos ser revelado. E no entanto, estamos exangues de compromissos, de não poder alterar nada. Acreditemos. O caos e a ordem, a convergência e divergência do universo imutável ata-nos. Desatemos — já — os nós que nos apertam. Dêmos uma oportunidade para nós mesmos. Em nós o pessimismo não é o fim em si mesmo, mas apenas um estado que nos leva ao conhecimento das coisas. Então, assim seja. Caminhemos, partamos, arquitectemos, sonhemos e sejamos criadores de novos mundos e da nossa própria existência.

A todos um fecundo ano em sonhos e criações.


Editor Três — Reis Neutel

Coluna de Opinião

Por entre aspas: “Qual é a cor do medo?”
— Sebastianismo e Quinto Império


“Qual é a cor do medo?”
Esta foi a pergunta que D. Sebastião ousou colocar um certo dia a seu tio, D. Filipe II de Espanha. O destemido e irreverente rei luso parecia indiciar desde muito novo um destino incomum. Mal sabia que o seu fado estaria irremediavelmente ligado a do seu povo. Tinha nascido como o “Desejado”, o prometido herdeiro da nacionalidade, que nos mantinha fora do alcance dos castelhanos. Cresceu imbuído por estórias gloriosas dos feitos dos portugueses, que mais pareciam ter como palco um mundo não terreno.
Quando falamos de D. Sebastião, recordamo-nos do jovem rei que desapareceu tragicamente na Batalha de Alcácer Quibir, a quatro de Agosto do ano de 1578, ao lado de outros dois reis mouros — Mulei Moluco e Mulei Mohâmede — e da mais fina e iluminada aristocracia portuguesa. Lembramo-nos, igualmente, do mito de D. Sebastião, “O Encoberto”, que regressaria, numa manhã de nevoeiro, para libertar Portugal do jugo dos espanhóis e liderar de novo o povo rumo a um destino superior. Todavia, nunca regressou, pelo menos, assim o reza a matriz da História. O povo ficou órfão e entregue aos estrangeiros. Acalentou a esperança de um dia ele chegar. Em vão esperou e desesperou. O passado tinha sido glorioso; a saudade era enorme. Nunca mais seriamos grandes. O tempo não perdoa e as ruínas de pó surgiram naturalmente. Eram agora as reminiscências do grande império, que D. Sebastião, se o acaso não tivesse reinado, teria engrandecido.
O que teria sucedido se D. Sebastião tivesse ganho em Alcácer Quibir? Seria certo que teria como plano conquistar todo o Norte de África e, seguidamente, marchar sobre o Império Otomano? Com certeza teria o apoio dos grandes reinos da Europa e, sobretudo da Igreja Católica, que via com bom agrado o ressurgimento em todo o seu esplendor do antigo Império Romano do Oriente.
Uma vez ter conquistado a actual Turquia, surge a pergunta: qual o seguinte passo a tomar? Novamente, muito se especula sobre o assunto. Talvez a incerteza se resolva através de uma outra questão. Por que motivo não se teria ainda casado D. Sebastião? Investigadores e historiadores defendem a tese que o nosso malogrado rei ambicionava tornar-se um dia Supremo Pontífice da Igreja Católica, daí a sua postura perante o casamento.
Neste momento, é legítimo perguntarmo-nos: pretenderia D. Sebastião ser rei e pontífice de toda a cristandade? Seria este o seu plano do Quinto Império — como proclama Fernando Pessoa —, um império baseado na fé em Deus e arreigado na(s) cultura(s) da velha Europa, tendo como centro nevrálgico Portugal?
D. Sebastião, deu origem à lenda de um projecto que ele presumivelmente aspirava e de uma tese que é conhecida como Sebastianismo. Os detractores da mesma tese apelidam os apoiantes daquela de “saudosistas e de Velhos do Restelo”. Porém, enquanto Sebastianista não me revejo nestas considerações. Tenho muita admiração, respeito e afecto pelo passado de Portugal, mas tal como D. Sebastião sou ambicioso. Sou Sebastianista porque também acredito num Portugal farol, arauto de toda a humanidade. Desde que momento a ambição se tornou nostalgia? O rei menino era um sonhador, um visionário e um conquistador. O jovem rei lutou para que os seus sonhos vissem a luz do dia. Tinha projectos para Portugal e um ideal para cumprir. Se não logrou cumprir a sua missão, quer fosse por ingenuidade ou, irreverência da sua juventude, por maus conselhos dos seus oficiais, quer fosse por insanidade, não me parece que isso seja muito relevante. Ninguém ousaria fazer uma guerra, sem ter um plano de vitória. Havia muitos que acreditavam ser possível. E tudo indica que D. Sebastião tivesse esse plano. Parece-me que os sonhos - projectos só se podem almejar num patamar futuro do presente e nunca no passado, por isso mesmo creio que o Sebastianismo tem toda a razão de permanecer ainda nos nossos dias. Fernando Pessoa foi dos primeiros a descobrir as verdadeiras raízes do Sebastianismo e pôde no seu tempo inferir que o sonho de um Portugal maior não era coisa do passado mas sim do futuro. Cabe-nos a nós, procurar o sentido do plano d'El-Rei D. Sebastião e esperar que “Deus queira, o homem sonhe e a obra nasça”.

Filipe Monval



Sós Auspício

I

A demanda do espírito
Me fez sobressaltar durante o meu sono
Em outras memórias virgens e silenciosas
De terras aspergidas
Em preludiais promessas inauditas
E me impeliu a caminhar sob o signo da espada
Despregando, sem medo,
Minha Lusíada Alma
No fátuo sonho de Deus.


II

Por quem moves tuas mãos, tão acinte, para escrever, poeta?
Non, esquece tudo que vai.
Nada de grandioso resta, por lutarmos
Nada mais há para escrever
Do que já foi entoado na canção das cinzas.
Quis ser o iluminado,
Tornei-me o encoberto.
Lembro-me como banhámos com sangue
A alvorada do destino.
A conquista ardendo
Nas Quinas suspensas d’um coração alado.
Por três rios, três reis cruzámos,
Para fazer da glória nosso altar.
Já nada vale a pena. Esquece.
Meu Deus, talvez, em vão partimos
Para alcançar o horizonte da criação.
Oh senhor, quantas almas ancoraste,
Quantos pelo fogo demente pereceram
Para salvar da quimera o sonhador?


III

Nada esperes do destino,
Vã cobiça humana.
Atearei de fogo os espectros
Vogando nos corredores escuros:
Abnad, meu tio, meus patrícios
Que infligiram maior dor no peito meu.
Em arauto da cristandade me diziam galardoar
Em “O Encoberto” me converteram
Antes me tivessem esquecido ou mesmo matado.


IV

Vislumbro agora,
Por entre um quasi-assombrado desterro
Como se precipita o mundo para o seu julgamento.
Ó Moribunda Europa,
Num abismo colossal
Vos haveis tornado
E meu Lusíada peito
No teu leito jaz.


V

Ergue-se perplexo
O Destino
E eu amargo e severo
Prossigo em sonho o Quinto Império.
Sou o Quinto Império,
O rosto de Ontem
Encoberto pela sombra da própria pátria,
Memória de uma raça errante
Absolvida pelos compassos do tempo
Que noutras margens subliminais repousarás
E que a Morte não pode inaugurar jamais.


VI

Ó Sonho de Deus
Que quis que eu fosse teu arquétipo – mor.
Sou o último,
Serei o primeiro?
Rei e Pontífice do Novo Mundo
Que a Cristandade ousou esquecer,
Apesar das lágrimas que percorreram suas faces,
Lá longe numa terra árida de afecto.
Ó sonho por sonhar
Que me encarceraste na contemplação
Irrealizável de toda a criação
Deixa-me imaginar as reminiscências do porvir.
O meu sonho apenas termina
No despertar da visão de outrem.


VII

Ainda, latente o sonho por minhas veias corre.
Vede o trono de São Jorge vazio.
Depressa, pega numa espada e segue-me
Ou, segura na tua pena o ideal que vos transmito,
Ó vassalos — poetas da minha herança
Levantai a voz para que almeje os quatro cantos do mundo,
Segui o rumo dos astros,
O contorno descrito pelas marés.
Ó Admiráveis Antepassados,
Nobre povo Lusíada
Erguei-vos da vossa tumba
Estai presentes para quando Portugal se faça.
Ai Portugal Português
A quanto aspiras sem o saberes,
Recorda que do sonho
Nasce a criação de Deus.


Filipe Monval

Conto

No Fim do Mundo

São 04.31 horas MZ. São horas de ser noite. São horas de estar a dormir. São horas de não estar a trabalhar. Um dos monitores mostra em tons de amarelo suave os dígitos que atiram à cara de quem para eles olha que esta não é hora de estar a trabalhar, que esta é hora de estar a dormir. O brilhozinho esbatido e ténue da luz do monitor onde se vêem as horas é tão débil que mal se dá por ele; é preciso dirigir mesmo os olhos na sua direcção para se ter uma percepção exacta do que aquilo é suposto ser – um relógio. Sim, um relógio. Um relógio é um objecto deveras singular e extraordinário. Um relógio mostra o tempo, aliás, mostra uma parcela de tempo a que se chama presente, a que se chama agora. Um relógio serve para uma pessoa se situar na dimensão mais estranha e alienadora que existe no Universo, o tempo. Essa é, sem dúvida, uma grande vantagem para as pessoas – saber situar-se é sempre bom, seja no tempo, no espaço, na mente, nos sonhos, no conhecimento, ou em qualquer outra coisa. Mas os relógios também servem para dividir o tempo. Mais do que dividir, servem para esquadrinhar o tempo. Um relógio que esteja em pleno desempenho das suas funções mais não faz que dizer-nos que o tempo avança, que não recua, que não fica quieto, que não hesita, que obedece sempre à mesma mecânica: para a frente, sempre para a frente, arrastando consigo toda a matéria do Universo, engolindo no seu voraz apetite a sua própria essência, pois tudo o que existe a ele obedece e lhe está sujeito. Já na Antiguidade, nos primórdios da Civilização Humana, as pessoas inventaram mecanismos para medir a passagem do tempo: desde o simples balde de água com buraquinhos por onde aquela fluía regularmente, o vulgar pau espetado no chão cuja sombra indicava a hora à medida que o Sol se deslocava pelo céu, o primordial dispositivo de corda com um mostrador de ponteiros, o posterior mostrador digital de cristais líquidos, enfim, todas aquelas geringonças de que uma pessoa ouve falar nas aulas de História, apenas para se aperceber que o Ser Humano há muito tempo que se deixou escravizar, não pela passagem do tempo, mas pela medição do tempo, impondo a si mesmo as noções de horários a cumprir, horas de entrada, horas de saída, tabelas cronológicas, linhas temporais, datas-limite, horas de espera, atrasos, pontualidade, enfim, toda uma série de conceitos que derivam única e exclusivamente da extraordinária capacidade que temos de medir o tempo, de o enquadrar, de o isolar, de o encaixar, de o dividir, de o racionalizar minuciosamente ou mega-gigantescamente no seu fluir cadente e inevitável. Olhando para um qualquer relógio que funcione correctamente podemos saber o que é suposto estarmos a fazer no momento em que olhamos para ele. Neste momento são 04.31 horas MZ. São horas de estar a dormir, não são horas de estar a trabalhar.

* * *

04.34 horas MZ. O brilhozinho ténue do monitor onde se vêem as horas não ilumina nada aqui dentro, só permite mesmo tomar conhecimento do ponto em que se situa a passagem do tempo no preciso momento em que se olha para ele. E provavelmente é isso que continuará a fazer durante milénios e milénios, até que o próprio tempo acabe, até ao dia do fim do Mundo... Aqui dentro a única luz que engana a escuridão da noite eterna é a proveniente dos painéis de controlo e dos monitores de imagem. Lá fora a noite é ainda mais escura que aqui dentro. Apenas o brilho distante das estrelas engana por momentos os olhos atentos e concentrados de quem os usa para trabalhar. Até há 17 minutos atrás ainda havia a luz do sol. Ou melhor, a luz de um sol, que não o Sol, que não o da Terra, que não o do Sistema Solar. Não, a luz do sol que havia há 17 minutos atrás era a da estrela CTRV, uma amarela de tamanho médio, muito parecida com o Sol, mas a milhares e milhares de anos-luz de distância. Na verdade, este era precisamente o ponto mais distante da Terra que algum Ser Humano alguma vez tinha atingido. Que grande glória! Que grande feito! Que grande... trabalho. Pois, trabalho. Nada mais que trabalho. Nada de feito glorioso, nada de grande aventura; uma simples missão de rotina enquanto batedor-prospector do Ministério dos Recursos Minerais. Já tinha feito isto dezenas... não, centenas de vezes, certamente. Já perdera a conta ao número de luas e planetas que batera à procura do tão precioso taranídeo, metal que alimentava e mantinha a Civilização Humana em toda a sua magnificência. Essa era, aliás, uma questão muito curiosa que lhe ocorrera quando ainda estudava na Academia de Classe Beta: o Ser Humano procura taranídeo para expandir o seu domínio; mas por outro lado expande o seu domínio para encontrar taranídeo. Já andamos a vasculhar o Universo há mais de dois séculos e ainda não encontrámos qualquer sinal de vida superior onde quer que fosse, somos provavelmente a única espécie pensante de toda a existência, estamos provavelmente sozinhos no Mundo e nos mundos que colonizamos e exploramos...

* * *

04.38 horas MZ. Até há 21 minutos atrás ainda havia aqui luz do sol, deste sol longínquo e perdido nos confins do Universo explorado, no lugar mais remoto possível do conhecimento humano, na extremidade do alcançado, no inaudito da distância, no inimaginável da lonjura, no fim do Mundo. Neste momento, Eliano Suznar tripula o seu módulo espacial em órbita da única lua do quinto e último planeta do Sistema Estelar CTRV. O seu objectivo, como sempre, é garantir que o computador da sua pequena nave faz uma correcta e exaustiva telemetria da superfície da lua CTRV-5/1, assegurando também que as sondas de prospecção directa da superfície são lançadas para os locais certos e no momento certo. O seu emocionante trabalho resume-se a isto: orbitar um planeta ou uma lua onde haja indícios de poder ser encontrado taranídeo, fazer o mapeamento mineralógico da superfície, ler os dados recebidos pelo seu computador e enviar umas poucas sondas irrecuperáveis até à superfície do planeta ou lua em questão sempre que considerar haver necessidade de analisar mais minuciosamente algum ponto em especial. Depois é só compactar todos os dados recebidos e fazer um relatório que leva até à nave-mãe com uma resposta de “sim” ou “não” a uma questão muito simples, mas que é a questão mais importante que qualquer pessoa pode fazer hoje em qualquer lugar do Universo conhecido: “há taranídeo?”. É claro que se a resposta for “não”, não há mais questão nenhuma a que ele tenha de dar resposta no seu relatório. Com muita naturalidade limitam-se a dar-lhe as coordenadas de um novo planeta ou lua sabe-se lá em que recanto perdido da imensidão do Espaço e lá vai ele tentar responder mais uma vez à primordial questão. É claro que se a resposta à questão for “sim”, então o seu relatório já terá de ser bem mais elaborado, pois de seguida ser-lhe-ão colocadas mais duas questões – também elas muito simples – mas que lhe requerem um maior grau de elaboração da resposta: “onde?” e “quanto?” são as questões que imediatamente se seguem a uma resposta de “sim, há taranídeo naquele monte de rocha a flutuar ali no Espaço”. Depois é vê-los a encaminhar para o dito local duas ou três enormes naves cargueiras cheias de material de exploração mineira. Tudo para garantir que continua a haver matéria-prima para os túneis espaciais, de modo a garantir que continua a ser possível encontrar matéria-prima...

* * *

“...e foi assim, completamente por acaso, que a Guerra acabou por nos proporcionar este bem tão precioso, os túneis espaciais. Ainda se lembram de algum outro exemplo em que uma guerra tenha contribuído para um grande avanço científico?”

“Sim, por exemplo, na Segunda Grande Guerra do Século Vinte, quer dizer, quase no fim, conseguiu-se a fusão atómica!”

“Exactamente, bom exemplo, obrigado...”

* * *

04.42 horas MZ. Há quase uma hora que chegou à lua CTRV-5/1. Mas que nome tão... quê? Que nome tão quê? Isto nem sequer é um nome. É um número de série. Há já um bom par de décadas que ninguém tem paciência par inventar nomes para estrelas, planetas, luas, asteróides, cometas e sabe-se lá bem mais o quê. Hoje em dia põe-se um número de série a tudo e acabou. CTRV é o nome de “catálogo” da estrela. Depois, os planetas que a orbitam: CTRV-1, CTRV-2... até CTRV-5. E a seguir, obviamente, as luas de cada planeta: CTRV-1/1, CTRV-1/2... até à primeira e única lua do planeta número cinco e último do sistema: CTRV-5/1. Fantástico, não? Simples, eficaz.

Este sistema foi descoberto pelos super-telescópios de Andrómeda-Delta há duas semanas. Depois foi só inaugurar mais um túnel e enviar para cá uma companhia para investigar isto tudo mais a sério. A nave-mãe está estacionada ao largo de CTRV-2/7, uma lua média e rochosa do gigante planeta gasoso com dezasseis luas. Aliás, à excepção do primeiro planeta, pouco maior que a Terra e com uma atmosfera muito mais densa e infernalmente venenosa que a de Vénus, os restantes quatro planetas são gigantes gasosos. É óbvio que não é nos planetas que reside o alvo da atenção, mas sim nas suas luas, quase todas elas rochosas. Ao todo, este sistema acumula 49 luas. Curiosamente, o último planeta tem apenas uma.

* * *

04.49 horas MZ. Para combater a mais que óbvia monotonia que se abate sobre todo e qualquer batedor do Ministério dos Recursos Mineiros que tem de mapear minuciosamente uma lua a cerca de 950 milhões de quilómetros do ser humano mais próximo de si (provavelmente essa honra deverá caber ao Galique Muniyox, que ele conhece bem e que é o controlador do tráfego aeroespacial de entrada e saída dos hangares de acoplagem da nave-mãe – como para isso ele tem de ficar num compartimento “tipo varanda” a mais de 20 metros do corpo principal da nave e como este está virado para a parte externa do sistema, logo...), o Ministério resolveu criar um serviço que mantém o fiel seguidor actualizado através de regulares boletins noticiosos, entretém com a divulgação de curiosidades e novidades simpáticas (como daquela vez em que um túnel foi aberto com base em cálculos errados e a nave batedora que o atravessou foi parar a meia dúzia de metros de uma supernova acabadinha de explodir) e, acima de tudo, faz calorosa companhia a quem tem de aturar emergido em solidão a vastidão infinita do Espaço. Aliás, os responsáveis pelo serviço, conhecido como RUI (Rede Universal de Informação) gabam-se de conseguir fazer chegar a sua onda a todo o lado, mesmo que lá ainda não tenha chegado nem sequer uma sonda batedora. O seu lema é “Consigo até ao fim do Mundo!”. Eliano tem reservados sempre dois monitores para as diversas estações da RUI. Por hoje, a informação mais importante vai sendo ainda a da captura da última bolsa de resistência dos Hereges, em Sagan 4. Nas imagens, o líder deles a ser levado para a Tribuna do Conclave, onde serão executados todos com a maior brevidade possível. Até que enfim, já não era sem tempo que se acabava duma vez com a raça destes desgraçados! No monitor, Eliano fixa a face enraivecida do líder Herege, que se debate inutilmente contra os guardas que o encaminham para o seu fim, enquanto grita aquelas que serão as suas últimas palavras públicas: “Dizeis que assim eliminais uma ameaça, mas não! Pelo contrário, estareis a concretizar vós mesmos, assassinos, a pior de todas as ameaças! Assim que tombar em martírio e sacrifício o último cordeiro do Povo do Senhor, as trombetas do Juízo Final soarão!... e darão lugar ao Fim do Mundo, ao Fim dos Tempos, ao Apocalipse, ao Armagedão!!! Estais preparados para condenar as vossas almas ao fogo eterno? Estais...” – e depois já não disse mais nada. O boletim informava que a loucura terrorista dos Hereges tinha o seu fim programado para as 06.00 horas MZ. Os últimos Hereges detidos... curioso...

* * *

“Q.I de 186, o que quer dizer que será encaminhado para a Academia de Classe Beta... Não, não, entre 170 e 210 é Classe Beta, não há outra hipótese... Claro que sim, há muito futuro na exploração mineira... Nem toda a gente pode ser engenheiro, minha senhora... Eu? Não senhora, como qualquer outro professor na minha posição, devo salientar que a Classe Beta garante a melhor instrução a todos os seu alunos... Sim? Ah, pois... O pai esteve na Academia Alfa e... Q.I de 253?... Lamento, não sou eu que faço as leis, minha Senhora, ele tem mesmo de ir para a Academia Beta... Sim? Pronto...Óptimo, óptimo, Senhora Suznar, então esperamos mais duas semanas até o pequeno Eliano cumprir o requisito mínimo dos doze anos de idade e pode começar a fazer as malas dele... sim senhora, igualmente. Para si também, até lá.”

* * *

04.55 horas MZ. Na solidão das estrelas, o vazio. Na escuridão do lado nocturno desta lua longínqua, o silêncio. Na ausência de interlocutores, um pensamento surge, por entre cálculos instantâneos de telemetria e navegação orbital: a Humanidade iria finalmente ficar livre duma vez por todas de loucos que acreditam na existência duma divindade criadora do Universo. Mas como teria isso alguma vez sido possível? Como é que pessoas racionais e saudáveis podiam acreditar que existe um plano metafísico paralelo à realidade palpável? Como é que alguém se pode recusar a aceitar o óbvio – que não há mais nada para além do que podemos perceber com a Razão? Como é que se pode preferir acreditar que existe Algo ou Alguém que determina o funcionamento das coisas, que é um só com o Todo, que é um poder absoluto? Como é que se pode condicionar o comportamento mediante uma expectativa de castigo ou recompensa dessa entidade omnisciente e justiceira? Como é possível que culturas inteiras e até civilizações se tenham regido de acordo com princípios dogmáticos sem sentido nenhum, baseados em supostas forças sobrenaturais às quais deviam obediência, reverência, temor ou respeito? Como se pode compreender que durante milénios se tenha obstruído e bloqueado com desprezo a Razão, agente único superior de toda a mecânica universal? Como? Não consegue compreender. Ainda por cima quando a crença cega e doentia na divindade levou a Humanidade à guerra fratricida incontáveis vezes e chegou mesmo a colocar em gravíssimo risco a sobrevivência da espécie... Isso aconteceu na Grande Guerra do Século XXI, em 2041 para ser mais exacto...

* * *

“Então, já estudaste tudo para a ‘minação’ de História?”

“Não, Eliano, ainda não. Falta-me ver ainda a parte do Século XXI”.

“Eh pá, isso é fácil. Não tem nada que saber. É só falar da Guerra das Religiões e das suas consequências.”

“Sim eu sei, mas é que tenho ‘minação’ de E.T. amanhã de manhã e de História à tarde. Acho que não vou ter tempo de ver tudo.”

“Olha lá, não achas que bem podias ter ido preparando a matéria ao longo da semana, meu mandrião?”

“Ah, para ti é fácil dizer isso, mas não te esqueças que na terça-feira de manhã acordei com supergripe-infecciosa-hemorrágica e tive de ir ao Núcleo de Curas da Academia para me aguentar vivo. Depois já se sabe como é, com uma doençazita daquelas, não me deixaram sair da quarentena até quarta-feira à tarde, para garantir a recuperação total. Assim, perdi logo um dia e meio de estudo!”

“Pois, tens razão. Olha, fazemos assim: porque não conversamos aqui um bocadinho sobre a matéria de História? Assim eu também revejo os meus conhecimentos. Pode ser? Depois podes ir preparar a ‘minação’ de Estudos de Túneis”.

“Parece-me bem. Em três anos nunca faltei a uma única Examinação Global Semanal, e não queria começar agora...”

* * *

4.59 horas MZ. Duas das sondas de superfície já lançadas enviam o seu relatório instantâneo para a pequena nave em órbita. Parece que há taranídeo lá em baixo. Oh sim, decididamente há mesmo taranídeo lá em baixo. Pelo menos, duas jazidas enormes no que de superfície foi analisado até agora. Dois enormes depósitos do metal mais precioso de todo o Universo já foram encontradas no que até agora foi batido da superfície deste pedaço de rocha escura e sem atmosfera a girar em volta dum monstro gasoso e gigantesco. Aliás, dizer que a superfície foi ‘batida’ é mesmo a palavra certa, tanto para dizer que foi vasculhada, fotografada, medida, testada, observada e analisada pelos instrumentos de prospecção, como para dizer que já foi atingida vários milhões de vezes por corpos celestes erráticos atraídos pela sua força gravítica ou simplesmente em rota de colisão com ela. Sim, poderiam ser suposições, caso não ostentasse de forma bem visível todas as cicatrizes em forma de cratera que lhe cobrem completamente a superfície poeirenta e pedregosa. Mais ou menos como a face de um adolescente antes de se submeter à intervenção genética que lhe limpa definitivamente a face do tormento do acne. Sim, há taranídeo lá em baixo, pelo menos o suficiente para abrir à volta de dez a quinze túneis. Se há garantias neste mundo, então uma delas é que ele ainda vai explorar áreas mais, muito mais remotas e distantes deste vasto deserto sideral desprovido de tudo menos de um ou outro lapso no vácuo eterno, chamado matéria. Por sorte, vá onde for, sabe que as calorosíssimas emissões da RUI estarão sempre lá, “consigo até ao fim do mundo!”. Reconfortante, sem dúvida...

* * *

“Então, percebeste?”

“Sim, agora acho que sim.”

“Pronto, então as causas e as consequências da Guerra das Religiões foram...?”

“As Causas da Guerra das Religiões foram religiosas, e as consequências foram más.”

“Sim, concretiza...”

“Então, a guerra começou porque quase toda a gente era Herege naquela altura, só que ainda não sabiam que o eram, então dividiram-se em dois blocos e mataram mais de metade da população da Terra. As consequências foram que descobriram que eram Hereges e foram reconhecidos como tal. Ah, outra consequência importante foi o acidente ao largo de Marte que abriu o primeiro túnel do espaço! Certo? É isto não é?”

“Bem... pois, sim... é mais ou menos isso. Acho que sim. Mas acho que te falta limar uma ou duas arestasinhas pequeninas para seres aprovado na ‘minação’ de História amanhã... Vamos rever isto um bocadinho melhor, pode ser?”

“Sim, suponho. Vá, começa lá, então...”

* * *

05.02 horas MZ. É verdade, as famosas Examinações Globais Semanais, ou ‘minações’. Na Academia de Classe Beta eram rigorosos com as avaliações regulares do ensino ministrado. Exigiam sempre um acompanhamento regular da matéria, sob pena de se ter de repetir o semestre inteiro em caso de insucesso numa única examinação. Mas verdade seja dita, ninguém ousava não aprender realmente o que era ensinado. Ainda hoje, tanto tempo depois, os arquivos da memória armazenados no córtex cerebral lhe mostram com notável vividez os factos e feitos que fazem a História da Humanidade, tal como ficarão para a Memória do futuro os acontecimentos que terão lugar hoje, daqui a pouco menos de uma hora, quando os últimos Hereges forem silenciados de vez. Hereges... as suas ideias loucas e descabidas, a sua irracional crença numa entidade divina, a sua tendência para negar as suas próprias teses de amor e tolerância que quase varreram a vida da Terra... Como havia sido possível?

... No início de século XXI a Terra estava povoada por pessoas que, na sua esmagadora maioria, tinham uma qualquer crença em divindades e existências sobrenaturais. Por essa altura havia dois grandes blocos antagónicos e rivais, que o eram apesar de ambos apregoarem a fé num Deus único, bom, misericordioso, omnisciente, omnipresente e omnipotente. O antagonismo e a rivalidade entre esses dois grandes blocos religiosos tornaram infrutíferas todas as tentativas levadas a cabo pela comunidade mundial para tentar apaziguar a crescente tensão que alastrava pelos continentes fora, à medida que o Século XXI avançava para os seus meados. Conflitos de pequena dimensão começaram a surgir um pouco por todo o lado, sempre as culpas inexplicavelmente atribuídas ao rival. A situação começou a tornar-se insustentável quando as pessoas se aperceberam que os dois exércitos mais poderosos do mundo estavam sob as ordens de fanáticos religiosos de dois blocos que faziam uma interpretação bem acalorada dum termo inventado no século XX e que se adaptava perfeitamente ao status quo vigente até meados de 2040: Guerra Fria. Essa “Guerra Fria” das religiões começou na segunda década do Século XXI e arrastou-se durante mais de vinte anos, durante os quais nunca houve um conflito armado aberto entre ambos, mas durante os quais as armas também nunca tiveram um único momento de descanso. O crescente temor de uma aberta beligerância entre ambos, cujo número de partidários somados superava os seis biliões e meio em 2036, levou a que se constituísse nesse mesmo ano um Comité de Arbítrio Multilateral, um movimento cívico independente formado a partir de outros movimentos de menor expressão que queriam aliviar a tensão latente entre os blocos, sendo o seu único objectivo tentar sentar à mesa das negociações as duas partes do iminente conflito e ajudá-las a chegar a um acordo geral sobre os termos definitivos que fizessem com que a paz podre que minava o chão pisado por toda a gente na Terra passasse a ser um bem reconhecido e defendido por todos – todos sem excepção! Uma, duas, três, dez, vinte, trinta cimeiras, reuniões, encontros, conferências, até serviço de pombo-correio o Comité promoveu, mas nada – o fanatismo e a intolerância simplesmente falavam sempre mais e mais alto. Num mundo com quase oito biliões de seres humanos, dos quais cerca de seis biliões vivem abaixo do limiar da pobreza, se calhar é fácil as pessoas deixarem-se levar por ideias irracionais e crenças numa qualquer entidade sobrenatural que as vai recompensar pela sua pobreza, pelo seu sofrimento, pelo seu sacrifício mais tarde ou mais cedo – com muita probabilidade, o mais tarde possível: depois da morte. Oh, e como é fácil arrastar essas pessoas para as hordas da loucura quando se usam esses mesmos argumentos para lhes pôr à frente um inimigo que não só põe em causa a veracidade das suas crenças, como ainda por cima lhes “rouba” ideias e as torna extremamente parecidas com as suas para delas fazer leis, princípios, dogmas, postulados, mandamentos, preceitos a cumprir para o bem, não das pessoas e do seu “aqui e agora”, mas sim para o bem da divindade que adoram e que se sente ofendida pela existência do grupo religioso rival – que, obviamente, urge destruir, para assim aplacar a sede insaciável de sangue da sua perfeita divindade do amor e da tolerância...

Os esforços do Comité foram hercúleos, mas em vão. O facto de ambos blocos terem começado os seus próprios projectos de colonização de Marte e de “levar a sua fé até à imensidão dos céus e para lá dela, até ao próprio Deus” para uns e para os outros “expandir a luz da Palavra pelos quatro cantos da Criação Suprema”, causou imenso atrito entre eles e, não raras vezes, escaramuças no espaço ainda pouco explorado e, decididamente, pouco seguro. Muito pouco seguro. E foi precisamente um recontro pouco amigável entre dois módulos espaciais que transportavam colonos para Marte, aliás, para a mesma área de Marte, aliás para exactamente o mesmo ponto de aterragem e precisamente ao mesmo tempo em Marte (mais que logicamente cada um com milhares de obedientes ovelhas de cada um dos dois grandes rebanhos religiosos), que deu início ao mais que aguardado (e mais que muito temido) desastre: a 16 de Janeiro do ano 2041, quando os relógios indicavam as 09h47 naquele que viria ainda a ser conhecido como Meridiano Zero, a Guerra das Religiões foi deflagrada. Guerra pura e dura, total e mundial, desapiedada e descontrolada. Nada nem ninguém lhe ficou imune, não só as ovelhinhas dos dois blocos beligerantes, como também os que tinham optado por se juntar ao falhado movimento pacificador do Comité e todos aqueles que nunca tiveram qualquer tipo de opinião nem interesse sobre o que quer que fosse que estava em disputa entre os dois grandes rivais religiosos.

* * *

05.14 horas MZ. Mais um relatório instantâneo enviado por uma das irrecuperáveis sondas de superfície, mais uma jazida de minério identificada. Mas desta vez o aval é negativo. Não se trata de taranídeo, mas de um outro metal que não apresenta qualquer tipo de valor, apesar de, no passado, já ter tido uma grande procura na Terra. Chamam-lhe ouro. Curioso, esse era o nome do primeiro túnel espacial aberto depois do acidente com o cometa, como é que se chamava? Ah, sim, Lemur! O acidente ao largo de Marte, no fim da Guerra...

...Foi em Outubro de 2042, exactamente um ano depois do fim da Guerra das Religiões, que o primeiro túnel espacial foi oficialmente inaugurado. Deram-lhe o nome de “Novo Portão de Ouro”, o que vem provar que o ouro deveria mesmo ter muito valor naquela altura. O facto de a inauguração ter tido lugar no dia 3 de Outubro de 2042 esteve muito longe de ser obra do acaso. É verdade que os cientistas (que pelos vistos na altura ainda não eram formados na Academia de Classe Alfa... se calhar porque ainda não existia a Academia de Classe Alfa...) demoraram quase um ano a perceber como funcionava o túnel aberto acidentalmente no episódio com o cometa Lemur, mas as autoridades fizeram questão de adiar a inauguração cerca de três semanas para esta coincidir com a data do fim da guerra. O fim da Guerra das Religiões, a mais mortífera que alguma vez assolou a Terra... ou melhor, a Humanidade, porque esta guerra começou e acabou fora da Terra. Mas foi na Terra que causou mais devastação. Foram levados a cabo ataques maciços com armamento biológico, de resto o tipo de arma mais usado em todo o conflito. As armas atómicas, que poderiam perfeitamente ter aniquilado toda a vida em questão de horas, foram muito bem anuladas pela acção do Comité que, durante o conflito, desempenhou um papel importantíssimo no que ao atenuar das suas repercussões diz respeito. Conseguiram desenvolver um programa pirata que impedia as armas nucleares de explodir. Ainda assim, cerca de uma dezena foram bem sucedidas no seu intento explosivo e cumpriram o seu objectivo assassino. O que não foi feito por doenças geneticamente manipuladas nem por detonações atómicas, foi-o por ataques aéreos, bombardeamentos pesados, chuvas de mísseis convencionais, incursões terrestres de infantaria, barragens de fogo naval e até mesmo pela luta corpo a corpo, quando não por ataques suicida. A fome encarregou-se do resto. Ao fim de quase oito meses de conflito, quando as condições de sobrevivência na Terra obrigaram os grandes chefes dos blocos beligerantes a procurar refúgio e campos de batalha no espaço, especialmente entre a Lua e Marte, quando já se contavam cerca de cinco biliões de mortos, vítimas directas do conflito, descobriu-se que o cometa Lemur, que estava a atravessar a Cintura de Asteróides, iria colidir com Marte e, inevitavelmente, destruir o último local de esperança para a sobrevivência e reconstrução da espécie humana, sempre e desde que se conseguisse furtar à ceifa da Morte empunhada pelas mãos assassinas dos fanáticos religiosos alguns exemplares para continuar a história...

Com o conflito à vista, o Comité fizera os possíveis para enviar tanta gente quanta pudesse para a suposta relativa segurança das, ainda assim, pouco seguras colónias marcianas. É claro que, no princípio da guerra, apenas queriam ir os que não estivessem directamente envolvidos no esforço bélico do conflito, pelo que, se fossem trezentos milhões de refugiados os que debandaram para Marte, já não era mau. Curiosamente, ou talvez não, o planeta vermelho onde a guerra tinha começado acabou por se tornar no local mais seguro para se estar no decurso das hostilidades, porque as duas colónias marcianas de religiosos em vias de estabelecimento haviam ficado desertas, pois os seus ocupantes haviam rumado de volta à Terra para aí melhor defender a carnificina exigida pela sua fé. Lógica distorcida a todos o níveis, não haja dúvida! Mas por volta de Setembro de 2041 assistiu-se a uma debandada geral para o espaço. A febre homicida dos envolvidos assim o impunha. Curiosamente, o momento da transferência do conflito para o negrume do espaço e a perspectiva de transformar Marte, também ele, num possível campo de batalha, coincidiu quase perfeitamente com a descoberta da trajectória do cometa Lemur, em iminente rota de colisão com o planeta vermelho. Isto foi, para grande espanto e surpresa do Comité, que se preparava para tentar resolver sozinho este dificílimo desafio, tido por grande parte dos radicais religiosos como um sinal da entidade divina (cada bloco com a sua) de que o Fim do Mundo se aproximava, o que lhes exigia, ou o sacrifício máximo da própria vida para garantir a continuação da Grande Obra do Senhor (entenda-se, continuação da espécie humana enquanto conjunto de seres vivos), ou a revelação de que apenas o seu grupo sobreviveria a este ‘santificado e sagrado’ conflito, sendo que a aniquilação do ‘inimigo’ seria levada a cabo pelos próprios crentes e a divindade levaria a cabo a extinção dos que nem eram crentes, nem eram inimigos, em Marte. Ora, como em pouco mais de oito meses já lá iam mais de cinco biliões de mortos e nenhum dos lados se via particularmente protegido dos ataques do inimigo pelas asas invisíveis mas indestrutíveis da justiça divina (verdade irrefutável que cada um dos blocos jurava ter-lhe sido adiantada em primeira mão pela própria entidade – se bem que uns diziam tê-la recebido numa sexta-feira, os outros num domingo), uma muito pouco esperada epifania fez luz nas obscuras mentes dos líderes de um e outro lado. Assim, cada um dos blocos resolveu meter os seus mais altos dignatários – e mesmo os seus mais amados líderes! – dentro de naves suicidas que lançaram de encontro ao cometa, sem dizer nada a ninguém, com a esperança de que a sua divindade se compadecesse do seu rebanho mediante tamanho auto-sacrifício e lhe outorgasse a vitória final. O que nenhum dos lados sabia era que, por um lado, o Comité tinha conseguido desenvolver um projecto eficaz que consistia no bombardeamento cirúrgico do cometa, fazendo com que este se dividisse em 15 pequenos bocados e que, fruto do impacto das explosões, acabariam por assumir uma trajectória diferente; por outro lado, os que sobrevivessem iriam ter tanta ajuda da sua divindade para derrotar o inimigo como a que um tubarão tem de uma foca para pôr a toalha de jantar na mesa... Resultado: no dia 3 de Outubro de 2041, num espaço de apenas três quartos de hora, duas naves, cada uma delas recheada até à escotilha da ‘crème de la crème’ dos Senhores da Guerra, estatelaram-se violentamente contra o cometa Lemur, arruinando grande parte do plano do Comité para resolver o problema. Em vez disso, o bombardeamento acaba por provocar uma reacção de explosões em cadeia no interior do cometa e, no lugar dele, aparece um estranhíssimo buraco com uma tonalidade avermelhada, aparentemente flamejante, mas sem qualquer indício de combustão. Epílogo: os religiosos que sobram decidem que a guerra já não faz sentido e dão-na por terminada, tendo inclusivamente uma boa parte deles acabado por renegar os seus ideais religiosos e aderido ao que viria a ser conhecido como Filosofia da Razão; os restantes continuaram a abraçar a sua fé, mas a fé que sobreviveu à guerra foi uma só – os anteriores inimigos abraçavam-se agora como Irmãos, unidos na glória misericordiosa do Deus único que os havia salvo por igual da grande matança. O Comité, por seu lado, assumiu o Governo, não só da Terra, mas de toda a Humanidade. Assim que foi possível, estabeleceram numa das áreas do Planeta Azul menos afectadas pela devastação do conflito aquela que é ainda hoje a sua capital, Pangaea, a cidade onde se encontra o Conselho Global e por cima (ou por baixo, tanto faz) da qual passa o Meridiano Zero, geralmente conhecido como MZ. A hora do Meridiano Zero é, aliás, a hora oficial em todo o Universo, independentemente da hora local seja onde for – assim sabe-se sempre o que era suposto uma pessoa estar a fazer se estivesse em casa, em vez de estar a milhões de anos-luz à procura de jazidas de taranídeo. Se por acaso fossem 05.14 horas MZ, por exemplo, seria suposto estar a dormir e não a trabalhar. Enfim...

* * *

“...Ah, então a caça aos Hereges só começou mais tarde, não foi logo no fim da guerra!”

“Exacto. Aliás. No fim da guerra ainda não se lhes chamava Hereges. Na verdade, não se lhes chamava nada em especial; eles é que se auto-intitulavam ‘Os Crentes’. Imagina só!”

“Realmente, é preciso ter lata...”

* * *

05.36 horas MZ. Já falta pouco para acabar de circum-orbitar esta esfera flutuante no espaço cada vez mais parecida com um rebuçado recheado de taranídeo. Depois já pode recolher à nave-mãe, a 950 milhões de quilómetros. Nada de especial, uma viagenzita para duas horitas. É verdade que o seu módulo espacial está feito essencialmente para flutuar e fotografar com calma, precisão e paciência, não para andar pelo espaço fora feito carapau de corrida (há séculos que se usa esta expressão, mas subsistem sérias dúvidas que alguém fora do círculo das elites científicas saiba sequer o que é um carapau...). Aliás, até se pode considerar uma velocidade altamente razoável, tendo em conta que é uma deslocação real através de uma distância real, e não um salto dimensional através dum túnel do espaço. Mas sem as dobras nas três primeiras dimensões da realidade proporcionadas pelos túneis, nunca teria sido possível chegar tão longe em tão pouco tempo. E pensar que tudo começou acidentalmente, quando o cometa Lemur explodiu ao largo de Marte...

...O cometa Lemur era um cometa exterior, que detinha uma órbita estranhíssima e totalmente desconhecida. Descoberto apenas em 2040, concluiu-se que apenas fazia uma aproximação ao Sol a cada 65 milhões de anos, ignorando-se totalmente por onde andaria entre aproximações. O facto é que quando se provocou a explosão do cometa, este acabou por sucumbir a uma série de reacções em cadeia que o volatilizaram completamente, aparecendo no seu lugar o que viria a ser conhecido como o ‘Novo Portão de Ouro’, o primeiro túnel do espaço. Aparentemente Lemur continha milhões de toneladas de taranídeo no seu interior – mais tarde veio a descobrir-se que este é um mineral bastante comum no Universo; inexplicavelmente, no Sistema Solar apenas se encontra em Plutão e Ceres – que, ao atingir a exacta temperatura de 1.099,7ºC e encontrando-se numa proporção de 9 átomos para 1 de hidrogénio, abre-se uma fenda no contínuo espacial, na qual as dimensões de altura, largura e comprimento sofrem uma espécie de ‘dobra’. Esta dobra pode ser manipulada – como, só os cientistas formados na Academia de Classe Alfa é que sabem – e abre-se, algures no espaço (sendo que esse ‘algures’ pode ser pré-determinado através de cálculos exaustivos) uma outra abertura que funciona como saída do túnel. E assim o Ser Humano tem ocupado grande parte do seu tempo nos últimos dois séculos, lançando-se nas profundezas do Espaço com o intuito de descobrir se estamos ou não sozinhos nesta existência. E para garantir que vai poder continuar a procurar vida cada vez mais e mais longe, mobiliza-se uma quantidade enorme de meios para encontrar taranídeo cada vez mais e mais longe, para poder abrir túneis cada vez mais e mais longe, para continuar a procurar vida cada vez mais e mais longe...

Para além da caça ao taranídeo que permita ir procurar vida, houve uma outra questão que manteve as mentes pensantes ocupadas durante mais de cem anos – até hoje. É claro que a questão em causa é a da caça aos Hereges, não para procurar vida nova, mas para executar a pena de extermínio a que foram condenados todos os criminosos religiosos do Universo, depois do atentado terrorista de 2113...

* * *

05.55 horas MZ. O trabalho está quase concluído. Pelo menos, este trabalho está quase concluído. Mais cinco minutos e o módulo acaba de circundar a face nocturna da lua ‘depósito de riquezas minerais’ que tanto vai agradar à incansável, imparável e insaciável indústria expansionista da Terra. Já só falta receber o relatório de uma sonda de superfície e ‘adeus a este fim de mundo’. Entretanto, num dos monitores, a RUI vai lembrando que a execução dos Hereges está agendada para daqui a breves minutos. Enquanto se espera, surge no monitor uma vez mais a face sisuda mas sorridente do orgulhoso coronel que levou a cabo e com sucesso a missão de captura dos terroristas, explicando na primeira pessoa a incrível aventura que custou a vida a três dos seus melhores operacionais, e outros pormenores de índole psico-geo-estratégica, com interesse apenas para quem sofre de paralisia cerebral há um par de dias. Quem vai sofrer de paralisia cerebral para a eternidade, não tarda nadinha, são os terroristas. Assassinos! Estúpidos criminosos! Mais uma vez, a crença religiosa numa entidade divina a ditar comportamentos...

...No fim da Guerra das Religiões, em 2041, instituiu-se a nível global uma doutrina completamente assente nos postulados básicos dos Princípios da Razão, chamada Filosofia da Razão. Os Princípios da Razão são muito simples, e vigoraram vitoriosos até hoje: “não existe metafísica; as práticas religiosas são uma expressão inferior de doutrina social; o único Ser Superior em todo o Universo conhecido é o Ser Humano, por ser senhor duma consciência inteligente e insuperável. A crença em divindades é errada e perigosa, pelo que é largamente desaconselhada e combatida intelectualmente”. Os crentes religiosos que sobreviveram à guerra reuniram-se num só grupo e denominaram-se ‘Crentes’, por oposição a todos os que abraçassem a Filosofia da Razão. À medida que o tempo foi passando, os ‘Crentes’ foram-se fechando no seu círculo, isolando-se do resto do mundo. Um clima de desconfiança e descrença foi ganhando terreno entre os defensores da Razão, que tinham muito presente os horrores provocados pelos religiosos ao longo dos tempos. Essa descrença foi-se transformando em desprezo, até ao ponto em que os ‘Crentes’ deixaram de se sentir bem-vindos na Terra e partiram em busca de uma nova casa. Até aqui tudo bem. O problema surgiu quando os religiosos, crescentemente fanáticos, ameaçaram imiscuir-se nos assuntos da Terra se a equipa de cientistas do Doutor Karkary continuasse as suas experiências com o genoma humano. Indiferentes às ameaças, os cientistas anunciaram em triunfo que tinham acabado de ‘corrigir a anomalia natural que acompanhava cada Ser Humano desde a sua concepção’ e que o impedia de viver naturalmente mais de 100 anos; com base na sua descoberta, a ‘correcção genética’ iria permitir a toda a gente viver até aos 200 anos! Estava-se então em 2113 e não durou muito até que os fanáticos religiosos fizessem sentir bem sentido o seu repúdio pelo que consideravam ser a ‘manipulação suja e pecaminosa da obra divina perfeita’. Assim, dotados de um elevadíssimo sentido de corrigir o que está mal e provando que a História se repete sim senhor, lançaram um hediondo ataque terrorista sobre Marte, matando milhões de colonos e destruindo grande parte das infraestruturas do planeta. Não havia defesa possível porque não havia razões para acreditar que se fosse dar semelhante ataque. A resposta não se fez esperar: o Conselho Global declarou unanimemente todos os autodenominados ‘Crentes’ como ‘Hereges da Razão’, por renegarem a verdade irrefutável da lógica racional e por incorrerem em actos beligerantes e belicistas contra inocentes desprevenidos. Além disso, considerou a sua heresia como um perigo eterno, se deixado livre e por combater. Desse modo se aprovou o decreto que condenou inapelavelmente ao extermínio todos os Hereges da Razão, para evitar que alguma vez voltasse a haver um conflito motivado pela intolerância de cariz religiosa, já que ficara mais que provada a impossibilidade de coexistência entre adeptos da Razão e ignorantes fanáticos religiosos, perpétuos fomentadores de conflitos. Se não era possível levar até eles a verdade de que Deus não existe, então acaba-se com a sua heresia duma vez e assunto arrumado. Hoje, finalmente, após quase cem anos de caça pelo Universo fora, os últimos seguidores da mentira divina vão desaparecer...

* * *

Acordou repentinamente do seu sono acordado, do refúgio dos seus pensamentos abstractos, no qual estivera perdido nos últimos minutos. Olhou para os monitores da RUI e franziu o sobrolho quando reparou que um estava todo negro, sem qualquer imagem, e o outro tinha uma imagem congelada, parada, na qual estava o líder dos Hereges, imóvel, no momento em que proferira há minutos atrás as suas últimas palavras. Que se passa? As transmissões nunca tinham sofrido qualquer tipo de interrupção, fosse onde fosse – “Consigo até ao fim do mundo!”. Seriam interferências de algum tipo? Ataque terrorista a danificar a rede de retransmissores? Impossível, os terroristas estão todos presos e vão ser executados daqui a... Olhando para o relógio, são 06.01 horas MZ. Olha, então quer dizer que eles já foram executados. Isso quer também dizer que o módulo espacial acabou de sair da face nocturna da lua CTRV-5/1 há cerca de um minuto... mas então, onde está a luz do sol? Ter-se-ia enganado nos cálculos de órbita? No monitor da RUI que ainda semifuncionava, por baixo da face raivosa congelada do Herege aprisionado, numa legenda lia-se: “...assim que tombar o último servo do Povo do Senhor, as trombetas do juízo Final soarão...”. A imagem no monitor apagou-se de vez e, depois disso, só teve mais três segundos para se aperceber que a estrela CTRV já não estava onde devia e exclamou, pela primeira e última vez na sua vida, antes de o gigantesco buraco negro engolir tudo à sua volta: “Oh meu Deus...!”


João Tavares

Conto

A Pique

Hoje acordei, ouvi um barulho lá fora, ou ouvi um barulho lá de fora e acordei, talvez o tenha ouvido enquanto acordava ou mesmo acordado sem o ter ouvido ainda que soado tenha por certo. Ou quase. Que pena tenho de fazer a cara de sempre sempre sentindo a mesma alegria por no mesmo lugar de sempre sempre o ver fazer os mesmos gestos. Não me importa. A repetição não me aborrece. Repetir o aborrecimento de nunca repetir nada do que não é aborrecido, isso sim me aborrece.

Nasci vendo o chão de perto e tenho pela terra um gosto que não vejo nos outros, a terra é como quem diz, até porque molhada é chata… e fria e… pegajosa e… molhada! Sim, molhada, por isso não gosto dela a não ser quando é fresca. Inexplicavelmente, ora é fresca ora é molhada, o que é uma chatice pois nunca sei com o que conto. Há pedaços de terra muito duros, não faço ideia porque assim são, mas nem parecem irmãos dos outros, têm uma textura diferente que me dói na pele e o meu velho olfacto não lhe reconhece cheiro a coisas boas. Ala com eles ou ala deles que para mim são corpo estranho.

Começou o dia, vivo num rodeio de coisas que em grande parte não entendo, reajo dando-me e aceitando tudo o que ele me dá. Porquê não sei, mas também não me interessa, tenho tudo o que quero, mais não quero porque os outros também têm direito. Vejo tanta gente a querer mais do que precisa para estar bem. Percebia se lhes visse sucesso, mas não vejo nada disso. É tão simples ser feliz, se me perguntassem o que é preciso para o ser dizia logo, é isto, isto, isto e isto, se bem que às vezes até gosto quando a coisas se passa assim, assim e assim. Sou simples, simples é o mundo se não olharmos para ele com os olhos trocados que é como eu olho muitas vezes para o que me mostram entre mãos em frente ao meu nariz sem que lhe possa tocar até ordem em contrário.

O dia escureceu, nem dei por ela, é possível que tenha adormecido neste canto que é meu, talvez por ninguém o querer exceptuando eu. Não é que tenha o vício do sono, apenas gosto de ver as pálpebras por dentro. Vejo igualmente tudo, quanto mais não seja com os ouvidos. Alto! Orelhas a pique que alguém chegou, abro os olhos para ouvir melhor e bota dançaria até a língua estar devidamente pendurada ao peito! O cansaço deitou-me outra vez, é estranho como não me passam cartão mas, por saber que aqui estão, estou bem e confortável. De vez em quando lá vão falando para mim de uma maneira de que gosto ainda que não entenda o que dizem. Acho que é sempre o mesmo, mas quem sabe um dia compreenda. Este dia é como aquela pratada. Sempre igual, sempre boa, sempre novidade. Às vezes penso “se eles sentissem o que sente meu coração quando os vejo não estariam tantas vezes tristes e de pensamento no que aqui não está. A alegria é agora e com o que se tem, que é muito comparando com… quem assim não o pode dizer. Gosto tanto de ver as pálpebras por dentro que muitas vezes até as vejo mesmo que não queira, como está a acontecer agora. Acho que me vou, rápido, rápido para amanhã ouvir um barulho lá fora…


André Faia

Um pequeno texto

Morte, prematura Morte.

Vi a morte esboçada no parapeito da janela. Sentei-me um pouco, ao de leve na cama, desconfortável, talvez, com a improvável esperança que a sombra das paredes do quarto me resguardassem da luz. Virei o rosto, impelindo o olhar a atravessar o chamamento do reflexo que cobria o espelho. Lamentei a ausência da alma em mim, dos sentidos que escorriam, preguiçosamente, no meu pensamento. Rebusquei, então, as palavras, as ideias, os sons, os tons certos com os quais prestar atenção. Tu, imóvel, limitavas-te a examinar os meus gestos.
Caminhei sobre o manto desprendido pela morte. Apenas pressentia a sua sombra, um pouco mais adiante. Ali, ali mesmo no canto. Sente-la? Dos teus lábios fendidos notei um leve rumor de medo. Silenciosa, pálida, sequestravas o pêndulo das horas inadiáveis. Aproximei-me. O gelo tinha-se apoderado do teu corpo. Estremeci. Tentei acalmar a tua face, em lágrimas. Mas a angústia tinha já nidificado no teu jovem retrato. Esperei sentado a teu lado, até que o esquecimento se recompusesse. Eminentemente sós, abandonados à ignorância de que o fim nos espiava dissimuladamente. De repente, um vulto balanceou do nada sobre nós e apartou-me de ti para sempre.


Reis Neutel

Poesia

O que eu quero
- É sair deste círculo
De saber nada saber
Não saber sequer tal
Quero a ignorância vã
Aquela que não sabe de si
Não aqueloutra que pensa saber
O que os outros anuem irreflexo
O que eu quero
- É sair dos métodos
Nem sequer do não ter método
O rumo incerto e dúbio da dança
Mais do que isso – além do além
Do salto do bailarino
Mas sem o grafar, sem o pensar sequer
Sem palavras ocas
Não…
Não quero impressões estéreis
Quero fingir insciente
O que eu quero
- É aguçar ângulos
E vértices de pensamento
Ao não saber absurdamente nada
Quero as ancas daquelas meninas
Não os cérebros prodigiosos
Não os filósofos cheios de França
Não os velhos jarretas e bafos de livro
O que eu quero
- É sair d’aros d’entendimento
E recolher-me a espirais de tédio
Um mundo de gente a rir
Dos meus opróbrios, do meu Álvaro de Campos
E do seu «Arre, estou farto de semideuses!»
Eu
- Do que estou farto
É de estar farto de me enfartar
E de m’obstruir orbes que não conheço
É porque eu não quero ser o outro
Mas também não quero ser eu
Que não quer ser o outro
Outrossim
Quero tudo ou nada
E nada e tudo simultaneamente
O que nos leva à velha e escatológica questão do Sr. Domingos
«Mas, afinal, o que é que tu queres, caralho?»


Leonel Ferreira



PONTO DE EBULIÇÃO

E se houvesse o ribombar de foguetes
Do outro lado do universo?
Uma festa para a qual não fomos convidados
E se, sem que nós o soubéssemos
Todas as ideias nos não pertencessem
Mas fossem ideias dum outro?
E se nós próprios, em carne e espírito
Fôssemos não mais que ideias d’ outro
E essoutro fosse uma ideia entre ideias
Todas pensadas por outro
Um ente existindo entre biliões
Ínfimos entre o cosmos
Microrganismos dançando num pedaço de madeira
É que nós podemos ser pensamentos
Pensados por um pedaço de madeira
Não a nossa madeira
Porque nada seria nosso
Mas a madeira que não conhecemos
Porque, afinal, nós nada podemos conhecer
Que não seja tão-só vontade da madeira
E isto nem sequer é absurdo.
Porque somos nada,
Distantes da necessidade e da contingência.
E o Ser é deveras tudo?
Se fôssemos pensamentos d’ outro
Que consolação encontraríamos no Ser
No ser o pensamento d’outro?..
E se o outro nos pensa
Acaso quer que nós o saibamos?
Eu próprio tenho pensado entes
E tenho-lhes dado consciência de pensamento
E tenho fingido que eles acreditam existir
Amanhã destrui-los-ei em ficção
Quando vou ao café
Entretenho-me a fazer música
Entre a colher e a chávena
E isto é tão nada quanto pensar
A Lógica e a Dialéctica
É tão nada quanto a Revolução Francesa
E aquele amor que tivemos na adolescência
É tão nada quanto a Mecânica Quântica
E o foguete que estala nas festas de verão
Nem sequer é relativo
Porque não há relatividade num pedaço de madeira
Que nos pensa a relatividade
Por isso me não incomoda o sofrimento alheio
Nem me comove a música de Beethoven
Nem me ofende a barbárie e o inumano
Nem quero ser Médico Sem Fronteiras
Nem me indispõe a pneumonia
Nem que eu morra e morram todos comigo
Nem sequer o eu ser um pensamento
Pensado por um pedaço de madeira
Me tira o sossego de ser nada
Nada me incomoda
Porque não sou senão pensamento
Dum pedaço de madeira
Deus não nos há-de consolar
Não nos há-de pedir contas
Apenas a madeira é filha de Deus
E se Ele acaso sabe de nós – porque Deus tudo sabe
Sabe-o como nós sabemos dos invólucros de açúcar
D’abrir e deitar fora
Nada me importa
Entre eu que não existo
E o outro que me pensa que finjo existir

Leonel Ferreira




POEMA QUE NÃO APETECEU VERSEJAR


Quando acordo, dou graças por não encontrar na cómoda um revólver. É que, sob o pérfido e cáustico som do despertador, cativo do entorpecimento físico, adoentado dos olhos e vergastado pelo frio orvalhado de Janeiro, a vida deixa, completa e magistralmente, de fazer sentido.

A tristeza é de tal modo grandiosa que se constrói em mim a certeza de consciência nas coisas, as quais, até então, eu absurdamente ignorava. Nascem-me certezas de estar infeliz. Invejo a sorte daqueles cobertores que hão-de permanecer, bem-aventurados, narcotizados pelo sono cálido das manhãs; os sonhos que aqueles anjinhos de porcelana hão-de fantasiar, enquanto me abandono, aos tropeções, pelas escadas das ruas da cidade; a sorte dos tapetes, estendidos ao comprido enquanto atino angústias de permanecer vertical. Chego a invejar a sorte dos cadáveres, pelo menos de olhos fechados e não sentindo esta dor – sim, porque de uma dor física e absurdamente material se trata – que me flagela a carne e o pensamento.

É que se me dessem um revólver naqueles momentos em que acordo…

Morre-se muito neste mundo. E se a morte bafeja a tanta gente que não quer morrer, porque não cai sobre mim, implacável e súbita, para que eu, enfim, possa continuar dormindo? Isto é absurdo, bem o sei. Mas mais absurdo é o acordar não dar vontade de morrer. E se não se encontra já o sentido que baste no estar feliz, o despertar para a vida é a nulidade metafísica, o choro do bebé que acaba de nascer porque o tiraram dos cobertores da natureza. O trauma da nascença não é a vida nem o mundo, nem o mar nem o infinito; é o ter que deixar os cobertores…


Leonel Ferreira

Poesia

Sem a cor dos dias

Debruço-me sobre a longitude deste mar infinito
Desvio o olhar sobre o embalo do esquecimento
Retendo a imagem daquele menino
Lançando-se, distraído, num arremesso contínuo.
Por mim — entre mim
Nada existe que eu já não conheça
Ou, pelo menos sobre a qual
Eu já não me tenha cruzado anteriormente.

Às vezes penso que nada vale o sacrifício,
Que a ordem das coisas,
Que o desígnio de Deus
São imutáveis
E a minha pena já mais nada pode colorir
Senão a máscara da minha ausência.

Possivelmente, sou, apenas, uma projecção de mim mesmo,
Um grito a esvair-se no atrito do palco
Um pedaço do mundo
— da minha máscara rasgada
Desvendando o rosto desfigurado
No vórtice da incerteza.

É tudo que eu tenho
As lembranças adiadas,
Sonhos interrompidos,
Olhares clandestinos sobre os contornos da existência.
Sou tudo que possuo
E que algum dia repousará no silêncio do palco.

Mas, quem me dera poder achar o caminho
Sem deixar de tropeçar mais — em mim.


Reis Neutel



O Último Delírio Rosa

Entre nós e a sombra muda a vertigem do rosto,
O olhar sobre as coisas,
O derrapar das mãos sobre o papel de ausência,
Um quase segredo por descobrir nas sílabas átonas do amor.
Todas as palavras nuas a transbordarem no limiar da página
À espera de sermos nós mesmos
Na estância de cada verso anónimo
Que ficou por escrever
A poesia é essência da alma
Arte da palavra
Prolongar o silêncio antecedendo
A margem do destino.
Acordas retendo o perfume dos suspiros
Escondes a lâmina com que comprimes
os dias de outros dias,
margens decalcadas da alma num sonho por sonhar
Os dias de sempre ao arrasto de uma oportunidade
Seremos os delatores do plano de Deus?
O amanhã matou-nos
Em elucubrações fatais
E os teus lábios lembram-me o acordar do mundo,
O ardor de quando trespassamos o real das coisas
Nos tornamos os amantes à beira-rio,
A essência lírica
Dos instantes distantes
Que se curvam na palma da alma
Perante a silhueta de um beijo.
Lembro-me daquele tempo
De equiláteros desejos
Da geometria dos lábios
Do perfume ao qual cedi
Para puro deleite dos sentidos
Sonhávamos despertos nos contornos de fronteiras ideais
Éramos vertigem espargindo as cinzas no espelho,
O espelho da nossa existência
Fluíamos trespassados no gume do tempo
A centímetros da presença ausência
De vozes erguendo-se no limiar da dor
Somos alquimistas do amor
Astros entoando
A luz do firmamento
Anjos peregrinos ao alcance das estrelas
inextinguíveis na brecha da memória.
Seja-nos pemitido a vida
Que a morte — essa — já não nos escapa.


Reis Neutel



The chamber of God

It’s easy to dream,
To reach the heart
Still sleepin’ tight
And keep us far off the ground.
Imagine...
If God should part
Quiet and witty
And I was only His prey
To play.


Reis Neutel

Poesia

( poema de um embarcadiço a uma ilha de azul flutuante )))))

que império este tão raro
mundo império que olhar meu contempla.
me goteja do ser toda ilusão
e nascem espinhos – no chão – de sua criação.
Vibram sonoras, canoras,
trombetas de instante final
e o que senti - tudo aquilo -
se me despiu perante um níveo isto,
singelo de perene emoção.
e a ti me dou, em ti me encontro
meu viver foi esperar por ti –
- só aqui, apenas assim,
de ti arde meu coração

Rui Gonçalves Miranda


] ] acho da morte uma surpresa infantil / como de ser nos estranha o respirar –

. coração estrangeiro / coração de brincar [ [


E num instante contínuo
meu corpo já não o é
- estas mãos, estrangeiras,
olham, absortas e fundas,
do que sob o transparente
emerge sem o fitar.
falo. meu coração tem o nome
de águas que morrem,
e o que era sangue partiu já,
de sobre para nenhum lugar.


Rui Gonçalves Miranda


irmãos são os cães da estrada / que se alimentam do que acontece - irmãos são os vãos de escada / porque suportar é esconder - irmãos não são pr’ aqui chamados / irmãos só no morrer.


Rui Gonçalves Miranda



queixas a um bárbaro escravo


Porque vi que te amava por fim
sei já que amar não é para mim
e que amar só pode ser - como assim -
de maneira singular amar-te a mim
Porque de mim sei no amor e pela dor,
o que dado é ao provido amado;
sei o ter no amante um só criado
pelo esforço grande de o criar.
Amar-te não preciso porque o amor to dou.
mas amar só a mim me amo,
- de amar-te estou abdicado -
Porque o que ama saindo de si
p’ra casa volta desalojado.


Rui Gonçalves Miranda



romanceiro

O amor não sabe o que fazer
coloca as mãos nos bolsos e finge não saber por quê
Assobia devagar,
e um piano morre lento o seu tocar
e o amor crê-se enfim vibração infantil
dessa morte tão sempre igual
e o amor invade a janela e recolhe o mundo
(os joelhos suportam o seu olhar)
O amor sussurra um encolher
e o amor adormece devagar
O amor finge não procurar_o amor finge não acordar_o amor não sabe o que fazer
O amor retira as mãos dos bolsos
sem moedas para a solidão
e o amor, que está cansado,
encosta-se por um pouco
no peitoril da imensidão
e o amor não tem pousio
barbeia-se num pautado trautear
O amor não tem idade
mas a amar morre devagar
O amor esquece o antigo
quer ser novo e multiplicar-se
quer-se menino e, de soslaio,
cria um manjerico no seu gotejar
e de rimas e cantigas
nos bolsos cria um cantar
Um que lhe finja a mentira
outra a que o entoe pelo ar
E das asas, onde as pôs
do corpo desiste devagar
e engole-se na solidão
em dedos que tacteiam pelo ar

Rui Gonçalves Miranda

Poesia

Infócono

Alguém viu a sombra?
Onde a deixei pendurada?
A gravata que não condiz
Com os sapatos
E o dia que se estende
No Planalto Abissínio.

Desfila a auto-estrada
Cónica de murmúrios
Num céu opaco de estrelas pálidas.
As pupilas não saram o verde incessante das árvores
Nas faces mergulhadas
No vazio percepto
De um impulso
Que não cessa de fluir.

Um reflexo sobre a luz
O ângulo da chegada
O chapéu de sol
E o crepúsculo dissolvido
Nos ecrãs dispersos entre si.

Filipe Monval

Poesia

Lux non feras


Anjo maldito que te escondes na bruma do sono mal curado
Devora lágrimas aflitas de névoas turvas do passado
Acorda para dentro envolvido pela frieza do vazio
E parte, quieto e parado, na estrada deserta de ti e de tudo

Maldiz com palavras de cera a luz invisível de montes ocos
Onde resplandece entornada a alvura do esquecimento
Adivinha com todas as estrelas a eternidade do momento
Em que a vida é só o que nas profundas cavernas hiberna

Caído debaixo da roda do destino com um furo celeste
Te olhas cegamente ao espelho quebrado da inveja
Queres uma vontade que nunca conheceste em altura
Sendo que as ânforas milimétricas se sublimam em conteúdos só [de si

Segredo que te deitaram pela janela da floresta das nuvens sem [fundo
E não te deixaram saber o que nem sabes que há para saber
Anjo caído que acordas no mar do brilho profundo queimado
Desiste dos nadas que te pendem ao peito e te pesam como asas

Sic damno me, murmuras entre dentes de raiva e revoltas [cuspidas
Abdicas do paraíso que sabes em prol do negro desconhecido
Atiras para trás das costas do conforto a solidez da pluralidade [fugaz
E abraças em braços nus de esperança o calor falso da queda

Em pensamentos rachados de covardia derretida e duvidosa [certeza
Te lanças para sempre na órbita oblíqua do nada manchado de [torturas flamejantes
Pesadelo galopante a milhões de náuseas de abandono do lar [eterno por segundo
Estala-te na cabeça de seres senhor absoluto do pandemónio que [altivo reges

Serpenteante veneno que sibilas tentação à matriarca dos [monarcas deste mundo
Orgulho da repetição que fazes ecoar caidamente pelos cantos [jardinados
Promessas suspensas por fios de coração tingido de arbítrio [ofuscado
Ícone soturno de dores vomitadas por prazer em nove espirais [velado.


João Tavares




Constato

No quentinho da lareira de Morfeu
Durmo em cobertores de lã
Enquanto lá fora, no mundo acordado
O frio ou o calor,
Seja ele qual for,
Fazem do tempo
O que o Tempo quer.

Na alvorada da frescura orvalhada
Desperto em sorrisos de seda
Enquanto em volta, o mundo agitado
A pressa e os ditames do relógio,
Capatazes da Rotina,
Me dão a segurança de saber
Que tudo está bem
Porque está onde o deixei.

Seguro nas mãos devotas
O cajado da certeza
De cumprir com o destino
Que eu mesmo me vou fazendo
Dia após dia
Dia após dia
De acordo com as regras.

Espelho diante de mim
Porque me perguntas
O que não te sei responder?


João Tavares

Poesia do lugar

NOBRE CIDADE

Chaves, cidade linda e adorada
Que no coração tens tanto a dizer,
Pena é teres estado tão calada
Tantos anos sempre a empobrecer.
Mas quem teve a ideia abençoada
De tratar do comodismo vencer?
Nobre gente, como só aqui há,
Uma nova terra edificará.

Com uma história tão rica e marcante,
Tuas gentes se podem orgulhar
De terem sido uma peça importante
Para o reino se poder conservar
De qualquer invasão beligerante,
Ou meramente para conquistar.
Graças a Deus, tudo foi pelo melhor
Deste país, gozamos seu esplendor.

Antigos monumentos se levantam
Simbolizando dias de glória,
Onde todos os Flavienses proclamam
Momentos memoráveis de vitória,
Sobre os oponentes que aqui passaram
Incluindo os mais terríveis da História
E os próprios turistas ano a ano,
Agradecem a Flávio Vespasiano.

Tamanha fonte de Vida esperança,
Paz, sossego, liberdade, emoção.
As termas foram deixadas de herança,
As águas limpas do Tâmega já lá vão.
Nesta alegre e harmoniosa bonança
E com a gastronomia da região
São fontes do divino progresso,
Que nesta poesia enalteço.

Dos galegos vizinhos e irmãos
Chegam-nos muitas histórias de encantar.
Tamanhas façanhas com as próprias mãos,
Obras que fazem mortos levantar:
Camponeses viúvas e órfãos
Que fazem pelo conforto aumentar.
Assim, já está erguida a “Autovia”,
Coisa que aqui jamais se faria.

Por isso temos que tomar juízo
Que os horizontes são p’ra engrandecer,
Contudo, mais uma vez aviso
Do trabalho necessário a ter:
Terá que estar o povo conciso
Que iremos lutar até morrer:
Reivindicamos maiores facilidades
Mesmo às mais altas autoridades.

José Larouco

Citações

“A ciência é o grande antídoto contra o veneno do entusisamo e da superstição”.
Adam Smith (1723-1790); economista escocês.

Leituras



“Entre os lençóis” é um pequeno livro de contos da autoria do autor inglês Ian McEwan, publicada pela Editora Gradiva.
Nesta obra, McEwan, vencedor do prémio Booker Prize, em 1998, ao longo de sete pequenos contos, guia-nos pelos mais perversos corredores da mente humana, em complexas tramas que tocam, por vezes, a surrealidade, fundidas nos pesadelos e fantasias dos diferentes protagonistas.